O MANGUEIRINHO SEM VICE — O SILÊNCIO QUE DISSE MAIS DO QUE QUALQUER ANÚNCIO

Por Fabio Maia

Na semana passada, esta coluna alertou que na política paraense tudo pode mudar até a noite da convenção. Ontem à tarde, no Ginásio Mangueirinho — com capacidade para doze mil pessoas, superlotado, portões fechados às 16h com multidão assistindo do lado de fora por telão —, aconteceu algo que nenhum analista esperava: a maior convenção do campo governista no Pará oficializou Hana Ghassan ao governo e Helder Barbalho ao Senado — e terminou sem anunciar o vice-governador.

Não houve falha de organização. Não houve imprevistos de logística. Houve uma decisão deliberada de não decidir. E essa não-decisão é, ela mesma, a notícia mais importante da semana.

O que aconteceu nos bastidores — a sequência real

Para entender o que ocorreu ontem, é preciso reconstituir a semana com precisão.

Na sexta-feira, 31 de julho, o PT do Pará realizou sua convenção estadual no bairro da Pedreira, em Belém. O partido manteve a aliança com o MDB, declarou apoio a Hana Ghassan e indicou o deputado estadual Dirceu Ten Caten para compor a chapa como vice-governador. A decisão foi tomada após plenárias realizadas em Marabá, Santarém e Belém — o PT chegou à sua convenção com posição definida.

No sábado, 1º de agosto, foi a vez do MDB. O Mangueirinho estava cheio. Hana Ghassan foi confirmada candidata ao governo. Helder Barbalho foi homologado candidato ao Senado. Chicão foi confirmado como segundo senador do campo. A coligação majoritária foi aprovada. Tudo isso foi oficializado. O vice não.

A dissociação entre os dois eventos conta a história por si mesma: o PT escolheu Dirceu na sexta. O MDB convencionou no sábado sem ratificar essa escolha. São dois partidos aliados que deveriam ter chegado ao Mangueirinho com o nome do vice combinado — e não chegaram.

Houve ainda um detalhe que não passou despercebido pelos analistas: o único aliado a discursar no palco ao lado de Hana Ghassan e Helder Barbalho foi Chicão — presidente do União Brasil e presidente da Alepa. Num evento do MDB, o destaque foi dado ao líder de outro partido. É mais um sinal de como o campo político que Helder construiu transcende as fronteiras partidárias tradicionais.

Por que a convenção terminou sem o vice

A pressão que esta coluna identificou na semana passada — evangélicos e setor produtivo resistindo ao nome do PT — foi real, operacionalmente organizada e suficientemente forte para frear uma decisão que deveria ter sido fácil.

A situação do PT ficou exposta de forma constrangedora. O senador Beto Faro e a deputada federal Dilvanda Faro estavam presentes no Mangueirinho — e saíram sem a confirmação que esperavam. O PT indicou Dirceu Ten Caten desde novembro do ano passado. Beto Faro chegou a ameaçar candidatura própria caso o partido não fosse respeitado na composição. Ontem, diante do silêncio do MDB sobre a vice, os dois fizeram “cara de paisagem” — como descreveram fontes presentes no evento. O quiproquó é sério: o presidente Lula precisa de palanque no Pará, e o PT precisa saber se está ou não na chapa antes de comprometer sua estrutura de campanha para o campo governista.

A Comissão Interestadual de Ministros das Assembleias de Deus no Pará, a Comieadepa, convocou reunião de emergência na segunda-feira após o anúncio do Avante de Josué Paiva como vice. Representantes do setor produtivo e de partidos como os Republicanos se posicionaram contrários à indicação do PT. Não foi pressão retórica — foi mobilização institucional de atores com capacidade real de influenciar o resultado em outubro.

Helder Barbalho chegou ao Mangueirinho sabendo que anunciar Dirceu Ten Caten poderia custar mais do que ganhar. O eleitorado progressista que Dirceu representa é relevante — mas o eleitorado evangélico e do agronegócio que se opõe a ele é numericamente comparável e eleitoralmente mais volátil. Em empate técnico com Daniel Santos, perder qualquer um dos dois lados pode ser a diferença entre governar e perder.

A não-decisão foi, portanto, uma decisão estratégica: comprar tempo para calcular com mais dados qual lado pesa mais na balança.

13 dias para resolver o que a convenção não resolveu

Há um prazo que não pode ser ignorado: 15 de agosto. Essa é a data limite, estabelecida pelo Tribunal Superior Eleitoral, para que partidos, federações e coligações apresentem o registro formal de suas candidaturas. Até as 19h desse dia, a chapa de Hana precisa estar completa e protocolada — com o nome do vice. Sem registro, não há candidatura. E no dia 16 de agosto começa oficialmente a propaganda eleitoral nas ruas e na internet.

