ROCHA NEGRA: PRESERVAR, PESQUISAR E EDUCAR

Por José Ronaldo Dias Campos

Há anos venho chamando a atenção para a necessidade de preservar e dar destinação adequada à cantada e decantada Rocha Negra, uma das mais importantes áreas verdes ainda existentes no perímetro urbano de Santarém.

Volto ao tema, desta vez com uma provocação que me parece oportuna: por que não a Ufopa?

A Rocha Negra tem uma história que, de certa forma, já se entrelaça com a própria Universidade. A área, adquirida pelo Município de Santarém da família Liebold, na década de 1990, durante a administração do prefeito Ruy Corrêa, chegou a ser destinada à Universidade Federal do Pará (UFPA), da qual se originou, em Santarém, a atual Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).

Por inércia da autarquia, entretanto, a finalidade pretendida não se concretizou, e a área acabou retornando ao patrimônio municipal.

A história, porém, não precisa terminar aí.

Estamos falando de aproximadamente 359 hectares (já foi bem maior), no bairro Cambuquira, nas proximidades da BR-163, em plena área urbana de Santarém. Um patrimônio natural de dimensão extraordinária, com nascentes, vegetação e recursos naturais que justificam plenamente sua proteção.

Em 2020, o Município formalizou a tredestinação da área. Posteriormente, o Decreto Municipal nº 491/2022 estabeleceu limitação administrativa provisória sobre o espaço destinado ao futuro Parque Natural Municipal da Rocha Negra, medida preparatória à sua transformação em Unidade de Conservação.

O Município chegou a iniciar o georreferenciamento da área, com previsão de levantamento da fauna e da flora. Em 2023, técnicos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, do Ideflor-Bio e da Companhia de Policiamento Ambiental realizaram estudos físicos, biológicos e socioeconômicos destinados a subsidiar a criação da unidade de conservação.

Passaram-se os anos, entretanto, e a Rocha Negra continua esperando.

Por isso, talvez seja chegada a hora de reunir Município e Universidade em torno de uma solução definitiva.

A Ufopa possui vocação amazônica por excelência. É uma universidade instalada no coração da Amazônia, cercada por uma das maiores biodiversidades do planeta e comprometida, por sua própria natureza institucional, com o ensino, a pesquisa, a extensão e o desenvolvimento sustentável da região.

Que espaço poderia representar melhor essa missão do que a Rocha Negra?

Não proponho simplesmente devolver um imóvel à Universidade. A ideia é muito maior.

Imagino a Rocha Negra transformada em um verdadeiro laboratório vivo da Amazônia, aberto à ciência e à sociedade.

Ali poderiam coexistir o Parque Ambiental, atividades de pesquisa científica, educação ambiental, projetos de extensão, recuperação de áreas degradadas, estudos da fauna e da flora, proteção das nascentes, trilhas ecológicas orientadas, viveiro de espécies nativas e até o tão necessário horto municipal que há anos defendo para Santarém.

Cursos das áreas ambientais e de outras áreas do conhecimento encontrariam ali um campo privilegiado para atividades acadêmicas. Professores, pesquisadores e estudantes poderiam produzir conhecimento diretamente relacionado à realidade amazônica, enquanto a população ganharia um espaço de preservação, contemplação, educação e convivência com a natureza.

Tudo isso, evidentemente, mediante estudos técnicos e jurídicos e com rigorosa observância da legislação ambiental.

Não se trata, portanto, de discutir apenas a quem pertence a Rocha Negra, mas de responder a uma pergunta muito mais importante: a quem ela deve servir?

A resposta me parece simples: à natureza, à ciência e à população de Santarém.

Há ainda um simbolismo nessa proposta. A área que um dia esteve vinculada à Universidade e retornou ao Município poderia reencontrá-la, agora sob uma concepção moderna de cooperação institucional, sem que necessariamente se reproduza o modelo jurídico adotado no passado.

Município e Ufopa poderiam estudar conjuntamente a fórmula mais adequada — parceria, cessão, gestão compartilhada ou outro instrumento juridicamente possível — para transformar definitivamente aquele patrimônio em espaço protegido e útil à coletividade.

Tenho escrito sobre a Rocha Negra há muitos anos. Em 2017, já sugeria sua utilização para a implantação de um horto municipal. Em 2019, fiz um apelo: “Vamos salvar a cantada e decantada Rocha Negra”. Em 2021, comemorei a notícia de que finalmente poderia virar parque. Em 2022, voltei a defender o horto municipal. Em 2025, cobrei novamente a concretização do Parque Ambiental. E, em 2026, a Rocha Negra continuou figurando entre aquelas promessas que atravessam administrações sem chegar à plena realização.

Não faltaram ideias. Não faltaram estudos. Não faltaram anúncios.

Talvez esteja faltando juntar as forças certas.

A Prefeitura de Santarém e a Ufopa têm diante de si a oportunidade de construir uma parceria exemplar, capaz de conciliar preservação ambiental, conhecimento científico, educação e qualidade de vida.

A Rocha Negra não pode continuar sendo apenas cantada e decantada em verso e prosa, nem sobreviver eternamente no mundo das promessas.

É hora de resgatá-la.

Prefeitura e Ufopa: por que não?

 


O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.


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Um comentário em “ROCHA NEGRA: PRESERVAR, PESQUISAR E EDUCAR

  • 11 de agosto de 2026 em 17:03
    Permalink

    Realmente se não tiver uma solução daqui uns dias vai um loteamento irregular ou até mesmo invasões, porque já existem no entorno da mesma, além da caça, mais não precisa só fazer um horto ou um parque, precisa também de investimento e vigilância seria!

    Resposta

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