O ELEITOR QUE AINDA NÃO DECIDIU — E POR QUE É ELE QUEM DECIDE ESTA ELEIÇÃO

Por Fábio Maia

No domingo, escrevi que 2026 é a eleição mais aberta que o Pará viveu em uma década, porque quase todos os grandes puxadores de voto mudaram de partido, de cargo ou de casa legislativa. Prometi que hoje trataria do outro lado dessa história — e ele é ainda mais impressionante.

Se os partidos estão reorganizados, o eleitor está indeciso. E não é um pouco indeciso: mais da metade do eleitorado paraense ainda não sabe em quem vai votar para deputado.

Os números

A pesquisa Doxa, com 8 mil entrevistas para deputado federal e 10 mil para deputado estadual — as maiores amostras já aplicadas no estado neste ciclo, com registro no TRE-PA —, mostra o seguinte.

Para deputado federal: 44,07% dos entrevistados não souberam ou não quiseram dizer em quem votariam entre os deputados atuais. Outros 8,22% declararam voto branco ou nulo. Somados, 52,29% do eleitorado paraense.

Para deputado estadual: 41,89% de indefinição e 8,06% de brancos e nulos. Quase metade.

No Baixo Amazonas, nossa região, o quadro é o mesmo: 40,4% dos eleitores ainda não escolheram candidato ao estadual e 44,5% não escolheram ao federal.

Traduzindo para Santarém, que tem 253.097 eleitores: algo em torno de 100 a 126 mil pessoas na cidade ainda não sabem em quem votarão para deputado. É mais gente indecisa do que o total de votos que qualquer candidato de Santarém já obteve na história.

O primeiro mito: indeciso não é alienado

Existe uma leitura preguiçosa e muito comum de que quem não decidiu não se interessa por política. Os dados desmentem isso com clareza.

Repare na diferença entre os dois números. Os 8% que declararam voto branco ou nulo — esses, sim, estão manifestando rejeição. Eles decidiram: decidiram não escolher ninguém.

Já os 44% que responderam “não sei” são outra coisa completamente diferente. São eleitores que vão às urnas, vão apertar um número e ainda não sabem qual. Não é desinteresse — é indefinição. E indefinição, ao contrário do desinteresse, tem solução: informação.

Quem é esse eleitor

Os dados do Tribunal Superior Eleitoral permitem desenhar o retrato de quem decide a eleição em Santarém, e ele desmonta alguns estereótipos.

Ele é majoritariamente mulher: 52% do eleitorado santareno, cerca de 131 mil eleitoras. Tem entre 25 e 44 anos — essa faixa concentra 43,3% da cidade, aproximadamente 109 mil pessoas. Autodeclara-se pardo em 79,63% dos casos. Tem ensino médio, completo ou incompleto, em 53,77%. E é solteiro em 73%.

Ou seja: não é o eleitor idoso e conservador do imaginário popular, nem o jovem universitário engajado nas redes. É o trabalhador urbano de meia-idade, que está no mercado de trabalho, usa serviço público de saúde, tem filho em escola pública e sente no bolso o custo de vida da cidade.

É esse eleitor que decide a eleição em Santarém. E ele não está esperando discurso.

O que ele está esperando

Ao longo de vinte anos acompanhando eleições no Oeste do Pará, aprendi que esse perfil de eleitor não decide por programa de governo, nem por ideologia, nem por marketing. Ele decide por reconhecimento — no sentido literal da palavra.

Ele quer reconhecer alguma coisa. Uma obra que ele usa. Um posto de saúde que atendeu a mãe dele. Uma escola que reformaram. Um nome que apareceu no bairro dele quando não era época de eleição. Ele quer olhar para um candidato e conseguir dizer, com as próprias palavras, o que aquela pessoa fez.

Quando ele não consegue dizer isso de nenhum candidato, ele fica indeciso. E é exatamente aí que estão os 44%.

Como decidir bem — três perguntas práticas

Se você é um desses eleitores que ainda não decidiu, e quer decidir bem, sugiro três perguntas. Elas não dizem em quem votar — dizem como pensar.

Primeira: o que esse candidato já entregou? Não o que promete — o que já fez. Emenda destinada, obra viabilizada, projeto aprovado, gestão executada. Tudo isso é público e verificável, e a maior parte está a uma busca de distância na internet. Promessa sem histórico é discurso. Promessa com histórico é projeto.

Segunda: ele aparece aqui fora do período eleitoral? Candidato que só é visto de quatro em quatro anos costuma repetir esse padrão depois de eleito. Quem tem vínculo real com a região tem presença contínua — e os moradores do bairro sabem dizer quem tem e quem não tem.

Terceira: qual é a chance real do partido dele? Esta é a pergunta que quase ninguém faz, e é a que mais desperdiça voto. Como expliquei nos guias das últimas semanas, no sistema proporcional o candidato só se elege se o partido ou a federação atingir o quociente eleitoral. Um bom candidato num bloco inviável recebe seu voto e não se elege — e aquele voto acaba ajudando a eleger outra pessoa, de outro partido, que você talvez nem conheça.

Por que isso importa mais em 2026 do que em qualquer outro ano

Em eleições normais, o eleitor indeciso decide entre nomes conhecidos e partidos estáveis. A margem de erro da escolha é pequena, porque o cenário é previsível.

Este ano não é assim. Os partidos se reorganizaram, os puxadores mudaram de lugar, e ninguém sabe ao certo quantas vagas cada bloco vai conquistar. Nesse cenário, o voto informado vale muito mais do que valeria em um ano comum — e o voto desinformado se perde com muito mais facilidade.

Metade do Pará ainda não escolheu. Essa metade vai decidir quem representa o estado em Belém e em Brasília pelos próximos quatro anos. E vai decidir isso nas próximas cinco semanas.

No domingo, esta coluna analisa o outro lado da disputa: a virada de Hana Ghassan nas pesquisas para o governo do Pará e o que ela revela sobre a máquina eleitoral montada pelo campo governista.

Política é gestão. E o voto é a única forma de gestão que todo cidadão exerce diretamente.

*Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos e quartas no Jornal O Impacto.


O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.


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Um comentário em “O ELEITOR QUE AINDA NÃO DECIDIU — E POR QUE É ELE QUEM DECIDE ESTA ELEIÇÃO

  • 26 de agosto de 2026 em 13:28
    Permalink

    Os eleitores do Pará estão mais cientes das responsabilidades e das irresponsabilidades de muitos candidatos que não tem nenhum compromisso com a população, e as mulheres estão mais bem informadas em relação ao conhecimento politico!

    Resposta

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