A vida pelos números

Por Ormano Queiroz de Sousa

Enfermaria 04, quatro ou cinco pacientes, variando o fluxo de acordo com o trânsito de cada dia. Uns “sobem” outros entram. Subir não é eufemismo. É subir para o pavimento superior para os procedimentos de cirurgia. No hospital, por questões práticas no uso do prontuário, os pacientes recebem números. Na Enfermaria 04 estão quatro ou cinco pacientes. Há o 09, o 10, o 11, o 12 e o 46. Não, não sei o porquê da quebra da sequência numérica.

Em cada enfermaria, além dos números, de acordo com o espírito dos pacientes, o clima pode ser sisudo e mais soturno, ou mais extrovertido.

Não é raro ouvir-se da enfermaria ao lado algum vozerio e um espocar de gargalhadas. Ajuda a quebrar a tensão e até o medo de uma cirurgia de peito aberto.

O hospital é especializado em cirurgias cardíacas. Então, imagine a situação dos pacientes quanto a uma iminente operação. Iminente ou não, porque, mesmo dentro do hospital para esse fim, a cirurgia pode esperar 20 dias, 30, 45 dias… Ou ser operado de imediato em virtude de uma situação de extrema urgência. Então, os pacientes podem viver uma pilha de nervos. Ou manter a parcimônia. Ser pacientes pacientes. Estou neste grupo.

No clima de descontração, que nem sempre envolve no mesmo espírito todos os que estão ali internados, cada um ganha, além do número, uma patente de hierarquia. Na Enfermaria 04 há o coronel – não apenas por ter mais idade, mas também por estar há mais tempo no local. Sua angústia é um misto de inconformismo com bom senso de humor. É o mais gaiato do grupo, a princípio quatro pacientes, com seus respectivos acompanhantes, uma regra do hospital: manter sempre um acompanhante permanentemente com cada um dos hospitalizados. Há o capitão, o sargento… e assim por diante, de acordo com a ordem de chegada e idade. O mais novo é o soldado.

E os números continuam sendo a referência, sobretudo para as enfermeiras. “Aqui está o zero-quatro. Hora de ver a PA”. “Do leito 12, cadê o seu CAT?”… Essas nomenclaturas são uma nova linguagem pra mim, sobretudo porque me tornei cardíaco há pouco tempo. Não é motivo de honra, claro, mas muita coisa passou a ser nova em minha vida. Não sou gordo, mas estava um pouco acima do peso para o padrão que deveria ser, conforme o cálculo a partir da altura. Foi assim que fui iniciado à linguagem hospitalar. P.A. é aferir a pressão arterial; CAT é uma forma reduzida de cateterismo, o procedimento que fornece imagem mais precisa de localização e grau de gravidade do problema cardíaco, notadamente das obstruções arteriais coronárias.

Os números nos perseguem desde a nascença. Quando o pequerrucho nasce ganha logo um número. Oh felicidade! “Foi bem sucedido o parto da paciente 39. Agora temos o RN 09234117!”. “E onde está? – Está no leito 53”. Lá estão os números. E se você não sabe o que é “RN”, explico: recém nascido.

Há pais que não querem ter problemas futuros e – agora pode – decidem logo por um RG ao sujeitinho que ainda não sabe nem se está no mundo. RG? Esse você sabe – Registro Geral – correspondente à sua carteira de  identidade. Podem ainda registrar logo no CPF – esse é manjado – Cadastro de Pessoa Física. Toda pessoa deve carregar consigo 11 números na testa. É sua existência. Por isso que “cancelar o CPF” é um eufemismo para afirmar que alguém morreu.

Para os jovens que prestam o serviço militar, novos números são  acrescidos à sua vida e identidade no quartel. Cada soldado recebe um número, tal qual nos leitos hospitalares. E regra da caserna é responder de
imediato ao chamado pelo número: “610, pegue o carregador do fuzil no paiol!”; “530, porque seus coturnos
estão sujos, estava na pocilga?; “715, seu cagalhão, é olhar à direita, não à esquerda!”; “587, acerta o passo!”…

Outro dia, na fila do banco, olhando para a senha de atendimento 033, agora já na condição de “atendimento prioritário”, ouvi por detrás de mim, quase ao meu ouvido: “soldado 618”. Foi incontinenti meu atendimento.

Era um velho irmão de farda, mais de 40 anos depois do serviço militar. Um reencontro saudosista das façanhas dentro da caserna.

Tenho meus temores se daqui a algum tempo eu ouvir alguém gritar na rua: “Olha lá o 11! Eu poderei olhar quase que mecanicamente e muito provavelmente acertarei: “É o 46, do hospital”.

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