A ELEIÇÃO QUE NÃO SE DEFINE — E POR QUE ISSO É BOM PARA O OESTE DO PARÁ

Por Fábio Maia*

Escrevi aqui no dia 30 de agosto que a melhor notícia para a nossa região não seria uma eleição resolvida cedo, e sim uma disputa competitiva até outubro — porque é quando a região é ouvida. Os dados divulgados ontem e o que aconteceu em Santarém na semana passada confirmam essa leitura de forma quase didática.

A pesquisa de ontem

O instituto Real Time Big Data divulgou nesta terça-feira o levantamento feito entre 3 e 7 de setembro, com 1.600 entrevistas e margem de erro de dois pontos, registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número PA-00206/2026.

No primeiro turno, Hana Ghassan aparece com 37% e Dr. Daniel Santos com 35%. Araceli Lemos, do PSOL, tem 5%. Brancos e nulos somam 8% e os indecisos, 14%. Com margem de dois pontos, os dois primeiros estão tecnicamente empatados.

Na simulação de segundo turno, Hana tem 40% e Daniel 36% — diferença de quatro pontos, no limite da margem. Empate técnico também.

A pesquisa mediu ainda a rejeição: Dr. Daniel é rejeitado por 41% dos entrevistados, Araceli por 35% e Hana por 33%. E a aprovação do governo estadual: 69% aprovam a gestão da governadora.

O dado que os números escondem — e que só aparece na comparação

Há uma informação que nenhum instituto destaca, mas que salta aos olhos de quem acompanha a série histórica. O mesmo Real Time Big Data havia feito uma pesquisa entre 30 de julho e 3 de agosto. Comparar as duas rodadas do mesmo instituto elimina a variação de metodologia e mostra o movimento real.

Naquele levantamento de agosto, o primeiro turno estava em 31% para Hana e 29% para Daniel. No segundo turno, porém, Daniel aparecia à frente: 38% contra 36%.

Agora, em setembro, o primeiro turno subiu para 37% e 35% — os dois cresceram exatamente seis pontos cada. Mas o segundo turno virou: Hana tem 40% e Daniel 36%.

Em pouco mais de um mês, houve uma inversão de seis pontos no cenário de segundo turno. E os dois candidatos cresceram na mesma proporção no primeiro. Quem encolheu foram os indecisos. A disputa está se polarizando — não se definindo.

O que o empate produz na prática

Aqui chegamos ao ponto que interessa diretamente a quem mora no Oeste do Pará.

Quando uma eleição está decidida, os candidatos concentram recursos onde há mais eleitores — e isso significa Belém e região metropolitana. Quando está empatada, cada voto conta, e as regiões que antes eram tratadas como “plano B” passam a ser disputadas.

Na quinta-feira passada, dia 3 de setembro, isso ficou visível em Santarém.

A reunião da ACES — a região sendo ouvida

A governadora Hana Ghassan participou de uma reunião com o setor produtivo na sede da Associação Comercial e Empresarial de Santarém, a ACES. Não foi um ato de campanha comum. Estavam presentes os dois candidatos ao Senado da chapa governista, Helder Barbalho e Chicão, candidatos à Câmara Federal — entre eles o deputado Henderson Pinto —, prefeitos da região e lideranças empresariais.

A pauta central foi o Distrito Industrial da Região Metropolitana de Santarém, projeto que, segundo os dados apresentados no encontro, já reúne 144 manifestações de interesse de empresas. O presidente da ACES, Alexandre Chaves, cobrou definição de cronograma para a implantação e investimentos em infraestrutura portuária e rodoviária.

“Precisamos transformar o potencial da nossa região em geração de emprego, renda e prosperidade. Santarém e o oeste do Pará precisam avançar na industrialização e no fortalecimento das nossas cadeias produtivas“, afirmou Chaves na ocasião.

