QUEM DECIDE NÃO É O CANDIDATO: É O PARTIDO DELE
Por Fábio Maia
Desde maio esta coluna repete que, na eleição proporcional, o partido decide tanto quanto o candidato. Foi dito de várias formas, com vários exemplos. Na semana passada, saiu um levantamento que transforma esse argumento abstrato em números concretos — e permite mostrar, pela primeira vez, exatamente como isso funciona.
A pesquisa
O Instituto Doxa divulgou no dia 14 de setembro duas projeções: como ficariam as 17 vagas do Pará na Câmara dos Deputados e como ficariam as 41 cadeiras da Assembleia Legislativa.
O levantamento foi realizado entre 8 e 12 de setembro, com base no acúmulo de 12 mil entrevistas feitas ao longo de 2026, em todas as mesorregiões do estado. A margem de erro é de 3,1 pontos, e os registros no Tribunal Regional Eleitoral incluem os números PA-06964/2026 e PA-06056/2026, entre outros.
Uma característica importante: a pesquisa foi feita de forma espontânea. O entrevistado respondeu de memória, sem lista de nomes. Isso muda o resultado — e explicarei adiante por quê.
Como ficaria a Câmara dos Deputados
Segundo a projeção, o MDB elegeria 6 dos 17 deputados federais do Pará — 35,29% da bancada. O Podemos viria em segundo, com três vagas. PL e PSD fariam duas cada. E quatro grupos elegeriam um deputado cada: a federação PT, PV e PCdoB; a coligação União Brasil e Progressistas; o PSB; e o Republicanos.
Somados, MDB e Podemos ficariam com nove das 17 cadeiras — mais da metade da representação paraense em Brasília.
E há um dado que merece atenção de quem votou em determinados partidos: segundo a mesma projeção, PDT, PSOL/Rede, Avante, DC, Novo e PRD não elegeriam nenhum deputado federal.
Como ficaria a Assembleia Legislativa
No estadual, a concentração é ainda maior. O MDB apareceria com 14 das 41 cadeiras — mais de um terço da Casa. O PL viria em segundo, com oito.
Depois, empatadas com quatro vagas cada, a federação PT, PV e PCdoB e a coligação União Brasil e Progressistas. PSD e Avante teriam três cada. Republicanos e Podemos, duas. E a federação PSOL/Rede, uma.
Também aqui há legendas que não elegeriam ninguém: PSB, PDT, PRD/Solidariedade, PRTB, UP e DC.
O que esses números ensinam ao eleitor
Agora chegamos ao ponto que interessa de verdade.
Imagine dois candidatos com a mesma capacidade, o mesmo histórico e o mesmo número de votos. Um está no MDB, que a projeção aponta com 14 cadeiras estaduais. O outro está num partido que, segundo a mesma projeção, não elege ninguém.
O primeiro se elege. O segundo, não. E a diferença não esteve em nada que qualquer um dos dois tenha feito ou deixado de fazer na campanha. Esteve numa decisão tomada em abril, quando cada um escolheu em que partido se filiar.
É por isso que esta coluna insiste, desde o primeiro artigo, que a escolha do partido é metade da eleição. E que o eleitor precisa olhar para ela antes de decidir o voto.
Uma ressalva necessária sobre pesquisa espontânea
Seria irresponsável apresentar esses números sem explicar uma limitação importante da metodologia.
Pesquisa espontânea mede reconhecimento de memória. O entrevistado é perguntado em quem votaria e responde sem consultar lista. Esse formato favorece candidatos com visibilidade ampla — ministros, nomes de mídia, políticos de capital — e penaliza quem tem votação concentrada em um território específico, por mais forte que seja ali.
Um candidato que faz 50 mil votos numa cidade do interior pode não aparecer numa pesquisa estadual espontânea, porque quem mora em Belém, Marabá ou Parauapebas simplesmente não o conhece. Isso não significa que ele não tenha votos. Significa que os votos dele estão concentrados onde a amostra é menor.
E urna não funciona como pesquisa espontânea. Na urna, o eleitor digita um número que levou anotado, que recebeu de alguém, que viu num material de campanha. Não precisa lembrar de memória.
Por isso a projeção deve ser lida como o que ela é: uma fotografia do momento, útil para entender a lógica do sistema, e não como previsão do resultado.
O que isso significa para o Oeste do Pará
Para nossa região, a leitura tem duas camadas.
A primeira é sobre distribuição. Se a projeção se confirmar, MDB e Podemos ficam com mais da metade da bancada federal paraense. São partidos com base predominante na região metropolitana de Belém e no sudeste do estado. Quanto mais concentrada a representação nesses territórios, menor o peso relativo do Oeste nas decisões que vêm depois.
A segunda é sobre a nossa própria escolha. Santarém tem hoje cinco nomes competitivos disputando o estadual e outros tantos no federal, distribuídos por partidos diferentes. Alguns desses partidos aparecem na projeção com muitas vagas. Outros, com nenhuma.
O eleitor que quiser que seu voto se converta em representação precisa considerar as duas coisas: o candidato e o bloco. Votar bem no candidato e mal no bloco produz o mesmo resultado prático de não votar.
Como usar essa informação até 4 de outubro
Faltam duas semanas. Três verificações ajudam a decidir com mais segurança.
Primeira: quantas vagas o partido do meu candidato elegeu em 2022? É informação pública, disponível no site do Tribunal Superior Eleitoral. Partido que elegeu muitos tende a eleger de novo; partido que não elegeu ninguém dificilmente muda de patamar em quatro anos.
Segunda: quantos candidatos competitivos esse partido tem? Chapa com muitos nomes fortes divide votos internamente, mas eleva o quociente coletivo. Chapa com poucos nomes fortes pode não atingir o quociente. Os dois extremos têm riscos diferentes.
Terceira: meu candidato está entre os primeiros do partido dele? Porque as vagas conquistadas pela legenda são ocupadas pelos mais votados dentro dela. Não adianta o partido eleger seis se o meu candidato for o décimo.
Essas três perguntas não dizem em quem votar. Dizem se o voto vai virar representação ou não. E, a esta altura da campanha, essa é a informação mais útil que posso oferecer.
Política é gestão. E gestão de voto, no sistema proporcional, começa por entender que candidato e partido são duas escolhas — feitas ao mesmo tempo, com um único clique na urna.
Na quarta-feira, a coluna analisa a reta final da disputa no Oeste do Pará.
Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará. Escreve aos domingos e quartas no Jornal O Impacto.
O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.
O Impacto



Sem nomes fortes e competitivos ou uma legenda forte , dificilmente um candidato pode se eleger, principalmente os do Oeste do Pará, pois aí mesmo que o eleitor procure votar em seu candidato pode eleger um candidato que ele nem conheça!