AS DUAS FORMAS DE PERDER UM VOTO
O PARAQUEDISTA E O CANDIDATO SEM CHANCE
Por Fábio Maia*
Faltam pouco mais de três semanas para o dia 4 de outubro, e há um conjunto de eleitores do Oeste do Pará que vai fazer tudo certo — comparecer, escolher com convicção, votar em alguém que admira — e mesmo assim terminar o dia sem representação. Não por erro de escolha moral. Por desconhecimento de como o sistema funciona.
Existem duas formas de perder um voto numa eleição proporcional. Esta coluna já tratou de ambas ao longo dos últimos meses, mas nunca lado a lado. Hoje é o dia.
A primeira forma: o candidato paraquedista
Chamo de paraquedista o candidato que aparece na região apenas no período eleitoral. Ele não mora aqui, não tem histórico aqui, não aparece fora de campanha — mas chega com estrutura, recurso e tempo de televisão, e disputa nossos votos como disputaria os de qualquer outro lugar.
E funciona. Os dados provam que funciona.
A pesquisa Doxa do Baixo Amazonas para deputado federal, feita em doze municípios da nossa região, mostrou José Priante em segundo lugar com 14% das intenções. Priante é deputado federal com base em Belém — fez 167.275 votos em 2022, a esmagadora maioria na região metropolitana. Ele aparece aqui à frente de dois deputados que moram na região.
Na pesquisa estadual, o padrão se repete. A Doxa estadual mostra Renilce Nicodemos liderando entre os incumbentes federais com 6,36%, e no cenário estadual nomes com base na capital aparecem à frente de candidatos regionais em pesquisas que incluem nossa região.
Não há nada de ilegal ou desonesto nisso. Candidato pode disputar voto em qualquer município do estado — é o direito dele. O problema não é do candidato. É do eleitor que não percebe a diferença entre ter votos numa região e ter compromisso com ela.
A pergunta que separa um do outro
A distinção é mais simples do que parece, e cabe em uma pergunta: esse candidato depende de mim para se eleger?
Um deputado que faz 10 mil votos em Santarém e 150 mil espalhados pelo resto do estado pode perder toda a votação daqui e ainda assim se eleger. Nós não fazemos falta na conta dele. Já um deputado que faz 49 mil votos em Santarém e depende disso para chegar a Brasília não pode nos ignorar — porque a próxima eleição dele passa obrigatoriamente por esta cidade.
Não é questão de simpatia nem de virtude pessoal. É de incentivo. Quem depende de um território, atende esse território. Quem não depende, atende quando sobra tempo.
E há um teste ainda mais simples, que qualquer morador pode aplicar: esse candidato esteve aqui em 2025? Em 2024, fora do período eleitoral? Em 2023? Presença de quatro em quatro anos costuma se repetir depois da eleição.
A segunda forma: o candidato local sem viabilidade
Este é o caso mais delicado de tratar, porque envolve pessoas de boa-fé, muitas vezes com histórico de serviço à comunidade, que merecem respeito. Mas ignorar o problema seria desonestidade comigo mesmo e com quem lê esta coluna há cinco meses.
No sistema proporcional, o candidato só se elege se o partido ou a federação dele atingir o quociente eleitoral. No Pará, esse número foi de cerca de 266 mil votos para deputado federal e 110 mil para estadual em 2022. Nenhum candidato atinge isso sozinho — a conta é do bloco inteiro.
Isso significa que existem candidaturas que, por melhores que sejam, estão matematicamente fora da disputa. Não por falta de mérito. Por falta de bloco.
Um exemplo concreto, sem citar nomes: há federações disputando as 17 vagas federais do Pará com seis candidatos ao todo. Seis. Para atingir 266 mil votos, cada um precisaria fazer mais de 44 mil — patamar que nenhum deles alcançou em 2022. A conta não fecha. E quem votar ali terá feito uma escolha respeitável que não se converte em representação.
O que acontece com esses votos
Aqui está a parte que quase ninguém explica ao eleitor, e que é a razão de ser desta coluna.
O voto dado a um candidato de bloco inviável não desaparece — ele conta para o partido dele. E se o partido não atinge o quociente, esse voto acaba influenciando a distribuição das sobras entre os blocos que atingiram. Na prática, o eleitor votou em alguém que não se elegeu e ajudou, indiretamente, a compor a conta que elegeu outra pessoa — de outro partido, de outra região, que ele talvez nem conheça.
É o mesmo destino do voto dado ao paraquedista: sai da região e não volta.
Três perguntas antes de decidir
Não vou dizer em quem votar. Vou oferecer o que considero mais útil: o método para decidir.
Primeira pergunta — esse candidato tem histórico verificável aqui? Não promessa: histórico. Obra entregue, emenda executada, projeto aprovado, gestão realizada. Tudo isso é público e está a uma busca de distância.
Segunda — ele depende da nossa região para se eleger? Olhe a votação dele em 2022 por município. Se a maior parte veio daqui, ele depende de nós. Se veio de outro lugar, não.
Terceira — o bloco dele tem chance real? Quantos candidatos competitivos a federação tem? Quantas vagas ela conquistou em 2022? Se o bloco não elege, o candidato não se elege — por melhor que ele seja.
Por que isso importa mais em 2026 do que em qualquer ano recente
Em 2022, Santarém elegeu dois deputados federais. Foi celebrado, com razão, como conquista histórica. Em 2018, tinha elegido apenas um.
Neste ano, a cidade tem quatro candidatos ao federal, mais um com base aqui — cinco nomes disputando parcela do mesmo eleitorado, em blocos diferentes, cujos votos não se somam. E no estadual, cinco candidatos aparecem empatados dentro da margem de erro nas pesquisas regionais.
Nunca tivemos tantos candidatos nossos. E nunca o risco de dispersão foi tão alto. Se o voto do Oeste do Pará se fragmentar entre muitos nomes e blocos inviáveis, o resultado é aritmético: elegemos menos do que elegeríamos com o mesmo número de votos melhor distribuído.
Eleição não premia intenção. Premia aritmética. E a aritmética, ao contrário do discurso, não faz concessão a ninguém.
No domingo, a coluna analisa o que os dados mostram sobre a reta final da campanha no Oeste do Pará.
Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos e quartas no Jornal O Impacto.
O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.
O Impacto



Verdade temos muitos candidatos paraquedistas, que apenas aparecem na região e isso faz atrapalhar os candidatos locais