LADRÃO DE COBRE
Há algum tempo venho observando, e ouvindo relatos por todos os lados, sobre o crescente furto de fios e cabos elétricos em Santarém.
Não se trata mais de ocorrência isolada, daquelas que surpreendem uma rua ou um bairro e logo caem no esquecimento. A repetição dos casos começa a revelar um problema urbano que merece atenção das autoridades e da própria sociedade.
Principalmente durante a madrugada, pessoas percorrem as ruas em busca de fios, cabos, caixas, instalações elétricas e tudo aquilo de que possam retirar algum metal com valor de revenda, especialmente o cobre.
São destemidas, repetitivas e inconsequentes.
Não parecem temer sequer o risco da descarga elétrica. Cortam fios, mexem em instalações energizadas, sobem em postes e antenas, invadem imóveis e colocam em perigo a própria vida e a de terceiros por alguns metros de cabo que, depois de desencapados ou queimados, provavelmente serão vendidos por alguns trocados.
Não preciso ir longe para constatar o problema.
Meus vizinhos dos dois lados já foram vítimas desse tipo de ação. Uma torre da Vivo nas proximidades também sofreu, por duas vezes seguidas, com a subtração de fiação. As câmeras da minha casa registraram a ação dos meliantes. A Casa da Memória, depois de seis arrombamentos sucessivos, acabou cerrando as portas, com prejuízos materiais e perda inestimável para a cultura regional.
E não é somente impressão de quem acompanha o cotidiano da cidade. Esse tipo de crime vem se repetindo com frequência preocupante, sem que se perceba, até aqui, uma resposta suficientemente eficaz do poder público. A reincidência e a ousadia dos autores transmitem à população uma incômoda sensação de impunidade. Agem como se pouco temessem a fiscalização, a polícia ou as consequências de seus atos.
O problema existe e adquiriu dimensão preocupante.
Mas há uma pergunta que precisa ser feita: para quem é vendido todo esse cobre?
Porque ninguém arrisca a vida retirando fios de postes, residências, estabelecimentos comerciais, torres de telefonia e equipamentos públicos para guardar o material debaixo da cama.
Existe comprador.
E aqui talvez esteja um dos pontos centrais da questão.
O pequeno ladrão que percorre a madrugada é apenas a face mais visível de uma cadeia que necessariamente termina em algum lugar. O cobre retirado ilegalmente precisa ser pesado, comprado, armazenado e, posteriormente, revendido.
Sem receptador, o furto perde sua razão econômica.
Por isso, combater somente quem corta o fio é enxugar gelo.
É preciso chegar também a quem compra.
Ferros-velhos, depósitos de sucata e comerciantes de metais devem ser fiscalizados permanentemente, exigindo-se a comprovação da procedência do material adquirido. Quem compra dezenas ou centenas de metros de cabo sem origem minimamente explicável não pode simplesmente fechar os olhos e alegar desconhecimento.
A legislação brasileira, aliás, tornou-se mais rigorosa. Desde julho de 2025, o Código Penal prevê pena de dois a oito anos de reclusão, além de multa, para o furto de fios e cabos destinados aos serviços de energia elétrica, telefonia e transmissão de dados. A lei também agravou a punição para quem recepta esse tipo de material.
Foi uma resposta necessária. Mas lei, sozinha, não corta fio nem impede que o cortem. É preciso fiscalização, investigação, inteligência policial e controle sobre a comercialização do cobre.
Há ainda outro aspecto que não pode ser ignorado. Muitos daqueles que vemos perambulando pelas ruas durante a madrugada aparentam viver em situação de extrema vulnerabilidade e dependência química. Isso não retira a responsabilidade por seus atos, mas revela que estamos diante de um problema que não é exclusivamente policial.
Segurança pública, assistência social e saúde também precisam conversar.
O dependente que furta hoje é preso amanhã e volta poucos dias depois à mesma rua, movido pela necessidade de sustentar o vício. Esse círculo tende a se repetir enquanto houver quem compre o produto furtado e enquanto a dependência não for enfrentada de forma séria e contínua.
Enquanto isso, quem paga a conta é a população. Paga o morador que acorda sem energia. Paga o comerciante que fica sem telefone ou internet. Paga quem tem o imóvel invadido e precisa refazer toda a instalação. Paga o contribuinte quando a fiação de uma praça, avenida ou prédio público precisa ser novamente instalada.
E, algumas vezes, uma cidade inteira paga por poucos quilos de cobre.
Talvez esteja na hora de Santarém olhar com mais atenção para seus ladrões de cobre.
Mas, sobretudo, para quem compra o cobre dos ladrões.
Porque, por trás do furto reiterado, há quase sempre um mercado que o alimenta.
Sem quem compre, não há quem furte com tanta frequência.
O combate ao ladrão de cobre precisa, necessariamente, chegar ao receptador.
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O Impacto



Com certeza não existe furto sem mercado clandestino, ou seja só existe furto porque existe receptor, e o combate tem que começar pelos compradores !