A VIRADA DE HANA E A HISTÓRIA QUE O PARÁ JÁ VIVEU DUAS VEZES
Por Fábio Maia
Há quatro semanas, a disputa pelo governo do Pará estava tecnicamente empatada. Hoje, não está mais. E o que aconteceu nesse intervalo tem paralelo direto com dois momentos específicos da história política paraense — um que deu certo e outro que deu errado.
A linha do tempo da virada
Vamos aos números, na ordem em que foram divulgados.
Entre 30 de julho e 3 de agosto, o Real Time Big Data entrevistou 1.600 eleitores e encontrou Hana Ghassan com 31% e Dr. Daniel Santos com 29% — empate técnico. Pior para a governadora: na simulação de segundo turno, Daniel aparecia à frente, com 38% contra 36%.
Entre 10 e 15 de agosto, a Doxa ouviu 2 mil eleitores nas seis mesorregiões e registrou Hana com 35,1% e Daniel com 30,2%. A vantagem de 4,9 pontos já superava a margem de erro.
Entre 14 e 19 de agosto, a AtlasIntel entrevistou 1.197 eleitores e encontrou Hana com 48,6% e Daniel com 40,5%. Considerando apenas os votos válidos — sem brancos, nulos e indecisos —, a governadora chegava a 53,3% contra 44,4%. Nesse cenário, eleição decidida no primeiro turno.
E entre 18 e 23 de agosto, a Doxa voltou a campo e registrou Hana com 37,2% e Daniel com 31,3%.
Quatro pesquisas, três institutos diferentes, todas registradas no Tribunal Eleitoral. A direção é a mesma em todas: Hana subindo, Daniel estável.
Por que os números são tão diferentes entre si
Um leitor atento vai perguntar: como a Atlas dá 48,6% para Hana e a Doxa, no mesmo período, dá 37,2%?
A diferença está no método. A AtlasIntel aplica questionário eletrônico — o entrevistado responde sozinho, pela internet. A Doxa faz entrevista presencial, distribuída pelas seis mesorregiões do estado, incluindo o Baixo Amazonas e o Marajó. São formas diferentes de alcançar o eleitor, e elas produzem resultados diferentes, sobretudo em um estado com a geografia do Pará.
Por isso, ao ler pesquisa, o que importa não é o número isolado de um instituto — é a tendência que aparece em todos eles. E a tendência, aqui, é inequívoca.
O paralelo que dá esperança ao campo governista: 2002
Agora a parte que interessa a quem gosta de história eleitoral. Porque o que está acontecendo em 2026 já aconteceu no Pará — e o desfecho depende de qual precedente se repete.
Em 2002, o governador Almir Gabriel encerrava seu segundo mandato e apoiou Simão Jatene como sucessor. Jatene começou a campanha com cerca de 2% das intenções de voto. Dois por cento. Terminou eleito governador do Pará, carregado pela máquina administrativa e pela articulação política de quem estava saindo.
É o caso mais citado quando se discute transferência de votos no Pará. E é o argumento que o campo de Hana Ghassan usa nos bastidores: se Jatene foi de 2% a governador, uma candidata que já começa liderando tem caminho muito mais confortável.
O paralelo que preocupa: 1994 e 2010
Só que a história paraense também guarda o precedente oposto — e ele é mais frequente.
Em 1994, Jader Barbalho concluía seu segundo mandato como governador e deixou o cargo para disputar o Senado. Apoiou Jarbas Passarinho como sucessor. Jarbas perdeu para Almir Gabriel. É exatamente a mesma configuração de 2026: governador sai para o Senado e tenta eleger quem fica.
Em 2010, Ana Júlia Carepa era a governadora em exercício e disputava a reeleição. Perdeu para Simão Jatene. Estar no cargo, com a máquina na mão, não foi suficiente.
E em 2018, Simão Jatene encerrava seu segundo mandato e apoiou Márcio Miranda. Márcio perdeu — para Helder Barbalho, justamente.
