Ana Júlia Carepa sai em defesa de mineradora

Presidente Lula, Ana Júlia e Roger Agnelli na solenidade da Alpa (Foto: David Alves/ Agência Pará)

A ex-governadora Ana Júlia Carepa (PT) se negou ontem (9), em contato com a reportagem do DIÁRIO, a endossar as críticas feitas à Vale e, em especial, ao presidente da mineradora, Roger Agnelli, em matéria publicada no jornal Valor Econômico.

Gerada pela sucursal de Brasília e assinada pela sua chefe de redação, Rosângela Bittar, a matéria diz que eram “difíceis” as relações do governo Lula com Roger Agnelli, garante que as dificuldades permanecem no governo Dilma Rousseff e prevê, como “desenlace possível, a qualquer momento”, a troca de comando na empresa.

Sem identificar os informantes, o jornal carioca cita como fontes um ministro do atual governo e um dirigente de fundo de pensão sócio da Vale. O ministro, segundo a matéria do Valor Econômico, teria dito até que o mercado já “precificou” a saída de Agnelli da presidência da Vale. Já ao dirigente do fundo de pensão é atribuído o entendimento de que ele considera “certa e iminente a troca de comando” na mineradora, e de que essa mudança “ocorreria sem maiores traumas ou reações”.

O jornal afirma que a discussão se dava antes, no governo Lula, e continua se dando agora, no governo Dilma, em torno do papel estratégico da Vale. “O ex-presidente (Lula) tinha uma certeza, segundo seus intérpretes, de que a Vale deveria participar do esforço para impulsionar a economia brasileira degraus acima”, diz a matéria. E acrescenta: “Poderia, por exemplo, com grande adequação, fazer usinas siderúrgicas no país, em vez de apenas produzir minério de ferro”.

AVALIAÇÃO

Essa avaliação, “creem as autoridades”, é consensual, segundo afirma o Valor Econômico, com os governadores, de antes e de agora, do Pará. “A ex-governadora Ana Júlia Carepa e o atual governador Simão Jatene, segundo análises feitas no âmbito do governo federal, avaliam do mesmo modo a ação da empresa e a conclusão não é favorável. Ambos têm reclamações fortíssimas, acham que a Vale é apenas produtora de buracos”, afirma o jornal, acrescentando, em tom concessivo: “o que, nessas considerações ouvidas em palácios, é até às vezes considerada uma conclusão injusta. ‘Hoje a Vale até fecha o buraco e faz recuperação ambiental’, comenta um dos críticos”.

Para a ex-governadora Ana Júlia, a crítica à Vale, que lhe é atribuída no corpo da matéria veiculada pelo jornal até faria sentido e poderia ser considerada procedente se feita cinco anos atrás. Não agora, porém, depois de haver ela, como governadora do Estado, conseguido, em negociações com a direção da empresa, a implantação no Pará de uma grande siderúrgica, a Aços Laminados no Pará (Alpa), já em fase de construção no município de Marabá. “Esta foi uma conquista histórica obtida pelo meu governo, mas uma conquista que é do povo paraense”.

MATÉRIA-PRIMA

A ex-governadora destacou ter sido, ao longo de sua vida pública, uma crítica impiedosa de todas as empresas que se limitavam a exportar como matérias-primas as riquezas naturais produzidas no Pará. “Isso é público, até porque fiz muitos discursos sobre o assunto da tribuna do Senado. Na época eu critiquei, sim, também a Vale, mas não só a Vale”, disse, lembrando da luta que travou para trazer para o Estado do Pará uma indústria siderúrgica. “E foi uma luta afinal vitoriosa”, enfatizou.

Hoje, segundo ela, não há razão para reclamar, visto que a Vale atendeu finalmente as expectativas e os anseios do povo paraense. “O que nós queríamos era que o Pará deixasse de exportar suas riquezas em estado bruto, para serem industrializadas lá fora. Isso nós conseguimos. E a partir do momento em que a Vale vem ao encontro das nossas aspirações e decide construir aqui uma grande planta industrial para a produção de aço, eu acho que as críticas perdem sentido. Nós temos é que marchar juntos em defesa dos nossos interesses”.

Jatene não endossa críticas

Que ninguém espere do governador do Pará, Simão Jatene, um posicionamento público, contra ou a favor da Vale e de Roger Agnelli, em meio às articulações que estariam em curso por áreas sensíveis do governo federal, segundo o Valor Econômico, para mudar o comando da empresa. Adotando em relação ao tema uma postura de equidistância, o governador se negou a endossar as críticas feitas à mineradora sob a direção atual, mas também não emitiu em relação a ela uma única palavra de apoio. “Prefiro não discutir a questão sob uma ótica de uma empresa em particular, seja ela a Vale ou qualquer outra”, afirmou, acrescentando que sua discussão a respeito do assunto sempre foi de outra natureza.

Ele considera que é preciso reavaliar, primeiro, o modelo que o país adotou no campo tributário, de desonerar as exportações sem oferecer a necessária compensação aos Estados. “Essa é a primeira questão, e ela é muito séria”, declarou, ressaltando que o problema não está relacionado apenas às empresas de mineração. “Eu acho que a questão da desoneração das exportações é uma das maiores violências já praticadas até hoje no Brasil contra o sistema federativo”.

E por que a desoneração representa uma violência? Para Jatene, isso fica claro quando se observa que os Estados contribuem para o equilíbrio das contas nacionais e acabam sendo penalizados por isso. O governador lembra ter dito sempre que, a persistir esse modelo, a melhor alternativa, para qualquer Estado, seria passar a importar tudo do resto do mundo porque, sobre as importações, ele pode cobrar imposto.

EXPORTAÇÃO

Ao mesmo tempo, para Jatene, o Estado deveria vender tudo no comércio interno, trabalhando com volume zero de exportação. “Com isso, ele conseguiria ter um melhor resultado nas suas contas”, afirmou, para em seguida expor o absurdo da situação. Ocorre, disse ele, que se todos os Estados colocassem em prática essa política – importação de tudo e nada de exportação –, o resultado seria a quebra financeira do país. “Eu não consigo entender como, diante desse quadro, o Brasil ainda não se dispôs a rever essa questão”.

Paralelamente ao componente tributário embutido na questão da desoneração das exportações, Jatene aponta ainda para outro elemento, que considera também importante, e cuja discussão deve ser travada especificamente, aí sim, no campo da mineração. “E também este assunto não é uma coisa particular da Vale”. No seu ponto de vista, a atividade minerária, quando desenvolvida sem a preocupação de internalizar seus efeitos, acaba sempre gerando passivos para o Estado e a sociedade.

Ilustrando o seu raciocínio, Jatene alerta que esta não é uma característica que deva ser atribuída especificamente à mineração. “É algo inerente aos grandes projetos, sejam eles de mineração ou de qualquer outra atividade econômica. É sabido que os grandes projetos trazem, primeiro, as grandes mazelas, para depois trazer algum tipo de resultado”. Destacou que seu ponto de vista sobre o assunto abraça uma formulação conceitual, não devendo ser confundido com visão específica de sua parte em relação a empresas A, B ou C. “Eu sempre procurei deixar claro que não tenho nenhuma questão pessoal em relação a qualquer empresa. Eu tenho, sim, uma questão única, que é a defesa dos interesses do Estado do Pará”.

Diário do Pará

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