QUEM REALMENTE INVESTIU EM SANTARÉM? O RAIO-X DAS EMENDAS PARLAMENTARES

Por Fábio Maia

Você sabe a importância de ter um deputado federal da sua cidade? A resposta mais concreta não está em discurso de campanha. Está nos registros oficiais do Portal da Transparência.

Faltam onze dias para a eleição. Esta coluna dedica a edição de hoje a mostrar, com dados públicos e verificáveis, quem destinou recursos federais para Santarém — e quem não destinou.

Primeiro, como funciona

Todo deputado federal dispõe de um valor anual para indicar onde o dinheiro federal será aplicado. É a emenda individual, e ela é impositiva: o governo é obrigado a executá-la.

O valor tem teto em lei. Em 2024, cada deputado federal dispôs de R$ 37.871.585 — quantia que se distribui entre todos os municípios que ele escolhe atender, não para um só. É por isso que a escolha do destino importa tanto quanto o volume.

As emendas parlamentares empenhadas para o Pará somaram R$ 1,523 bilhão em 2024, contra R$ 1,162 bilhão em 2023 — crescimento de 31%, segundo o Portal da Transparência. O estado ficou em quarto lugar nacional entre os maiores beneficiados.

O ranking de Santarém — quem colocou dinheiro aqui

Olhar o volume total que cada deputado movimenta no Pará pode criar uma falsa impressão. Há parlamentares com mais de R$ 130 milhões empenhados no estado, mas que pulverizaram esses recursos em outras regiões.

Quando filtramos a base de dados pública certificada (2023 a setembro de 2026) para identificar apenas os repasses direcionados exclusivamente ao município de Santarém, a hierarquia da bancada paraense traz um diagnóstico revelador:

PosiçãoDeputado FederalValor Destinado a Santarém (2023–2026)
1ºHenderson PintoR$ 27,30 milhões
2ºAirton FaleiroR$ 4,85 milhões
3ºJosé PrianteR$ 3,50 milhões
4ºJúnior FerrariR$ 1,80 milhão
5ºRenilce NicodemosR$ 1,00 milhão
6º ao 17ºDra. Alessandra Haber, Olival Marques e demaisR$ 0,00 / Sem repasses diretos

Repare: dos 17 deputados federais do Pará, a grande maioria simplesmente não destinou recursos diretos para a nossa cidade ou registrou apenas valores pontuais no período.

O caso que mais chama atenção

Dois casos merecem registro especial, porque escancaram o outro lado da equação:

  • Alessandra Haber: Deputada federal mais votada do estado e segunda mulher mais votada em Santarém em 2022, empenhou R$ 122,9 milhões no seu primeiro mandato. No entanto, concentrou quase R$ 60 milhões para Ananindeua e não enviou um centavo sequer de emenda individual ou PIX para Santarém entre 2023 e 2026.
  • Olival Marques: Distribuiu R$ 149,7 milhões em emendas no Pará. Mas Santarém, que é o seu terceiro maior reduto eleitoral, também ficou inteiramente de fora da lista de municípios beneficiados.

É a demonstração mais clara do argumento desta coluna: receber votos de um município e destinar recursos para ele são decisões independentes. Um candidato pode fazer votação expressiva aqui e nunca converter isso em investimento.

Para onde foi o dinheiro que chegou

Vale detalhar o que os registros mostram sobre as emendas efetivamente direcionadas a Santarém, porque o destino final também é informação pública.

Na área de saúde, uma emenda de 2025 para assistência hospitalar distribuiu R$ 12 milhões entre fundos de saúde de onze municípios. Santarém recebeu a maior parte: R$ 3,8 milhões. Em 2026, outra emenda hospitalar de R$ 13,126 milhões foi dividida entre onze fundos municipais, e novamente Santarém teve a maior indicação: R$ 4,026 milhões.

Nas transferências especiais, as chamadas “emendas PIX”, os planos registrados no Transferegov mostram destinações como uma UBS Porte I em Santarém-Miri, com cerca de R$ 2,09 milhões; uma feira coberta no Mercadão 2000, com R$ 1,99 milhão; além de recursos para o trapiche em Arapixuna, apoio ao Festival Folclórico, Sairé e atividades agropecuárias.

Uma ressalva metodológica necessária

Levantamentos de emendas exigem cuidado, e é justo registrar as limitações.

Primeira: valor empenhado não é valor pago. Empenho é compromisso; pagamento é transferência efetiva. No caso de Henderson Pinto, dos R$ 119,28 milhões empenhados no total geral, R$ 105,16 milhões aparecem como pagos.

Segunda: as bases oficiais nem sempre permitem rastrear cada centavo. As emendas PIX, por exemplo, vão direto ao caixa do município, o que exige acompanhamento pelos sistemas de planos de trabalho.

Terceira: os recortes temporais variam entre levantamentos. O levantamento específico de repasses locais cobre a base certificada entre 2023 e setembro de 2026.

Por isso os números devem ser lidos como ordem de grandeza documentada, não como contabilidade exata ao centavo.

O que fazer com essa informação

Os dados estão publicados e qualquer pessoa pode conferi-los. O Portal da Transparência tem uma consulta específica de emendas parlamentares, com filtro por parlamentar e por município. É gratuita e não exige cadastro.

Mas o ponto desta coluna não é pedir que você pesquise. É mostrar o que a pesquisa revela.

E o que ela revela é simples: entre 2023 e 2026, Santarém concentrou R$ 27,3 milhões das emendas de um único parlamentar — o seu maior destino. E há quem tenha feito votação expressiva aqui, movimentado quase R$ 150 milhões em emendas no Pará, e não tenha destinado recurso algum ao município.

No domingo, a eleição. Antes dela, vale lembrar que voto é escolha — e que escolha informada produz representação. Escolha desinformada produz estatística.

No próximo domingo, a coluna traz o balanço da reta final no Oeste do Pará.

Fábio Maia é consultor político, com atuação no Oeste do Pará.

Escreve aos domingos e quartas no Jornal O Impacto.

Fontes: Portal da Transparência do Governo Federal, Transferegov, levantamentos do portal Ver-o-Fato e reportagem do jornalista Jeso Carneiro.


O conteúdo deste artigo é de inteira responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do jornal ou de sua direção.


O Impacto

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