HELDER BARBALHO E A MÃO INVISÍVEL: O GOVERNADOR QUE MOVE O TABULEIRO ANTES DO JOGO COMEÇAR

Por Fábio Maia

Na semana passada, esta coluna analisou a aliança entre o senador Beto Faro (PT) e Chicão (União Brasil) para a disputa do Senado em 2026. Uma aliança que desafia a lógica ideológica — PT apoiando União Brasil — mas que faz sentido perfeito quando vista pelo ângulo certo: o do governador Helder Barbalho, que usou exatamente a mesma fórmula em 2022 para eleger Beto Faro e bloquear seu adversário Mário Couto.

Essa aliança não é um episódio isolado. É mais um capítulo de um padrão que se repete há anos na política paraense — e que define, talvez mais do que qualquer outra variável, quem entra e quem sai do jogo eleitoral no Pará. Hoje, o tema é o arquiteto desse padrão.

Ao longo dos últimos três meses, esta coluna analisou candidatos, partidos e estratégias eleitorais no Oeste do Pará. Um nome apareceu em praticamente todos os artigos — às vezes como aliado, às vezes como arquiteto de uma manobra, às vezes como o pano de fundo de uma decisão que alguém tomou sem que ficasse claro por quê. Esse nome é Helder Barbalho. Chega o momento de analisá-lo diretamente.

O padrão das alianças inesperadas

Há uma marca registrada na estratégia política de Helder Barbalho que os analistas que o acompanham identificam com consistência: quando ele precisa bloquear um adversário, não usa a força bruta do MDB. Usa uma aliança que ninguém esperava.

O precedente mais antigo documentado nesta série é de 2018. Naquele ciclo, o senador Jader Barbalho — pai de Helder e um dos maiores estrategistas políticos do estado — colocou Zequinha Marinho debaixo do braço e o conduziu ao Senado. Zequinha era do campo adversário. Mas era preferível eleger um adversário “controlável”, a deixar a vaga para Flexa Ribeiro (PSDB), aliado do adversário direto de Helder Barbalho ao governo. O ex deputado e então candidato ao governo, Márcio Miranda. E funcionou. Márcio Miranda perdeu a disputa ao governo do Pará, e Flexa Ribeiro ficou fora do Senado Federal.

Em 2022, o próprio Helder executou uma versão refinada do mesmo movimento. Com uma única vaga ao Senado e em disputa a sua reeleição ao governo do Pará contra Zequinha Marinho – ex “aliado” que seu pai Jader Barbalho ajudou a eleger ao senado em 2018 -, orientou toda a sua base eleitoral a usar esse único voto para o Senado Federal em Beto Faro, do PT — um partido ideologicamente distante do MDB. O objetivo não era generosidade ao PT. Era vencer Zequinha e bloquear Mário Couto (PL), adversário direto do seu grupo político. Helder se reelegeu, Beto Faro foi eleito com 1.781.582 votos. Mário Couto ficou fora. A operação foi cirúrgica, e funcionou novamente.

Em 2026, o mesmo padrão se repete — com uma diferença de escala. Agora, o adversário de sua sucessora ao governo é Dr. Daniel. Agora, são duas vagas ao Senado. E os adversários que Helder quer bloquear são dois: Éder Mauro (PL), delegado bolsonarista em terceiro mandato e crítico declarado da família Barbalho, e Zequinha Marinho (Podemos), que tenta a reeleição após ter sido eleito em 2018 com o apoio dos próprios Barbalho — e depois de “garantir a vaga” tomou o caminho oposto. A aliança com o PT é a continuação de uma estratégia que vem sendo executada desde 2018. Esse eleitorado progressista é o percentual que Helder acredita que falta para superar Dr. Daniel na disputa ao governo do estado. Beto Faro é o instrumento para eleger Chicão e bloquear Éder Mauro e Zequinha. Uma vaga para Helder, uma vaga para Chicão. Éder Mauro e Zequinha ficam de fora. A conta fecha.

Três ciclos, o mesmo DNA estratégico. A assinatura de Helder Barbalho nas urnas não está apenas no resultado — está nas alianças que ninguém viu antes de acontecer.

O tamanho real do campo — além do MDB

Helder Barbalho governa o Pará desde 2019 e foi reeleito em 2022 com mais de 70% dos votos no segundo turno — uma das maiores margens de um governador no Brasil naquele ciclo. O MDB paraense, sob seu comando, elegeu 13 dos 41 deputados estaduais em 2022 — quase um terço da Alepa, sozinho. Com bancada distribuída por Marabá, Moju, Ananindeua, Belém, Portel, Castanhal, Oriximiná, Tomé-Açu, Breves, Uruará e dezenas de outros municípios, o MDB não tem paralelo em capilaridade territorial no estado.

Mas o campo real de Helder vai muito além do MDB. E entender essa arquitetura é entender o jogo de 2026 em toda a sua extensão.

