BETO FARO, CHICÃO E A ALIANÇA QUE DESAFIA A LÓGICA COMO O PT PODE ELEGER UM CANDIDATO DO UNIÃO BRASIL AO SENADO
Por Fábio Maia
Na semana passada, esta coluna analisou como Helder Barbalho opera simultaneamente em múltiplos tabuleiros — MDB, União Brasil, PSB, PSD — construindo maiorias que vão muito além do seu partido de origem. Hoje, vou aprofundar um movimento específico que representa, na minha avaliação, a peça mais sofisticada desse xadrez para 2026: a aliança entre o PT paraense e Chicão para a disputa do Senado Federal.
É uma aliança que desafia a lógica ideológica. E é exatamente por isso que merece ser analisada com cuidado — porque ela ilustra, com precisão, como a política paraense realmente funciona quando o poder está em jogo.
O contexto: duas vagas em disputa
Em outubro de 2026, o eleitor paraense terá um poder incomum nas urnas: dois votos simultâneos para o Senado Federal. Os mandatos dos senadores Jader Barbalho (MDB) e Zequinha Marinho (Podemos) se encerram neste ciclo, abrindo duas cadeiras. Isso significa que o eleitor pode — e tende a — usar seu segundo voto como segundo voto do campo político que já escolheu para o primeiro. É exatamente nessa lógica que reside a jogada mais sofisticada de Helder Barbalho para 2026: garantir a sua vaga com o primeiro voto e, com o segundo, bloquear que seus adversários mais diretos ocupem a cadeira restante.
A vaga de Helder Barbalho é considerada praticamente certa nos bastidores — e nas pesquisas. Com mais de 47% de intenção de voto na pesquisa Simetria de junho/2026, ele é candidato sem adversário real para a primeira cadeira. A questão real é a segunda vaga — e quem Helder quer, e quem ele quer evitar que a ocupe. Seus adversários mais diretos na disputa são Éder Mauro (PL), delegado bolsonarista em terceiro mandato federal e crítico declarado da família Barbalho, e Zequinha Marinho (Podemos), senador que deve tentar a reeleição e que tem histórico de confronto com o campo governista. Para Helder, ver qualquer um dos dois ocupar a segunda vaga seria um revés político real — dois senadores opositores como adversários reais.
E é exatamente aí que a aliança entre Beto Faro e Chicão muda o tabuleiro.
Quem é Beto Faro — e por que o seu apoio importa
José Roberto Oliveira Faro é senador pelo Pará desde 2023. Nascido em Bujaru, agricultor, sindicalista rural, filiado ao PT desde 1987 e presidente do diretório estadual do partido. Quatro mandatos como deputado federal antes de saltar para o Senado em 2022 — eleito com 1.781.582 votos, equivalente a 42,55% dos votos válidos do estado.
Esse número é a chave de tudo. Em 2022, havia apenas uma vaga ao Senado pelo Pará — e o eleitor paraense tinha um único voto para o cargo. Beto Faro foi eleito porque Helder Barbalho orientou sua base eleitoral a usar esse único voto no candidato do PT aliado, e não no adversário do campo governista. Não era complementação de votos — era transferência direta de base. O eleitorado que elegeu Helder governador levou Beto Faro ao Senado. O resultado: 1.781.582 votos, 42,55% dos válidos. Mário Couto, o adversário de Helder, ficou de fora. A operação foi perfeita.
Em 2026, Beto Faro é senador em exercício, líder do PT no Senado Federal, e o nome com maior capilaridade junto ao eleitorado progressista e do campo da agricultura familiar no Pará. Sua base não é ideologicamente idêntica à de Chicão — mas é numericamente expressiva e disciplinada. E quando ele sinaliza um nome para o segundo voto, parte significativa desse eleitorado tende a seguir.
Quem é Chicão — e por que precisa desse apoio
Francisco Melo, o Chicão, é deputado estadual, presidente da Alepa e atual presidente estadual do União Brasil no Pará. Com mais de 30 anos de vida pública, construiu carreira como vereador, vice-prefeito, secretário de estado e parlamentar estadual. Eleito em 2022 com 91.542 votos — o quarto mais votado da Alepa naquele ciclo.
