O VÁCUO DE PUXADORES POR QUE 2026 É A ELEIÇÃO MAIS ABERTA DA DÉCADA NO PARÁ
Por Fábio Maia*
Toda eleição proporcional no Pará tem os mesmos protagonistas invisíveis: os puxadores de voto. São aqueles candidatos que sozinhos fazem 150, 200, 250 mil votos e garantem que seu partido atinja o quociente eleitoral — elegendo, no caminho, dois ou três companheiros de chapa que jamais chegariam lá por conta própria.
Em 2026, quase todos eles saíram de onde estavam. E é isso que torna esta a eleição mais imprevisível que o Pará viveu em uma década.
Quem saiu — e quantos votos foram junto
Comecemos pelos números, porque eles contam a história sozinhos.
Éder Mauro fez 205.543 votos para deputado federal em 2022 — o mais votado do PL. Em 2026, deixou a Câmara para disputar o Senado. O PL perdeu seu maior puxador.
Alessandra Haber foi a deputada federal mais votada do Pará em 2022, com 258.907 votos — praticamente o quociente eleitoral inteiro, que fica em torno de 266 mil. Ela deixou o MDB e foi para o Podemos, um partido que não elegeu nenhum deputado federal no ciclo anterior.
Olival Marques, com 102.435 votos, fez o mesmo caminho: saiu do MDB para o Podemos.
Elcione Barbalho, deputada federal desde 1995 e com 175.498 votos em 2022, deixou a disputa federal para concorrer à Assembleia Legislativa.
Somados, são 742 mil votos que mudaram de partido, de cargo ou de casa legislativa. Para efeito de comparação: é mais do que o necessário para eleger dois deputados federais inteiros.
O que isso significa na prática
Quando um puxador sai de um partido, ele não leva apenas os próprios votos. Leva a capacidade daquele partido de eleger os candidatos médios da chapa.
O MDB é o exemplo mais claro. Em 2022, elegeu nove deputados federais — o maior número do estado. Vários deles chegaram lá porque Alessandra Haber, Elcione Barbalho e outros puxadores construíram um quociente partidário robusto. Em 2026, o MDB apresenta apenas 11 candidatos ao federal, sem Haber, sem Elcione e sem Olival Marques. A conta, que antes fechava com folga, agora depende de Jader Filho, Priante, Renilce Nicodemos e de dois ou três nomes conseguirem compensar sozinhos o quadro favorável de 2022.
O Podemos vive o oposto. Não elegeu ninguém para a Câmara em 2022. Agora tem dois deputados federais em exercício na chapa — Haber e Olival Marques — e ainda Bob Fllay, atual deputado estadual com forte reconhecimento na região metropolitana. Saltou de partido irrelevante em 2022 à competitivo em 2026.
O mesmo movimento aconteceu na Assembleia
Na disputa estadual, o padrão se repete com igual intensidade.
Chicão, quarto mais votado da Alepa em 2022 com 91.542 votos, deixou o MDB, assumiu a presidência do União Brasil e agora disputa o Senado — saindo completamente do jogo proporcional.
Dirceu Ten Caten, com 66.397 votos, abandonou a reeleição para ser candidato a vice-governador.
Rogério Barra, que fez 81.868 votos para a Assembleia, migrou para a disputa federal — e sua esposa, Tati Barra, assumiu a candidatura estadual pelo mesmo partido.
Lu Ogawa, com 46.262 votos, também trocou o estadual pelo federal.
E Paula Titan e Ângelo Ferrari, ambos eleitos pelo MDB em 2022, migraram para a Federação União Progressista — levando juntos quase 120 mil votos de um bloco para outro.
O eleitorado também está em aberto — e muito
Se os partidos estão reorganizados, o eleitor está indeciso. E aqui os números da pesquisa Doxa, com amostras de 8 mil e 10 mil entrevistas, são impressionantes.
Para deputado federal, 44,07% dos entrevistados não souberam ou não quiseram responder em quem votariam entre os deputados atuais. Outros 8,22% declararam voto branco ou nulo. Somados, mais da metade do eleitorado paraense — 52,29% — não sabe ou não quer votar em quem está lá.
Para deputado estadual, o quadro é semelhante: 41,89% de indefinição entre os atuais deputados e 8,06% de brancos e nulos.
Ou seja: metade dos votos do Pará ainda não tem dono. Numa eleição em que os puxadores mudaram de lugar, isso significa que praticamente qualquer coisa pode acontecer.
O que isso muda para o eleitor do Oeste do Pará
Para nossa região, esse cenário tem uma implicação direta que vale explicar com clareza.
Quando os grandes puxadores estão estáveis, os candidatos regionais têm um caminho previsível: entram num partido forte, contribuem para o quociente e são eleitos na sobra se fizerem votação razoável. Foi assim que Henderson Pinto se elegeu em 2022 pelo MDB, e Airton Faleiro pelo PT — ambos pela distribuição das médias, não pelo quociente direto.
Em 2026, essa previsibilidade acabou. Ninguém sabe ao certo quantas vagas cada bloco vai conquistar, porque os blocos não são mais os mesmos. Isso aumenta o risco para quem depende da sobra — e aumenta a importância de cada voto individual conquistado.
Na prática: o candidato que fizer votação própria expressiva está mais protegido do que aquele que apostar em ser carregado pela chapa. Em um ano em que as chapas foram desmontadas e remontadas, contar com o vizinho é uma aposta arriscada.
O que observar daqui até outubro
Três coisas me parecem decisivas nas próximas semanas.
A primeira: quem consegue capturar os indecisos. Com metade do eleitorado em aberto, a campanha que converter primeiro constrói vantagem difícil de reverter. Isso favorece quem tem estrutura de rua e presença nos municípios — não quem tem apenas presença digital.
A segunda: se os novos puxadores se confirmam. Jader Filho lidera entre os novos nomes ao federal com 8,28%, e Bob Fllay aparece com 7,65%. Se ambos confirmarem, seus partidos elegem com folga. Se um deles não performar, seu bloco inteiro fica exposto.
E a terceira: como os blocos que perderam puxadores vão reagir. O MDB, que dominou a bancada federal paraense por décadas, chega a esta eleição com a chapa mais enxuta entre os grandes partidos e sem três dos seus maiores nomes. É um teste real da estrutura partidária — não do carisma individual.
Nesta quarta-feira, esta coluna analisa exatamente esse dado que considero o mais revelador do ciclo: os mais de 50% de eleitores paraenses que ainda não escolheram em quem votar para deputado. Quem são, onde estão e o que eles esperam ouvir.
Política é gestão. E numa eleição sem previsibilidade, gestão de campanha vale mais do que nunca.
*Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos e quartas no Jornal O Impacto.
O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.
O Impacto



Na verdade tem muitos nomes que praticamente já estão em Brasília , outros vão ter que lutar muito para conseguir a vaga sonhada , mais vai depender muito das suas jornadas com seus eleitores e do empenho dos cabos eleitorais!