A conta que a história faz
Desde a redemocratização, apenas dois governadores paraenses conseguiram eleger seus sucessores: Jader Barbalho, que elegeu Hélio Gueiros em 1986, e Almir Gabriel, que elegeu Simão Jatene em 2002.
Todos os outros tentaram e falharam. Hélio Gueiros não elegeu Sahid Xerfan em 1990. Jader não elegeu Jarbas Passarinho em 1994. Jatene não elegeu Almir Gabriel em 2006, nem Márcio Miranda em 2018. Ana Júlia não conseguiu se reeleger em 2010.
Dois acertos contra cinco derrotas. A história diz que eleger sucessor no Pará é difícil — mesmo com máquina, mesmo com popularidade, mesmo com liderança nas pesquisas em agosto.
Helder Barbalho tenta ser o terceiro. E tenta na mesma configuração em que seu pai falhou em 1994.
O Senado e o segundo voto
Na disputa pelo Senado, o quadro tem outra dinâmica. A AtlasIntel encontrou Helder Barbalho com 24%, Éder Mauro com 18,4%, Zequinha Marinho com 14,6%, Celso Sabino com 12,4% e Chicão com 10,5%. A Doxa, no mesmo período, registrou Helder com 25,32%, Éder Mauro com 17,01%, Celso Sabino com 15,50%, Zequinha com 15% e Chicão com 14,40%.
Duas leituras, o mesmo desenho: Helder confortável na primeira vaga, e quatro nomes disputando a segunda dentro ou muito perto da margem de erro.
Vale um registro sobre Chicão, que interessa a quem acompanha a coluna desde julho. Em dezembro de 2025, ele aparecia com 4,9% nas pesquisas para o Senado. Em agosto de 2026, marca entre 10,5% e 14,40%. É o maior crescimento proporcional de toda a disputa majoritária no estado — e confirma o que analisei aqui em 19 de julho sobre a operação política construída em torno do nome dele.
O que isso significa para o Oeste do Pará
Para nossa região, essa disputa tem um efeito prático que vale explicar.
Quando a eleição majoritária está indefinida, os candidatos ao governo dedicam atenção e recursos a todas as regiões, inclusive às mais distantes. Quando um deles abre vantagem, a tendência é concentrar esforço onde há mais eleitores — e isso quase sempre significa Belém e região metropolitana.
O Oeste do Pará tem 792.593 eleitores aptos. É um volume que decide eleição estadual, como esta coluna já demonstrou. Mas só é disputado de verdade quando a eleição está apertada. Se a vantagem de Hana se confirmar e se ampliar, corremos o risco de virar plateia de uma disputa que se decide em outro lugar.
Por isso, o melhor cenário para o Oeste do Pará não é o de uma eleição resolvida em agosto — é o de uma eleição competitiva até outubro, em que cada voto da nossa região seja necessário. Historicamente, é quando a região é ouvida.
O que observar nas próximas semanas
Duas coisas me parecem decisivas. A primeira: se a vantagem de Hana se sustenta ou se estabiliza. Vantagem que cresce em agosto e para em setembro costuma significar teto atingido. A segunda: como Dr. Daniel Santos reage — se parte para o confronto direto ou se busca consolidar o eleitorado que já tem.
E há um dado que ninguém deveria esquecer: em 2002, Simão Jatene começou com 2% e ganhou. Em 2010, Ana Júlia começou como governadora e perdeu. No Pará, a pesquisa de agosto nunca foi a mesma coisa que o resultado de outubro.
Na quarta-feira, esta coluna volta ao Oeste do Pará com o balanço das duas primeiras semanas de campanha oficial na nossa região.
Política é gestão. E gestão inclui saber ler o que os números dizem — e o que eles ainda não dizem.
Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos e quartas no Jornal O Impacto.
O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.
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Acredita que a mesma tem pesquisa a seu favor, como sabemos a eleição vai ser muito disputada, e que só dia 4 de outubro saberemos a força da máquina publica e às alianças de quem tenta uma eleição sem obras enganosas para manipular o eleitor!