A VICE QUE REVELA O PROJETO — NÃO APENAS A DISPUTA

O que as escolhas de Hana e Daniel dizem sobre o que está em jogo de verdade

Por Fábio Maia

Na quarta-feira, 5 de agosto, o MDB formalizou: Dirceu Ten Caten, do PT, será o vice-governador na chapa de Hana Ghassan. No mesmo período, Dr. Daniel Santos escolheu Ellayne D’Almeida, do PL e de Itaituba, como sua vice. As duas escolhas foram feitas. As duas revelam projetos diferentes. E a pergunta que esta coluna se faz não é qual vice é melhor — é o que cada escolha resolve.

Porque toda escolha de vice resolve alguma coisa. E o que ela resolve diz mais sobre a estratégia do candidato do que qualquer discurso de campanha poderia revelar.

A pergunta certa sobre Dirceu Ten Caten

A pergunta errada sobre a escolha de Dirceu é: “ele é um bom vice?” A pergunta certa é: o que essa escolha resolve?

Ela não resolve apenas uma questão eleitoral. Ela resolve uma questão de poder. A escolha de Dirceu Ten Caten consolida a aliança entre o MDB estadual e o governo federal — entre Helder Barbalho e Lula. É um acordo que garante palanque federal em outubro e que mantém o Pará dentro de um projeto nacional. Com essa composição, a candidatura de Hana não é apenas uma disputa estadual. É parte de uma arquitetura política que começa em Brasília.

Essa é a dimensão que mais importa — e que o discurso de campanha da oposição já percebeu. O argumento que Daniel Santos e seu campo político vão usar nas próximas oito semanas está pronto: “a vice de Hana foi decidida em Brasília, não no Pará”. Não foi o setor produtivo que a escolheu. Não foi o campo evangélico. Não foi o eleitorado do interior. Foi uma negociação entre cúpulas partidárias que resolveu uma equação nacional.

Esse argumento tem força no interior do Pará — exatamente onde o eleitorado costuma sentir que as decisões da capital chegam prontas, sem ouvi-lo. O Oeste do Pará conhece bem essa sensação.

A resposta de Daniel Santos — ele ouviu o que Hana não disse

Enquanto a chapa de Hana resolvia sua equação nacional, Daniel Santos fez uma leitura diferente do tabuleiro. A escolha de Ellayne D’Almeida, do PL, de Itaituba, não é aleatória. É uma resposta direta ao que ficou sem resposta na chapa adversária.

Ellayne D’Almeida representa dois ativos que o campo evangélico e o setor produtivo esperavam ver na vice de Hana e não viram: o Oeste do Pará — Itaituba é polo do Tapajós Sul, região produtora e com eleitorado conservador — e o PL, partido de Éder Mauro, candidato ao Senado na chapa de Daniel. A composição tem coerência interna: governismo de oposição, campo produtivo, representatividade regional.

Daniel ouviu os setores que pressionaram contra Dirceu e entregou o que eles não receberam de Hana. Não é garantia de vitória — mas é um movimento de leitura política fina que merece ser reconhecido como tal.

O custo das suplências — reconhecimento sem poder

Helder Barbalho tentou acomodar os setores que não ficaram na vice de Hana com as suplências dos candidatos ao Senado. Os suplentes de Chicão são Joel Lobato, vice-presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará, e a pastora Patrícia Queiroz, vereadora de Belém — dois nomes do campo evangélico e do agronegócio.

Esse gesto tem um peso real. Mas não é o mesmo peso de uma vice-governadoria. Suplente de senado é uma posição de expectativa — só assume se o titular deixar o cargo. Vice-governador governa ao lado, tem agenda, tem secretarias, tem influência cotidiana na gestão. Os setores que queriam a vice e receberam a suplência sabem dessa diferença.

