GUIA DO ELEITOR: QUEM DISPUTA A ALEPA PELO OESTE DO PARÁ
Por Fábio Maia
A campanha oficial começa hoje. Até 4 de outubro, o eleitor do Oeste do Pará vai receber santinhos, ver carreatas, ouvir jingles e ser abordado por cabos eleitorais. Muita informação, muito barulho — e pouca clareza sobre quem é quem.
Esta coluna abre a temporada de campanha com o que considera mais útil ao leitor: um guia com os candidatos da nossa região que disputam uma vaga na Assembleia Legislativa do Pará. Quem são, de onde vêm, o que já fizeram e em que partido estão. Sem elogio e sem ataque — apenas o retrato de quem está na disputa.
Na quarta-feira, publicaremos o guia dos candidatos a deputado federal. A partir de hoje, esta coluna passa a circular duas vezes por semana: aos domingos e às quartas.
Primeiro, o essencial: como funciona o voto para deputado estadual
A Alepa tem 41 cadeiras. Para conquistar uma delas, não basta ser o mais votado da sua cidade — é preciso que o partido ou a federação à qual o candidato pertence some votos suficientes para atingir o quociente eleitoral, que em 2022 ficou em torno de 110 mil votos por vaga.
Isso significa que um candidato com 50 mil votos pode não se eleger se o seu bloco for fraco, e outro com 40 mil pode se eleger se o bloco for forte. O voto individual conta — mas conta dentro de um time. Entender em que time cada candidato joga é tão importante quanto conhecer o candidato.
Em 2026, os blocos que disputam a Alepa são: o MDB, que sozinho elegeu 13 deputados em 2022; a Federação União Progressista (União Brasil + PP); a Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB); o PL; o PSD; o Avante; os Republicanos; o Podemos; e a Federação PSOL/Rede, entre outros.
Os candidatos de Santarém
Maria do Carmo (PT — Federação Brasil da Esperança) — Deputada estadual em exercício, eleita em 2022 com 43.255 votos, sendo 18.810 em Santarém e 24.445 no interior. Professora e liderança histórica do PT no Oeste do Pará. É a candidata da região com melhor desempenho nas pesquisas regionais recentes. Sua marca é a capilaridade no interior — teve mais votos fora de Santarém do que dentro.
João Pingarilho (MDB) — Deputado estadual em exercício desde janeiro de 2025, quando assumiu como suplente. Em 2022, obteve 28.239 votos, sendo 11.923 em Santarém e 16.316 no interior. Destinou R$ 11,7 milhões em emendas durante o mandato. Perfil conservador, com presença no campo evangélico. Seu irmão, Urías Pingarilho, é vereador de Santarém, eleito em 2024 com 3.523 votos.
JK do Povão (PL) — Ex-vereador de Santarém, eleito em 2020 com 3.260 votos. Disputou a Prefeitura de Santarém em 2024 e chegou ao segundo turno. Em 2022, concorreu ao estadual pelo PSDB e obteve 27.736 votos, sendo 24.932 em Santarém — a maior concentração local entre todos os candidatos da cidade. Lidera as pesquisas locais para o estadual, com índices entre 17% e 19%.
Nélio Aguiar (União Brasil — Federação União Progressista) — Médico e ex-prefeito de Santarém entre 2017 e 2024, com aprovação de 68% ao final da gestão. Em 2014, disputou o federal e obteve 84.601 votos, sendo 41.179 em Santarém — ficou a 593 votos da vaga. Em 2010, foi candidato ao estadual com 19.151 votos. É o único candidato da Federação União Progressista com base no Oeste do Pará, sem concorrência interna direta no seu território.
Josué Paiva (Avante) — Deputado estadual em exercício, eleito em 2022 com 36.874 votos — dos quais apenas 3.604 em Santarém, o restante distribuído pelo interior. Pastor evangélico, com trânsito nas Assembleias de Deus e rede de apoio entre prefeitos do interior. Chegou a ser cotado para vice-governador na chapa de Hana Ghassan, mas permanece na disputa pela Alepa.
Dayan Rocha (Avante) — Estreante na disputa estadual. É irmão do vereador Erlon Rocha e filho do ex-deputado estadual Antonio Rocha, que disputou a Alepa em 2014 e 2018 com base em Santarém. Representa a continuidade de uma das famílias políticas tradicionais da cidade.
