ALÉM DA COMIDA: OFICINA EM ALDEIA DE SANTARÉM APROXIMA ESTUDANTES DE SABERES ANCESTRAIS
Atividade do projeto Ubuntu Raiz na Aldeia Atodi, no rio Arapiuns, reuniu crianças e adolescentes em uma experiência de culinária afro-indígena, memória e transmissão de conhecimentos entre gerações
Para os estudantes da Aldeia Atodi, no rio Arapiuns, em Santarém, no oeste do Pará, uma oficina de culinária foi também uma experiência de contato com a própria história e ancestralidade. Alunos do 4º ao 9º ano da Escola Municipal Indígena Nossa Senhora das Graças participaram de uma atividade do projeto Ubuntu Raiz, que reuniu jovens, mulheres, moradores e organizações comunitárias em torno de receitas, ingredientes e saberes transmitidos entre gerações.
Mais do que ensinar o preparo de alimentos, a proposta foi aproximar crianças e adolescentes dos conhecimentos que fazem parte da identidade cultural da comunidade. A oficina trabalhou a culinária afro-indígena como uma forma de preservar memórias e valorizar práticas construídas ao longo do tempo.
Ao todo, 28 pessoas assinaram a lista de presença, mas a equipe estima que quase 40 participantes tenham acompanhado a atividade. Entre os estudantes estavam alunos do Ensino Fundamental, do 4º ao 9º ano, dos turnos da manhã e da tarde.
Os estudantes foram divididos em grupos de aproximadamente dez pessoas, junto com mulheres e homens da comunidade. Eles participaram dos preparos, das receitas e das conversas realizadas durante a oficina.
“Foi como se eu estivesse realmente dando aula a todas aquelas pessoas e principalmente aos alunos, interagindo com eles, fazendo com que eles participassem. Eles participaram mesmo de tudo, das receitas, do preparo, da conversa”, conta Natalina Cardoso, idealizadora do Ubuntu Raiz e responsável pelas oficinas.
Para o projeto, o alimento não é apenas aquilo que chega à mesa. Ingredientes, técnicas de preparo e formas de utilização do que é produzido no território também carregam conhecimentos, histórias e referências culturais.
Uma aula diferente para reconectar com os alimentos
A atividade também contou com a participação de professores e colocou os estudantes no centro da experiência. Para Rondielson Castro, professor de Notório Saber, a oficina representa uma maneira diferente de ensinar e, ao mesmo tempo, fortalecer a cultura alimentar da aldeia.
“Essa oficina vem valorizar a nossa cultura alimentar ancestral que existe dentro da aldeia. É uma aula diferente, que traz uma reconexão com o alimento e também uma reflexão para que os produtos industrializados não tomem conta da nossa alimentação.”
Segundo o professor, a farinha de mandioca teve historicamente um papel importante na economia da comunidade e representa um conhecimento que precisa continuar sendo valorizado.
“A farinha era uma base de renda para a comunidade. E eu espero que isso volte, que a gente possa fortalecer novamente essa produção e fazer com que os nossos produtos, aquilo que é produzido aqui, tenha cada vez mais valor.”
Para os alunos, a experiência também foi marcada pela descoberta de sabores e preparos feitos com ingredientes encontrados no próprio território.
Laís Arapiun, de 10 anos, mora na Aldeia Atodi e participou da oficina. Para ela, aprender a preparar os alimentos tornou a atividade ainda mais especial.
“Eu gostei de aprender a fazer os bolinhos com os ingredientes da terra. Eu amei o doce de manga e o bolinho de macaxeira com os temperos. Eu amei muito tudo, saudável e gostoso, e amei mais o peixe.”
A participação dos estudantes reforça uma das propostas centrais do Ubuntu Raiz: promover o intercâmbio de conhecimentos sobre a cultura alimentar e contribuir para que práticas e saberes transmitidos entre gerações continuem presentes no cotidiano das comunidades.
Para Natalina, esse contato permite que os jovens compreendam que os alimentos também carregam histórias e conhecimentos ancestrais.
“A gente não quer que eles enxerguem a comida apenas como comida. Por trás de cada ingrediente, de cada receita e de cada forma de preparo, existe uma história, existe uma memória e existe a ancestralidade de um povo.”
Mulheres e comunidade na organização
A participação dos estudantes aconteceu a partir de uma mobilização da própria comunidade. A Escola Municipal Indígena Nossa Senhora das Graças se articulou com as associações locais para integrar os alunos à programação.
Também participaram da organização representantes da associação de mulheres e da associação de artesanato. A mobilização evidenciou o papel das organizações comunitárias na construção da atividade e, especialmente, a atuação das mulheres na articulação da aldeia.
A equipe esteve na comunidade um dia antes da oficina para conhecer o local, conversar com os moradores e fazer o convite para a programação. A recepção, segundo Natalina, foi um dos aspectos que mais chamou atenção durante a passagem pela aldeia.
A atividade também foi marcada por momentos de celebração e identidade cultural. A equipe foi recebida pela comunidade com um ritual indígena, cantado em português e também na língua Angatu. Ao final da oficina, a despedida aconteceu com outro ritual, acompanhado pela dança da comida, uma manifestação tradicional realizada pela comunidade.
Atodi foi a última aldeia visitada pelo Ubuntu Raiz no rio Arapiuns. Para a equipe, a atividade encerrou essa etapa do projeto reunindo escola, famílias, mulheres, organizações comunitárias e estudantes em torno da alimentação como espaço de transmissão de conhecimento.
A experiência evidencia a importância de aproximar crianças e adolescentes dos saberes alimentares de seus territórios, permitindo que reconheçam nesses conhecimentos elementos da própria história e identidade cultural.
O projeto Ubuntu Raiz: comida ancestral e tradição na Amazônia é realizado por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), com recursos do Ministério da Cultura, operacionalizados pela Secretaria de Estado de Cultura e da Fundação Cultural do Estado do Pará.
O Impacto


