FÉ, VOTO E DISCERNIMENTO
Por Luís Alberto Mota Figueira, Advogado
Há momentos em que a fé precisa sair do silêncio da oração e encontrar expressão nas escolhas que fazemos.
O voto é uma dessas escolhas.
Para quem crê em Deus, votar não deveria ser apenas apertar uma tecla na urna. É também um ato de responsabilidade com o próximo, especialmente com aqueles que mais precisam de justiça, proteção, dignidade e oportunidades.
A Bíblia nos ensina:
“Aprendei a fazer o bem; procurai a justiça, socorrei o oprimido.”
(Isaías 1,17)
Essa passagem deveria ecoar em nossa consciência quando escolhemos aqueles que exercerão funções públicas.
É preciso lembrar dos pobres.
Dos desempregados.
Dos que sofrem nas filas dos hospitais.
Das crianças que precisam de educação.
Dos idosos que necessitam de cuidado.
Dos que têm fome.
Dos que vivem esquecidos.
Dos que não possuem voz, influência ou poder.
Jesus foi muito claro quando disse:
“Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes.”
(Mateus 25,40)
Essa talvez seja uma das passagens mais profundas para orientar a consciência de quem professa a fé cristã.
Quando ajudamos quem sofre, estamos servindo ao próprio Cristo. Quando ignoramos a dor do próximo, também precisamos refletir sobre a coerência da nossa fé.
Por isso, o voto não deve nascer apenas da amizade, do interesse pessoal, da conveniência, da paixão política ou da promessa de alguma vantagem.
O voto deve nascer também da consciência.
Talvez uma das perguntas que cada cristão possa fazer a si mesmo seja:
O que as propostas e as atitudes daqueles que pedem a minha confiança representam para quem mais precisa?
Porque a Palavra de Deus nos ensina:
“Abre a tua boca em favor do mudo, pelo direito de todos os desamparados.”
(Provérbios 31,8)
Votar com fé é também lembrar daqueles que quase nunca conseguem ser ouvidos.
É pensar na mãe que precisa de atendimento para o filho.
No trabalhador que busca emprego.
Na família que luta por moradia digna.
No agricultor que precisa produzir.
No jovem que sonha com uma oportunidade.
Na pessoa com deficiência que exige respeito e acessibilidade.
No idoso que merece dignidade.
No cidadão que espera justiça.
O Evangelho resume tudo em um dos maiores mandamentos:
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
(Mateus 22,39)
Amar o próximo também significa pensar nele quando fazemos escolhas capazes de repercutir sobre toda a sociedade.
Mas existe outro aspecto que merece profunda reflexão: o uso da própria fé como instrumento de poder.
A Bíblia faz advertências severas contra os falsos profetas:
“Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores.”
(Mateus 7,15)
Essa advertência permanece atual como ensinamento de discernimento.
Nem todo aquele que pronuncia o nome de Deus necessariamente pratica aquilo que prega.
Nem todo aquele que cita a Bíblia demonstra, por seus atos, compromisso com a verdade, com a justiça e com o próximo.
Nem toda manifestação pública de religiosidade é prova de compromisso com os valores do Evangelho.
Por isso, a fé exige discernimento.
É importante que cada eleitor observe os atos, a trajetória, as propostas e a conduta daqueles que pretendem representá-lo.
Jesus nos deixou um critério simples e profundo:
“Pelos seus frutos os conhecereis.”
(Mateus 7,16)
São os frutos que devem merecer nossa atenção.
A verdade ou a mentira.
A justiça ou a injustiça.
A humildade ou a arrogância.
O serviço ou o interesse pessoal.
O respeito ao próximo ou a utilização das pessoas como instrumento de poder.
Também precisamos ter cuidado para que a boa-fé dos fiéis jamais seja explorada.
A fé é sagrada demais para ser transformada em mercadoria eleitoral.
Jesus demonstrou profunda indignação diante daqueles que transformaram o templo em lugar de interesses materiais:
“Minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de ladrões.”
(Mateus 21,13)
É a conhecida passagem dos vendilhões do templo.
A mensagem continua poderosa: o sagrado não deve ser comercializado.
A religião não deveria ser utilizada para negociar consciências.
A fé não deveria ser instrumento de medo, mentira ou manipulação.
O púlpito não deveria servir para retirar do cidadão a liberdade de refletir e decidir.
Quem crê deve preservar também a própria liberdade de consciência.
Nenhum líder religioso é proprietário do voto de seus fiéis.
Nenhum candidato é proprietário de Deus.
Nenhum partido possui exclusividade sobre a fé.
E ninguém deveria utilizar o nome de Deus como atalho para conquistar a confiança das pessoas sem permitir que suas obras, sua história e sua conduta sejam examinadas.
O apóstolo Tiago nos lembra:
“A fé, se não tiver obras, está morta em si mesma.”
(Tiago 2,17)
Isso vale também para aqueles que fazem da fé parte de seu discurso público.
Palavras são importantes.
Mas obras revelam muito mais.
Não basta falar em Deus.
É preciso respeitar o próximo.
Não basta carregar a Bíblia.
É preciso praticar a justiça.
Não basta pronunciar o nome de Cristo.
É preciso lembrar como Cristo tratava os pobres, os doentes, os marginalizados, os desprezados e os que não tinham poder.
E, principalmente, é preciso desconfiar da mentira, venha ela de onde vier.
A mentira nunca se transforma em verdade simplesmente porque foi pronunciada diante de uma multidão.
A manipulação não se transforma em fé porque utiliza linguagem religiosa.
E a exploração da boa-fé das pessoas não se torna legítima porque é praticada em nome de Deus.
O cristão não precisa entregar sua consciência a ninguém.
Pode ouvir.
Pode refletir.
Pode discordar.
Pode questionar.
E deve decidir livremente.
O profeta Miqueias deixou uma orientação que atravessa os séculos:
“Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus.”
(Miqueias 6,8)
Talvez esteja aí uma grande orientação para a vida pública.
Praticar a justiça.
Amar a misericórdia.
Caminhar com humildade.
Por isso, antes de votar, cada um pode olhar para sua própria consciência e perguntar:
Estou escolhendo livremente ou estou sendo conduzido pelo medo, pela mentira ou pela manipulação?
As palavras que estou ouvindo correspondem aos frutos que consigo enxergar?
Minha escolha considera os pobres, os necessitados, os oprimidos e aqueles que mais dependem das decisões do poder público?
Estou pensando apenas em mim ou também no meu próximo?
A minha fé está iluminando minha consciência ou alguém está tentando usar minha fé para decidir por mim?
O voto dura poucos segundos.
Mas suas consequências podem alcançar hospitais, escolas, famílias, comunidades e gerações inteiras.
Por isso, antes de votar, pense.
Reflita.
Ore, se essa for a sua fé.
Examine os frutos.
Questione as palavras.
Não entregue sua consciência a ninguém.
E lembre-se daqueles que talvez nunca tenham oportunidade de falar diretamente com quem exerce o poder.
Porque talvez uma das perguntas mais profundas que a fé nos faça diante da urna não seja apenas:
“Em quem estou votando?”
Mas também:
“Por quem estou pensando quando voto — e quais frutos estou ajudando a produzir?”
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O Impacto



Exatamente. É por isso que eu sempre votei e vou continuar a votar em quem seja no legislativo ou executivo, municipal, estadual ou federal, sempre esteve, está ou pretende estar ao lado da classe trabalhadora e dos menos favorecidos.