Os candidatos do Baixo Amazonas
Ângelo Ferrari (União Brasil — Federação União Progressista) — Deputado estadual em exercício, eleito em 2022 com 58.104 votos, com base em Oriximiná. É irmão do deputado federal Júnior Ferrari. Migrou do MDB para o União Brasil na janela partidária de 2026. Tem capilaridade em vários municípios do Baixo Amazonas, sem depender exclusivamente da base de Oriximiná.
Renata Fonseca (PL) — Estreante na disputa estadual. É esposa do prefeito de Oriximiná, Willian Fonseca, e conta com a estrutura política do município. Entra numa disputa regional já bastante concorrida no Baixo Amazonas.
Os candidatos de Itaituba e do Tapajós
Itaituba concentra uma das disputas mais acirradas do estado em 2026 — três candidatos com histórico relevante competindo pelo mesmo eleitorado do setor produtivo e garimpeiro.
Wescley Tomaz (Avante) — Deputado estadual em exercício, eleito em 2022 com 40.302 votos. É o presidente estadual do Avante. Disputou o estadual em 2014 e 2018 sem sucesso antes de se eleger. Base consolidada em Itaituba e na região do Tapajós.
Valmir Clímaco (MDB) — Ex-prefeito de Itaituba por dois mandatos e referência histórica no setor produtivo da região. Já esteve no MDB em 2016, quando disputou a prefeitura. Retornou ao partido em 2026 para ocupar o espaço deixado por Ellayne D’Almeida, que saiu para compor a chapa de Daniel Santos como vice-governadora. É a primeira vez que disputa uma vaga na Alepa.
Hilton Aguiar (Republicanos) — Foi deputado estadual por três mandatos: eleito em 2010 pelo PSC com 15.615 votos, em 2014 pelo Solidariedade com 40.435 e em 2018 pelo DEM com 44.939. Em 2022, disputou pelo Avante e obteve 31.929 votos, ficando sem a vaga. Migrou para os Republicanos em 2026.
O que mudou desde 2022 — e por que isso importa
Três movimentos partidários redesenharam o tabuleiro do Oeste do Pará neste ciclo, e o eleitor precisa conhecê-los para entender o que está acontecendo.
O primeiro: Chicão, deputado estadual eleito em 2022 pelo MDB com 91.542 votos, migrou para o União Brasil e assumiu a presidência estadual do partido. Não disputa a Alepa em 2026 — é candidato ao Senado. Junto com ele, Paula Titan e Ângelo Ferrari também deixaram o MDB rumo ao União Brasil. Foram cerca de 210 mil votos que mudaram de bloco.
O segundo: Dirceu Ten Caten, deputado estadual do PT eleito em 2022 com 66.397 votos, deixou a disputa legislativa para ser candidato a vice-governador na chapa de Hana Ghassan. Seus votos — concentrados no Sudeste do Pará — ficam disponíveis para os demais candidatos da Federação Brasil da Esperança.
O terceiro: no PL, entra na disputa Tati Barra, esposa do deputado estadual Rogério Barra, que obteve 81.868 votos em 2022 e agora concorre ao federal. A candidatura dela concentra a estrutura política construída pela família — o que reconfigura a dinâmica interna do partido no estado.
As composições: quem montou as melhores chapas
Depois de conhecer os candidatos, vale entender o que os partidos fizeram com suas chapas. Porque no voto proporcional, chapa bem montada é meio caminho andado — e chapa mal montada derruba candidato bom.
O MDB continua sendo o maior bloco do estado, com 13 deputados eleitos em 2022. Mas perdeu peso nesta janela: Chicão, Paula Titan e Ângelo Ferrari migraram para o União Brasil, levando consigo cerca de 210 mil votos da conta coletiva do partido. Para compensar, o MDB trouxe Elcione Barbalho — deputada federal desde 1995, com 175.498 votos em 2022 — para disputar o estadual pela primeira vez. É a maior aposta do partido no ciclo.
A Federação União Progressista, que reúne União Brasil e PP, foi a grande beneficiada das migrações. Além de receber os três nomes que saíram do MDB, montou uma chapa com distribuição territorial eficiente: candidatos em Belém, no Marajó, no Nordeste paraense, em Castanhal e — com Nélio Aguiar — no Oeste do Pará. Poucas sobreposições internas, o que reduz a canibalização de votos entre companheiros de chapa.
A Federação Brasil da Esperança, com PT, PV e PCdoB, perdeu seu principal puxador estadual com a saída de Dirceu Ten Caten para a vice-governadoria. Em compensação, tem Maria do Carmo em ascensão nas pesquisas do Oeste e o retorno de Zé Geraldo ao estadual, com base no Sudeste do Pará — justamente o território que Dirceu representava.
