A PRIMEIRA VAGA ESTÁ DECIDIDA. A SEGUNDA COMEÇA A SER DISPUTADA AGORA

Por Fábio Maia

Em 2026, pela primeira vez desde 2018, o eleitor paraense vota em dois nomes para o Senado. É uma mudança que parece pequena e não é: ela transforma completamente a lógica da disputa — e traz de volta um precedente que merece atenção, porque na última vez em que o Pará elegeu dois senadores, os dois vieram do mesmo campo político.

O que as pesquisas mostram

A pesquisa Real Time Big Data divulgada na semana passada, com 1.600 entrevistas e margem de dois pontos, mediu as duas escolhas separadamente.

No primeiro voto, Helder Barbalho aparece com 45%. Éder Mauro tem 22%. Celso Sabino, Chicão e Zequinha Marinho aparecem empatados com 9% cada.

No segundo voto, Helder lidera de novo, com 27%. Zequinha Marinho tem 15%, Celso Sabino e Chicão marcam 14% cada, e Éder Mauro fica com 12%.

Somando as duas escolhas e reduzindo a cem por cento, o quadro fica: Helder com 36%, Éder Mauro com 17%, e Celso Sabino, Chicão e Zequinha empatados com 12%.

O dado que quase ninguém comentou

Repare em algo que passou despercebido na cobertura dessa pesquisa.

Helder Barbalho lidera o primeiro voto com 45%. E lidera também o segundo voto, com 27%. Ou seja: mesmo entre os eleitores que escolheram outro candidato como primeira opção, ele é o nome mais lembrado para completar a cédula.

Isso significa que ele domina os dois cenários simultaneamente. Não é apenas o favorito — é a referência para quem vota nele e também para quem não vota. Em disputas de duas vagas, essa posição é a mais confortável que existe.

A primeira cadeira, portanto, está praticamente resolvida. O jogo real é o da segunda.

Por que a segunda vaga não está decidida

Hoje, quem lidera a disputa pela segunda cadeira é Éder Mauro, com 17% no consolidado. Atrás dele, três candidatos empatados em 12%: Celso Sabino, Chicão e Zequinha Marinho.

Mas há uma diferença de natureza entre esses números que muda tudo.

Éder Mauro tem 22% no primeiro voto e 12% no segundo. Ele é a primeira escolha de um eleitorado próprio, consolidado e ideologicamente definido. É voto de convicção — difícil de conquistar e difícil de perder.

Chicão faz o caminho inverso: 9% no primeiro voto e 14% no segundo. Ele depende mais do segundo voto — aquele que o eleitor preenche depois de já ter decidido o primeiro, e que é muito mais sensível à orientação do campo político. É voto de acompanhamento.

Voto de convicção é estável. Voto de acompanhamento é volátil — e volatilidade, na reta final, costuma se mover na direção de quem tem estrutura para movê-la.

O que a história do Pará ensina sobre retas finais

Em 2022, quando havia apenas uma vaga em disputa, a corrida ao Senado paraense terminou muito diferente de como começou.

Na pesquisa do Instituto Acertar feita entre 26 e 29 de agosto daquele ano, Beto Faro tinha 12% e Mário Couto aparecia à frente, com 13%. Menos de um mês depois, entre 20 e 23 de setembro, o mesmo instituto mostrou Beto Faro em primeiro lugar com 30,2% dos votos válidos contra 24,3% de Couto. O petista havia subido 5,4 pontos percentuais e ultrapassado o adversário.

No dia 2 de outubro, o resultado final foi ainda mais amplo: 42,55% para Beto Faro contra 35,47% de Mário Couto. Sete pontos de diferença — mais do que a vantagem que qualquer pesquisa havia registrado.

O que aconteceu entre agosto e outubro de 2022? Campanha. Estrutura. Máquina funcionando. Beto Faro era o candidato apoiado pelo então governador Helder Barbalho, com a articulação do campo governista operando em todo o estado. A vantagem não apareceu nas pesquisas de agosto porque ainda não tinha sido acionada.

O padrão que se repete há três eleições

Vale olhar a série completa das últimas disputas ao Senado no Pará, porque ela revela uma constância que dificilmente é coincidência.

Em 2014, com uma vaga em disputa, foi eleito Paulo Rocha, do PT, com 1.566.350 votos.

Em 2018, com duas vagas — a mesma configuração de agora —, foram eleitos Jader Barbalho, do MDB, com 1.383.306 votos, e Zequinha Marinho, então no PSC, com 1.374.956. Os dois terminaram separados por menos de 9 mil votos.

E em 2022, novamente com uma vaga, foi eleito Beto Faro, do PT, com 1.781.582 votos.