A questão que a campanha vai responder é se esse reconhecimento parcial é suficiente para manter o entusiasmo desses setores dentro da coalizão governista até outubro. Aliado sem espaço real tem menos incentivo para mobilizar sua rede do que aliado com cargo. É uma lei da política que não muda com acordos partidários.

Uma disputa que é mais do que um cargo

O que as duas escolhas de vice revelam vai além da eleição para governador. Revelam uma disputa por espaço, por influência, por poder dentro do projeto político do Pará pós-2026.

O PT, ao colocar Dirceu Ten Caten como vice de Hana, garante que, se a chapa vencer, terá participação direta no governo estadual pela primeira vez desde Ana Julia Carepa — entre 2007 e 2010. É um retorno ao executivo estadual que o partido não tinha desde então. A vice-governadoria não é apenas simbólica: é estrutura de campanha, é acesso a secretarias, é presença no governo que se formará.

O campo evangélico e o agronegócio, ao não conseguirem a vice, ficam com a representação simbólica das suplências — real, mas de menor peso. Essa assimetria entre o que o PT recebeu e o que os outros setores receberam pode ser fonte de tensão ao longo da campanha.

A grande questão em aberto — coalizão ou custo?

Toda escolha estratégica tem um custo. E como todo custo tem um preço a ser pago, a grande questão que a campanha de Hana precisará responder nas próximas semanas é esta: as suplências serão suficientes para manter a grande coalizão coesa até o dia da eleição — ou o custo será cobrado durante a campanha, na forma de entusiasmo reduzido, de lideranças menos ativas, de aliados que fazem o mínimo em vez do máximo?

Helder Barbalho calculou que a solidez da aliança com o governo federal vale mais do que a acomodação de qualquer setor regional. É uma aposta que tem fundamento: o campo governista unido com PT e MDB tem capacidade de mobilização muito maior do que qualquer outro arranjo disponível. E o palanque federal em outubro — com Lula ativo em favor de Hana — é um ativo que candidaturas estaduais raramente têm.

Mas como toda aposta, essa também tem um risco. O discurso de que a chapa de Hana foi decidida em Brasília pode ressoar no interior. Daniel Santos, com Ellayne D’Almeida da região oeste, vai fazer campanha com o argumento de que ouviu o Pará antes de decidir. E nos quase 800 mil eleitores do Oeste do Pará — que esta coluna já documentou como o fiel da balança desta eleição —, esse argumento tem endereço certo.

O que o eleitor do Oeste do Pará deve observar

A campanha oficial começa no próximo domingo 16/08. As chapas estão definidas. O que vem agora é o teste de campo: qual discurso chega com mais força no eleitorado do interior, qual estrutura opera com mais eficiência nos municípios, qual candidato aparece mais vezes onde o voto ainda não está decidido.

Para o eleitor do Oeste do Pará que quer entender o que está em jogo: as duas vices-governadorias revelam dois projetos distintos. Hana escolheu consolidar poder nacional. Daniel escolheu representar os setores que ficaram sem espaço. São duas leituras diferentes do mesmo Pará. E em outubro, o eleitor vai dizer qual leitura estava certa.

Política é gestão. E a gestão mais difícil não é administrar aliados que concordam. É manter coesa uma coalizão onde cada parte quer mais do que recebeu. Isso vale para os dois lados.

Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve sobre política aos domingos no Jornal O Impacto.


O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.


O Impacto

Um comentário em “A VICE QUE REVELA O PROJETO — NÃO APENAS A DISPUTA

  • 9 de agosto de 2026 em 13:20
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    Verdade uma escolha do MDB pensando mais alto que no estado, propostas que possam agradar os interesses dos Barbalhos, e que se poder pagar por um peço que eles mesmos se arriscaram! Já enquanto Daniel Santos usou uma estratégia bem calculada, os evangelicos e os com secadores . Juntamente com o agro, que pode ter uma grande importância na hora decisiva, pois os mesmos podem terem além de resultados uma participação no governo!

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