O PL montou a chapa mais concentrada: Tati Barra herda a estrutura construída por Rogério Barra, que fez 81.868 votos em 2022 e agora disputa o federal. Isso muda a posição de JK do Povão dentro do partido — ele deixa de ser o único nome forte do PL no interior para dividir espaço com uma candidatura que carrega uma máquina política pronta.
Itaituba: três nomes, um só eleitorado
Se há um lugar onde a montagem das chapas produziu um efeito imediato e visível, esse lugar é Itaituba. O município do Tapajós, polo do setor produtivo e da mineração, tem três candidatos com histórico relevante disputando praticamente o mesmo eleitorado.
Wescley Tomaz, do Avante, é deputado em exercício e presidente estadual do partido, eleito em 2022 com 40.302 votos. Hilton Aguiar, do Republicano, foi deputado estadual por três mandatos e chegou a 44.939 votos em 2018. E Valmir Clímaco, ex-prefeito da cidade por dois mandatos, entrou no MDB em 2026 a convite direto do ex-governador Helder Barbalho, ocupando o espaço deixado por Ellayne D’Almeida — que saiu para ser vice na chapa de Daniel Santos.
No meio político da região, a entrada de Clímaco é lida como resposta a um episódio recente: Wescley Tomaz, como presidente do Avante, defendeu publicamente a indicação de Josué Paiva para vice-governador na chapa de Hana Ghassan — posição que não prevaleceu. A leitura de que existe uma relação entre os dois fatos circula nos bastidores, mas não foi confirmada por nenhum dos envolvidos. O que é fato verificável: um dos maiores nomes da política de Itaituba entrou tardiamente na disputa, pelo maior partido do estado, para concorrer no reduto de um deputado em exercício.
Do ponto de vista aritmético, o efeito é previsível. Três candidatos fortes dividindo o mesmo eleitorado tendem a produzir três votações medianas em vez de uma expressiva. Em disputa proporcional, isso pode significar que nenhum dos três alcance o patamar que qualquer um deles, sozinho, teria alcançado. É a fragmentação clássica — e quem pode se beneficiar dela são candidatos de outras regiões que captem parte desses votos.
Santarém: cinco candidatos separados por milímetros
Santarém vive situação parecida, com uma diferença importante: aqui os candidatos têm perfis e eleitorados distintos, o que reduz — mas não elimina — a canibalização.
Maria do Carmo ocupa o campo progressista. JK do Povão e João Pingarilho disputam o eleitorado conservador e evangélico, com Josué Paiva também presente nesse campo pelo interior. Nélio Aguiar opera num espaço próprio — o do eleitor que avalia gestão executiva, tendo sido prefeito por oito anos. Dayan Rocha entra com a herança de uma família política tradicional da cidade.
A pesquisa Doxa mais recente para o Baixo Amazonas mostrou os principais nomes separados por menos de dois pontos percentuais — todos dentro da margem de erro. Na prática, significa que nenhum tem vantagem consolidada e que a campanha decidirá. Com aproximadamente 30% dos eleitores da região ainda indecisos, há espaço para movimentação real nas próximas sete semanas.
O que observar nas próximas semanas
A campanha oficial dura sete semanas. Nesse período, o eleitor terá acesso à propaganda de rádio e televisão, aos debates, aos programas de governo e às visitas de rua. Três coisas merecem atenção especial de quem quer votar bem.
Primeira: quem aparece de fato na sua cidade. Candidato que só manda material impresso e nunca pisa no município tende a ser o mesmo que, eleito, não retorna. Segunda: o que cada candidato promete e o que já entregou. Promessa sem histórico é discurso; promessa com histórico é projeto.
Terceira: em que bloco o candidato está. Como esta coluna explicou no início, um bom candidato num bloco fraco pode não se eleger.
Na quarta-feira, esta coluna publica o guia dos candidatos do Oeste do Pará à Câmara dos Deputados — com o mesmo formato e o mesmo compromisso: informação, não propaganda.
Política é gestão. E voto consciente começa com informação organizada.
Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos e quartas no Jornal O Impacto.
O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.
O Impacto



São vários candidatos, que disputam a ALEPA , alguns com boas chances de ser eleito outros não , vão depender muito dos seus discursos e projetos e principalmente dos seus cabos eleitorais!