O elemento comum às três eleições é a presença do campo político da família Barbalho — ora na cabeça da chapa, ora sustentando candidatos aliados. Em 2018, Jader Barbalho elegeu-se diretamente. Em 2022, Helder Barbalho, então governador, conduziu a candidatura de Beto Faro à vitória com 42,55% dos votos válidos.

Em três ciclos consecutivos, esse campo esteve presente em todas as cadeiras conquistadas pelo Pará no Senado. E em 2026 ele volta a disputar as duas simultaneamente: Helder no primeiro voto, Chicão no segundo.

Isso não garante resultado. Mas é um indicativo estatístico que qualquer análise séria precisa considerar antes de tratar a segunda vaga como definida.

Por que isso pode se repetir

Há um conjunto de fatores que costuma decidir disputas apertadas nas últimas semanas, e todos eles operam no mesmo sentido em 2026.

O primeiro é a estrutura partidária. Chicão é presidente estadual do União Brasil e integra a chapa majoritária do governo. Isso significa palanque compartilhado, tempo de televisão conjunto e presença nos mesmos eventos que a governadora e o candidato mais bem posicionado ao Senado.

O segundo é a orientação de campo. Como esta coluna analisou em julho, o senador Beto Faro, presidente do PT no Pará, integra a aliança que sustenta a candidatura de Hana Ghassan. Quando o campo progressista orienta o segundo voto, ele fala com um eleitorado disciplinado, que historicamente segue a indicação.

O terceiro é a capilaridade municipal. Prefeitos, vereadores e lideranças locais aliadas ao governo operam nas duas últimas semanas com uma intensidade que pesquisa de setembro não captura — porque a mobilização acontece depois.

E o quarto é a natureza do segundo voto. Quem já decidiu o primeiro nome tende a aceitar sugestão para o segundo. É exatamente o espaço onde a máquina política funciona melhor.

O que pode dar errado nessa leitura

Seria desonesto apresentar apenas o lado que sustenta a tese. Há fatores que jogam contra.

Éder Mauro tem 22% no primeiro voto — mais que o dobro de Chicão. Esse eleitorado é fiel e não se desfaz por orientação de campo adversário. Para ser ultrapassado, ele precisaria perder votos, e não há sinal disso.

Zequinha Marinho lidera o segundo voto entre os concorrentes diretos de Chicão, com 15%. É senador em exercício e tem reconhecimento construído em oito anos de mandato.

E Celso Sabino tem a menor rejeição entre todos os candidatos ao Senado — um ativo que costuma se converter em crescimento justamente na reta final, quando o eleitor indeciso busca a opção que menos rejeita.

Além disso, em 2022 havia uma vaga e a disputa era binária. Em 2026 são duas vagas e cinco candidatos competitivos. A aritmética é diferente, e comparações históricas exigem cautela.

O que observar até 4 de outubro

Três indicadores dirão para onde a segunda vaga está indo.

O primeiro: se Chicão cresce no segundo voto sem crescer no primeiro. Isso confirmaria que a orientação de campo está funcionando — é a assinatura da máquina em operação.

O segundo: se Éder Mauro se mantém estável nos 22% do primeiro voto. Se ele oscilar para baixo, a segunda vaga se abre de vez. Se ele subir, fecha.

E o terceiro: quantas vezes a chapa majoritária aparece junta nos municípios do interior nas duas últimas semanas. Campanha de segundo voto se faz no corpo a corpo, não na televisão.

Em 2022, a pesquisa de setembro não antecipou o tamanho do resultado de outubro. Em 2018, quando havia duas vagas como agora, as duas cadeiras ficaram com o mesmo campo político. Quem olhou apenas os números de setembro em qualquer um desses anos errou a leitura — não porque os números estivessem errados, mas porque a parte decisiva da campanha ainda não tinha acontecido.

Política é gestão. E na reta final de uma eleição, gestão de estrutura costuma valer mais do que gestão de discurso.

No domingo, a coluna analisa como está a disputa proporcional no Oeste do Pará a três semanas da votação.

Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos e quartas no Jornal O Impacto.


O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.


O Impacto

Um comentário em “A PRIMEIRA VAGA ESTÁ DECIDIDA. A SEGUNDA COMEÇA A SER DISPUTADA AGORA”

  • 17 de setembro de 2026 em 17:35
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    A política Paraense tem muitos conflitos entre os candidatos que hoje se assumem de Direita contra os progressistas e esquerdistas que controlam o Pará há décadas, não é fácil desmontar esse grupo que age com a máquina pública, atualmente vemos cinco candidatos em corrida eleitoral muito disputada, apesar de ter uma cadeira praticamente eleita ou segura , agora resta os demais usarem suas estratégias para conquistar o voto da população!

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