A governadora respondeu com um compromisso público: “Nós queremos indústrias no nosso Estado. O Pará tem potencial, cresce acima da média nacional e tem gente capacitada. Palavra dada é palavra cumprida“. E reconheceu nominalmente a atuação do deputado federal Henderson Pinto na defesa das demandas de Santarém e do Oeste do Pará.

Helder Barbalho falou em segurança jurídica, regularização fundiária e pavimentação de estradas estratégicas. Chicão destacou o papel do diálogo com os setores produtivos. E o presidente das Entidades Unidas pelo Desenvolvimento, Edno Cortezia, entregou às lideranças uma minuta com propostas elaboradas por oito entidades representativas do setor produtivo da região.

Por que esse encontro importa mais do que parece

Reunião com empresariado em ano eleitoral não é novidade. O que torna esse encontro relevante é o conjunto de quem estava na sala.

A chapa majoritária inteira — governadora e os dois candidatos ao Senado — deslocada para Santarém, a mais de 800 quilômetros de Belém, para ouvir demandas de um setor específico de uma região específica. Isso não acontece quando a eleição está resolvida. Acontece quando cada voto é necessário.

E há um dado que dá dimensão ao que está em jogo: o Oeste do Pará tem 792.593 eleitores aptos. Numa disputa em que os dois primeiros colocados estão separados por dois pontos percentuais, essa massa eleitoral pode definir o resultado.

É exatamente a situação que descrevi na coluna de 30 de agosto. E, ao contrário do que muitos imaginam, ela nos favorece — porque região disputada é região atendida.

O Senado e a segunda vaga embolada

A pesquisa de ontem trouxe também o quadro da disputa pelo Senado, onde o eleitor vota em dois nomes.

Considerando o primeiro voto, Helder Barbalho aparece com 45%, seguido de Éder Mauro com 22%. Celso Sabino, Chicão e Zequinha Marinho aparecem empatados com 9% cada. No segundo voto, Helder lidera com 27%, Zequinha tem 15%, Celso Sabino e Chicão marcam 14% cada e Éder Mauro, 12%.

No consolidado dos dois votos, Helder chega a 36% e Éder Mauro a 17%, com Celso Sabino, Chicão e Zequinha Marinho empatados em 12%.

A leitura é clara: a primeira vaga está praticamente definida. A segunda está genuinamente aberta, com quatro candidatos ainda em disputa. Para quem acompanha esta coluna desde julho, quando analisei a construção da candidatura de Chicão, o dado mostra que aquela operação ainda não se converteu em vantagem — e que a disputa pela segunda cadeira será decidida nas últimas semanas.

O que observar até 4 de outubro

Três coisas me parecem decisivas.

A primeira: se os indecisos continuam caindo na mesma proporção para os dois lados. Nas duas rodadas do Real Time Big Data, Hana e Daniel cresceram exatamente seis pontos cada. Se um deles começar a crescer mais que o outro, aí sim a eleição começa a se definir.

A segunda: quantas vezes a chapa majoritária volta ao Oeste do Pará. Visita em setembro é sinal de disputa. Visita em outubro, na reta final, é sinal de que a região realmente decide.

E a terceira: se as demandas apresentadas na ACES saem do papel. Cronograma do Distrito Industrial, infraestrutura portuária, pavimentação de estradas. São compromissos assumidos publicamente, diante de testemunhas, com registro. O eleitor tem o direito de cobrar — e a memória para isso.

Política é gestão. E gestão de compromisso público começa no dia em que ele é assumido.

Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos e quartas no Jornal O Impacto.


O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.


O Impacto

Um comentário em “A ELEIÇÃO QUE NÃO SE DEFINE — E POR QUE ISSO É BOM PARA O OESTE DO PARÁ”

  • 10 de setembro de 2026 em 09:27
    Permalink

    Que essa reunião da governadora juntamente com os candidatos mais bem intencionados, não sejam somente uma promessa de campanha, que ela seja colocada em prática e possa transformar a região em um polo produtivo ‘

    Resposta

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