Seu perfil político é de centro-direita. É aliado histórico de Helder Barbalho e foi o instrumento da tomada do diretório estadual do União Brasil pelo campo do governador — como esta coluna já analisou. Perfil, trajetória e campo político que não têm, à primeira vista, nenhuma sobreposição natural com o eleitorado de Beto Faro.
Mas as pesquisas mostram um candidato que ainda não decolou nas intenções de voto. A pesquisa Simetria de junho/2026 o coloca com 12% das intenções — enquanto Éder Mauro aparece com 27% e Celso Sabino com 24%, em empate técnico pela segunda vaga. A Quaest de abril/2026 é ainda mais conservadora: Chicão com apenas 4%. E há um dado de rejeição que complica o cenário: 15% de rejeição registrada — número expressivo para quem precisa crescer.
Para disputar a segunda vaga com Éder Mauro e Celso Sabino, Chicão precisa de um eleitorado que não é o seu por origem. É exatamente esse eleitorado que Beto Faro pode mobilizar.
O precedente histórico — quando isso já funcionou
A aliança entre PT e MDB para o Senado do Pará não é novidade. E o precedente mais próximo é o que sustenta toda a lógica desta análise.
Em 2022, havia apenas uma vaga ao Senado pelo Pará — e o adversário que Helder precisava derrotar era Mário Couto, político histórico do campo adversário ao governador. A lógica foi simples e eficaz: Helder, governador em exercício com altíssima aprovação, orientou seu eleitorado a usar o único voto ao Senado em Beto Faro — candidato do PT, seu aliado, com quem compartilhava o campo do governo Lula. O resultado foi uma das maiores votações para o Senado na história recente do Pará: 1.781.582 votos, 42,55% dos válidos. Mário Couto ficou fora. Helder tirou seu adversário do jogo com uma aliança que ninguém esperava de um governador do MDB: apoiar publicamente o PT.
Há um precedente ainda mais antigo que completa o padrão. Em 2018, Zequinha Marinho se elegeu senador com o apoio de Jader Barbalho — o pai de Helder, o maior estrategista político do Pará — mesmo sendo do campo adversário. Em 2026, o mesmo Zequinha Marinho é candidato à reeleição pelo Podemos, crítico declarado dos Barbalho, e um dos nomes que Helder quer impedir de ocupar a segunda vaga. O homem que foi eleito com o apoio da família Barbalho em 2018 é, em 2026, o adversário que a mesma família quer bloquear. Nada no Pará é permanente — exceto o pragmatismo dos Barbalho.
O que está sendo construído agora para Chicão é a versão 2026 desse mesmo mecanismo. Helder como primeiro voto, Chicão como segundo — com Beto Faro sinalizando ao eleitorado progressista que o segundo voto pode ir para o presidente da Alepa, aliado do governador.
O que muda na disputa pela segunda vaga
A segunda vaga ao Senado está, nas pesquisas mais recentes, disputada entre Éder Mauro (PL), Celso Sabino (PDT) e — em crescimento — Chicão. A diferença entre os três candidatos e o impacto do apoio de Beto Faro pode ser lida por três ângulos.
Primeiro: o eleitorado de Éder Mauro é bolsonarista, evangélico conservador e anti-PT. Não há transferência possível entre o eleitorado de Beto Faro e o de Éder Mauro. São campos opostos. Isso significa que o eleitor progressista que hoje está indeciso ou em branco para o segundo voto não vai para Éder Mauro — e pode ir para Chicão se houver uma sinalização clara de que esse é o movimento do campo.
Segundo: Celso Sabino tem o menor índice de rejeição entre todos os candidatos — apenas 5% — o que o torna o adversário mais perigoso de Chicão. Está em empate técnico com Éder Mauro e não tem um bloqueio ideológico entre ele e o eleitorado progressista. É o nome que Chicão precisa superar para chegar à segunda vaga.
Terceiro: 28% do eleitorado paraense ainda está indeciso para o Senado, segundo a pesquisa Simetria. Com dois votos disponíveis, boa parte desses indecisos vai definir o segundo voto a partir de orientação do campo político que já escolheu como primeiro voto. Se o campo de Helder — que mobiliza o maior bloco do eleitorado — orientar o segundo voto para Chicão, esse reservatório de indecisos pode ser determinante.