A tomada do União Brasil — a manobra mais sofisticada de 2026

Entre dezembro de 2025 e abril de 2026, Helder executou o movimento mais revelador do ciclo atual. Celso Sabino, deputado federal, era o presidente do diretório estadual do União Brasil e uma das principais lideranças do partido no Pará. Foi expulso pelo diretório nacional por infidelidade partidária — havia descumprido a ordem da cúpula para deixar o Ministério do Turismo no governo Lula, apostando na visibilidade da COP30 em Belém para sua candidatura ao Senado.

Com o diretório estadual sem comando, Helder agiu. O presidente nacional do União Brasil veio pessoalmente a Belém. Chicão — que até então era do MDB, partido do próprio governador — migrou para o União Brasil e assumiu a presidência estadual do partido. Em uma única operação, Helder transformou um partido que estava sendo articulado por um adversário potencial num partido presidido por um aliado de confiança. O União Brasil do Pará deixou de ser o partido de Celso Sabino e passou a ser o partido de Chicão. É nesse partido que estão hoje Henderson Pinto e Nélio Aguiar.

A intervenção no PSB — esvaziar o adversário antes que ele se arme

O campo adversário de Helder em 2026 tem como principal nome Daniel Santos, pré-candidato ao governo do Pará. Daniel estava filiado ao PSB — mas após a intervenção de Helder no diretório estadual do partido, sua única saída foi migrar para o Podemos. É o mesmo partido de Zequinha Marinho, “agora” adversário de Helder. A manobra transformou um candidato que tinha um partido estruturado num candidato que precisou reconstruir do zero sua base partidária.

A manobra foi descrita nesta coluna em detalhes: Helder prometeu chapas competitivas ao PSB, o que segurou filiações do campo adversário durante meses. Quando o prazo de filiação encerrou, as promessas não se materializaram — o MDB concentrou os melhores nomes. O PSB ficou sem chapa federal capaz de eleger alguém. Paralelamente, um acordo com o diretório nacional do PSB resultou em intervenção direta na legenda, retirando do campo de Daniel Santos o controle sobre o partido. O que também levou diretamente a estragar os planos e a estratégia de Chapadinha de se eleger pelo PSB, sendo puxado pela Dra. Alessandra Haber, esposa de Daniel Santos.

Não é estratégia de força. É estratégia de esvaziamento — tirar o adversário do jogo antes de o jogo começar.

O recrutamento estratégico — trazer para dentro o que poderia ser ameaça lá fora

Há outro padrão consistente no campo de Helder: recrutar candidatos competitivos de outras regiões para dentro do seu bloco, em vez de deixá-los em partidos adversários onde causariam mais dano.

Adriana Almeida, candidata com boas pesquisas em Santarém para o federal, foi convidada para o MDB. João Pingarilho, que disputou a Alepa em 2022 pelo Podemos com 28.239 votos, recebeu a sinalização de que sua posse como suplente seria viabilizada — e hoje está no MDB, dentro do campo do governador. Em ambos os casos, a lógica é a mesma: um candidato competitivo dentro do campo governista não fortalece o adversário. Se se eleger, é vitória. Se não se eleger, ao menos não ajudou o campo oposto.

O mapa completo do campo aliado em 2026

Olhando o tabuleiro de 2026 partido a partido, o campo de Helder Barbalho tem a seguinte extensão:

No MDB, sua base de origem: a maior bancada estadual e federal do Pará, com candidatos em praticamente todos os territórios. No União Brasil — após a tomada do diretório por Chicão —: Henderson Pinto, Nélio Aguiar e Ângelo Ferrari, irmão do deputado federal Júnior Ferrari. No PSD: Júnior Ferrari, aliado histórico que controla o partido no estado. No PSB: partido sob intervenção, agora operando próximo ao campo governista. No AVANTE: Josué Paiva, que faz a ponte com base evangélica. No PT: Beto Faro, responsável por bloquear Éder Mauro e Zequinha. E agora, Dirceu Ten Caten, incumbido de trazer os votos progressistas para superar Daniel.

O PT anunciou oficialmente: Dirceu Ten Caten será o vice na chapa de Hana Ghassan. A tensão se resolveu — e da forma que interessa a Helder. O PT entra na chapa do governo, o eleitorado progressista paraense — que tem peso substancial na balança eleitoral do estado, como provam os 42,55% que Beto Faro obteve no Senado em 2022 — permanece dentro do campo governista. Com o PT acomodado no governo, Beto Faro fica livre para orientar seu eleitorado a votar em Chicão ao Senado sem contradição interna. Éder Mauro e Zequinha Marinho precisam vencer um campo unificado. A mão invisível não apenas equilibrou — executou três objetivos com um único movimento.