São treze dias. Tempo suficiente para negociar. Tempo insuficiente para errar. Como sintetizou bem quem acompanhou a convenção: até o dia 15 de agosto, muita gente não vai dormir.

O que acontece nos próximos treze dias vai definir o perfil da candidatura governista por toda a campanha. Helder vai se debruçar nas pesquisas, ouvir lideranças e calcular com precisão qual lado tem o maior peso na balança. Não é uma decisão de gabinete — é uma decisão de dados. E a resposta que ele encontrar vai revelar mais sobre sua estratégia eleitoral do que qualquer discurso poderia revelar.

Os nomes que permanecem em disputa são os mesmos que esta coluna mapeou: Dirceu Ten Caten (PT), com o respaldo da aliança formal entre os partidos mas com resistência do campo evangélico e do agronegócio; Josué Paiva (Avante), com apoio da Assembleia de Deus e base no Oeste do Pará, mas que implicaria a saída de um candidato competitivo do estadual; e Samuel Câmara (Republicanos), como possível terceira via que acomoda o campo evangélico sem acionar o PT diretamente. E, quem sabe, uma indicação do setor produtivo pode ganhar tração, indicado em consenso pela FAEPA, e FIEPA. Será uma queda de braço boa de assistir.

O peso que o Oeste do Pará tem nessa decisão

Esta coluna já analisou em detalhe por que o Oeste do Pará é o fiel da balança desta eleição. Os quase 800 mil eleitores da região, numa disputa em empate técnico — 36% a 35% num eventual segundo turno, segundo a pesquisa Quaest —, representam o diferencial que pode eleger a governadora ou o governador do Pará.

Não por acaso, os dois campos políticos disputam a representatividade regional na vice. Josué Paiva representa o Oeste com base em Santarém. No campo de Daniel Santos, Renata Fonseca (PL/Oriximiná) e Ellayne D’Almeida (PL/Itaituba) são as opções mais fortes. A disputa pelo vice do Baixo Amazonas não é simbólica — é estratégia eleitoral documentada pela história.

O Pará já viu essa jogada antes. Santarém emplacou dois vice-governadores consecutivos: Odair Corrêa, com Ana Julia Carepa (2007-2011), e Helenilson Pontes, com Simão Jatene (2011-2014). Em ambos os ciclos, o governador venceu com o vice do Oeste. A memória histórica está disponível para quem quiser usá-la.

A tentativa de ser o terceiro — o peso da história

Desde a redemocratização, apenas dois governadores do Pará conseguiram eleger seus sucessores: Jader Barbalho, que apoiou Hélio Gueiros em 1986, e Almir Gabriel, que apoiou Simão Jatene em 2002 — começando a campanha com apenas 2% nas pesquisas e chegando ao governo carregado pela máquina pública.

Todos os outros tentaram e falharam. Hélio Gueiros não elegeu Sahid Xerfan. O próprio Jader não elegeu Jarbas Passarinho em 1994. Simão Jatene não elegeu Almir Gabriel em 2006. Ana Julia perdeu a reeleição. Jatene não elegeu Márcio Miranda em 2018.

Helder Barbalho tem a chance de ser o terceiro. E o paralelo com seu pai é inevitável: assim como Jader saiu do governo em 1994 para disputar o Senado e tentou eleger seu candidato ao executivo — e não conseguiu —, Helder saiu do governo para disputar o Senado e apoia Hana Ghassan. O pai tentou e não conseguiu naquele ciclo. O filho tem a oportunidade de fazer o que o pai não fez.

Mas para isso, ele precisa entregar uma chapa completa ao TRE-PA até o dia 15. Com um vice que o campo aguenta. Com uma coalização que não se parte antes do primeiro dia de campanha.

O que vem a seguir

Esta coluna vai acompanhar a resolução da vice até o prazo final. O nome que Helder escolher nos próximos dias, vai revelar mais sobre sua estratégia eleitoral do que qualquer discurso de convenção poderia revelar. Ele vai apostar no eleitorado progressista de Dirceu e tentar conter a insatisfação evangélica e do setor produtivo com outros instrumentos? Vai optar por Josué Paiva e absorver o custo de perder o PT como aliado entusiasmado? Vai encontrar uma terceira via que ninguém ainda viu nos bastidores?

Na política paraense, treze dias são tempo suficiente para mudar tudo — e tempo insuficiente para deixar de calcular. A semana passada provou isso.

Política é gestão. E esta semana, a gestão mais difícil não aconteceu no plenário do Mangueirinho. Aconteceu — e ainda está acontecendo — nos bastidores que o público não vê.


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O Impacto

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