A lógica por trás da aliança improvável
Por que Beto Faro, senador do PT, apoiaria Chicão, deputado do União Brasil? A resposta começa em 2022 — e termina em 2026.
Em 2022, quando havia apenas uma vaga ao Senado pelo Pará, Helder Barbalho entregou sua máquina política para eleger Beto Faro e bloquear Mário Couto. O eleitorado do campo governista usou seu único voto no candidato do PT — por orientação do governador do MDB. Beto Faro foi eleito. Mário Couto ficou fora. A dívida ficou aberta.
Em 2026, Helder está cobrando — ou pelo menos sinalizando que a mesma fórmula pode funcionar ao contrário. O PT não tem candidato competitivo ao Senado do Pará neste ciclo. Beto Faro, como senador em exercício e líder do PT no Senado Federal, tem legitimidade para orientar o segundo voto do eleitorado progressista paraense. E a orientação que o campo de Helder precisa é clara: segundo voto em Chicão, e não em Éder Mauro nem em Zequinha Marinho.
É a mesma fórmula de 2022 — só que invertida. Antes, o MDB entregou votos ao PT para tirar Mário Couto. Agora, o PT entrega votos ao União Brasil para tirar Éder Mauro e Zequinha Marinho. “Alianças inesperadas” para bloquear adversários. É a assinatura política de Helder Barbalho.
Beto Faro tem relação histórica com Helder Barbalho que vai além do protocolo partidário. Analistas políticos descrevem sua lealdade ao campo dos Barbalho como mais forte do que qualquer orientação do diretório nacional do PT. Em 2022, o PT cedeu voto a reeleição de Helder — e o campo retribuiu com a eleição de Beto. Em 2026, o PT não tem candidato competitivo ao Senado do Pará. Nesse vácuo, apoiar Chicão é a forma de manter o campo aliado coeso e colher dividendos políticos no ciclo seguinte.
É uma troca que o eleitor raramente vê explicitada — mas que é a engrenagem real de como se constrói maioria política em estados como o Pará. Helder garante a primeira vaga. O PT entrega o segundo voto progressista para Chicão. Chicão, eleito, opera no Senado dentro do campo governista. O ciclo se fecha.
O que ainda pode mudar
Esta análise não é uma previsão. É um mapa do que está sendo construído — com a ressalva de que eleição é, por natureza, imprevisível.
Celso Sabino é o candidato que mais ameaça esse plano. Com baixíssima rejeição, segundo mandato federal e experiência como ministro durante a COP30, tem trunfos que não desaparecem por força de uma aliança política. Se conseguir mobilizar o eleitorado de centro e capitalizar sua visibilidade nacional, pode disputar a segunda vaga com Éder Mauro independentemente do que o campo de Helder construa para Chicão.
Éder Mauro, por sua vez, tem a maior base consolidada fora do campo governista — e a maior rejeição também, com 26%. Seu teto é alto entre o eleitorado conservador, mas seu piso de rejeição limita o crescimento além dessa base.
A aliança Beto Faro-Chicão, se confirmada nas convenções que se encerram em 5 de agosto, transforma um candidato que hoje aparece em terceiro ou quarto lugar nas pesquisas em um nome com aporte de eleitorado que seus concorrentes não têm. Não garante a eleição — mas muda substantivamente o cenário.
O que o eleitor precisa entender
Esta coluna tem insistido, ao longo de meses, que as eleições se decidem muito antes das urnas. O caso Beto Faro-Chicão é mais uma demonstração dessa tese.
Um eleitor que votar em Helder para o Senado e seguir a orientação do campo para o segundo voto estará, na prática, contribuindo para eleger um candidato do União Brasil — independentemente de sua identidade partidária. Isso não é manipulação. É como o sistema proporcional e majoritário funcionam quando há coordenação política real.
Entender isso não muda necessariamente a escolha do eleitor. Mas dá a ele a informação que merece ter antes de depositá-la na urna: o segundo voto ao Senado, em outubro, pode ser a decisão mais estratégica que o eleitor paraense toma — e ele merece fazê-la com olhos abertos.
Política é gestão. E nenhuma gestão começa sem informação.
Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos no Jornal O Impacto.
O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.
O Impacto



É uma estratégia muito bem consolidada que merece muita atenção nesse campo politico, mais que quem vai decidir fora dos tabuleiro é o próprio eleitor!