O novo fator de equilíbrio — conservadores, evangélicos e agronegócio

Há, porém, uma variável que o histórico dos últimos ciclos não capturava com a mesma intensidade e que em 2026 pressiona o tabuleiro de Helder de dentro do próprio campo aliado: o crescimento do eleitorado conservador, evangélico e ligado ao agronegócio. Esse eleitorado não está somente no PL nem no Podemos — está dentro do MDB, do União Brasil, do PP e do PSD. Está dentro da coalizão de Helder. E está pressionando por espaço.

O exemplo mais concreto desse equilíbrio foi a disputa pela vice-governadoria de Hana Ghassan. O PT queria Dirceu Ten Caten — o candidato da esquerda orgânica do campo progressista. O MDB, pressionado pelo eleitorado do interior e do agronegócio, avaliava perfis mais conservadores. Eram duas lógicas eleitorais diferentes dentro do mesmo campo político — e a negociação precisava satisfazer as duas. O anúncio de Dirceu como vice mostra que Helder encontrou o ponto de equilíbrio: manteve o PT dentro da coalizão sem perder o centro. É exatamente o tipo de composição que candidatos como Josué Paiva — que funcionam como ponte entre o campo evangélico e o campo governista — tornam possível.

No Pará de 2026, o agronegócio não é apenas pauta econômica — é fator de composição política. Candidatos como Nélio Aguiar, associado a lideranças municipais e produtores rurais do Oeste do Pará, e a rede de prefeitos que Henderson Pinto articula pelo Baixo Amazonas são parte desse eleitorado produtivo que Helder precisa manter dentro do campo sem afastar o PT. É uma equação que em 2022 tinha solução simples — Lula e Helder na mesma página — e que em 2026 ficou mais complexa à medida que o eleitorado conservador cresceu e o campo progressista enrijeceu suas exigências.

A convenção do União Brasil, nesta segunda-feira, 27 de julho, será o primeiro teste público dessa equação. É o partido de Chicão, de Henderson Pinto e de Nélio Aguiar — um bloco de centro-direita, com perfil conservador e base no interior produtivo do Pará. A convenção do MDB, em 1º de agosto no Mangueirinho, será o segundo teste — e o momento em que as composições se tornam formais e irreversíveis. Uma ressalva que qualquer analista sério precisa fazer: na política paraense, até a noite da convenção tudo pode acontecer. Acordos se desfazem, nomes mudam, alianças são renegociadas de última hora. O que está acertado hoje pode ser diferente amanhã. Mas o padrão histórico de Helder sugere que, quando ele chega à véspera de uma convenção, o essencial já está resolvido nos bastidores.

Para o eleitor de Santarém e do Oeste do Pará, esse panorama tem uma implicação direta. Os candidatos com maior potencial de eleição nesta região — Henderson Pinto, Nélio Aguiar, João Pingarilho, Maria do Carmo — estão, em diferentes graus, dentro do campo aliado ao governador. Isso significa acesso à máquina estadual, à articulação com o governo federal e à visibilidade que só o campo dominante consegue proporcionar.

A sub-representação histórica do Oeste do Pará no legislativo estadual e federal resultou em décadas de menor acesso às políticas e recursos que se concentram na capital. Ter candidatos regionais alinhados ao campo dominante é, nesse contexto, uma janela real de mudança. Mas o eleitor consciente sabe que janela e garantia são coisas bem diferentes. O campo de Helder é amplo, e dentro dele há muitas prioridades competindo pelo mesmo recurso e pela mesma atenção.

Entender onde estão os candidatos no tabuleiro do poder não é suficiente para fazer uma boa escolha. Mas é condição necessária. E é exatamente para isso que esta coluna existe.

Você pode não gostar do método e da estratégia de Helder Barbalho. O que você não pode é negar a realidade dos fatos: vem dando certo. Em 2018, elegeu um adversário para tirar outro do caminho. Em 2022, colocou o PT no Senado para derrotar seu opositor. Em 2026, acomodou o PT no governo, liberou Beto Faro para apoiar Chicão ao Senado, tomou o União Brasil, esvaziou o PSB e ainda manteve o agronegócio e o campo evangélico dentro da coalizão. A mão invisível que move o tabuleiro do Pará tem nome, sobrenome e endereço: Helder Barbalho — que deixou o governo nas mãos de Hana Ghassan para disputar o Senado, mas que segue sendo o maior jogador de xadrez da política paraense da última década.

Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos no Jornal O Impacto.


O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.


O Impacto

Um comentário em “HELDER BARBALHO E A MÃO INVISÍVEL: O GOVERNADOR QUE MOVE O TABULEIRO ANTES DO JOGO COMEÇAR

  • 26 de julho de 2026 em 17:31
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    Verdade ele é muito eficiente no jogo politico, é uma estratégia de difícil a ser combatida e vencida, mais temos que ver se eleitorado não pode mudar seus pensamentos de votar em outra sigla !

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