Pesquisador alerta sobre consumo de água mineral em Santarém

Professor e pesquisador Reinaldo Peleja
Professor e pesquisador Reinaldo Peleja

Graduado em Ciências Biológicas pela UFPA, mestrado e doutorado em Biologia de Água Doce e Pesca Interior, pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – (INPA), Jose Reinaldo Pacheco Peleja é professor Adjunto da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). O pesquisador recebeu nossa equipe de reportagem, e em entrevista exclusiva fez um importante alerta à população.

De acordo com Reinaldo, a população se utiliza de forma indiscriminada das águas tidas como minerais, quando na verdade deveriam observar com atenção a predominâncias de algumas características.

“A água mineral tem uma finalidade diferente da água potável de mesa. Toda água mineral vai ter uma concentração de um elemento químico/mineral numa concentração destacada. Então, o conceito de água mineral diz que, toda água mineral tem um fim medicamentoso. Certamente, ao escolher uma água mineral para consumo humano, observar se ela é mais enriquecida em enxofre, em nitrato, em sódio, em flúor, faz a diferença. Neste sentido, o consumo de água mineral deveria ser acompanhado por uma orientação médica”, explica o professor e pesquisador.

“A pessoa tem que consumir água mineral para buscar o elemento que tem mais concentração em determinada marca. Por exemplo, pessoas que tem problemas nefrológicos, devem evitar ou utilizar água mineral com bastante cuidado, e somente com orientação do médico, pois ela é rica em sais, então, quem tem problemas de retenção de sais, tem que evitar as águas minerais. Quem tem carência de um determinado sal, tem que estudar o rótulo das águas minerais e ver se aquela concentração por litro de água atende a prescrição médica”, orienta Reinaldo Peleja.

Em Santarém, segundo o pesquisador, existem pelo menos cinco fontes de onde são extraídas as águas à disposição dos consumidores santarenos.

“As águas minerais disponíveis em Santarém são reconhecidas pelo Ministério de Minas e Energia, com está finalidade pela Companhia de Pesquisa Mineral. Então, o empreendedor que se interessa em disparar uma fonte de água mineral, ele faz o requerimento junto a Companhia de Pesquisa Mineral. Uma vez dado o diagnóstico da Companhia, a água vai ser classificada como tal, e vai ao rótulo dela, vai vir indicado qual é o elemento medicamentoso que está em destaque naquela água. Aqui em Santarém, em média, temos cinco a seis fontes de água mineral, predomina aqui, a classificação floretada, todas são águas hipotermais, estão entre 25°C e 33°C de temperatura na fonte, e os elementos que predominam nas águas é o floreto. Culturalmente, as fontes disponíveis em nossa região são marcadas por problemas microbiológicos. O medo da população em estar consumindo uma água com problema microbiológico, faz com que elas recorram as águas minerais, que pelo fato delas serem reconhecidas como minerais e potável, com ausência de microrganismo, então, as pessoas acabam consumindo água mineral mais na intenção de se proteger de microrganismo, do que usufruir do componente químico que realmente ela oferece para fim medicamentoso. Então, há na verdade um uso indiscriminado de água mineral, para fugir de problemas gastro intestinais, em função de evitar estar consumindo uma água de má qualidade, contaminada por microrganismos”, conclui o especialista.

Valéria Mourão, bióloga da Ufopa
Valéria Mourão, bióloga da Ufopa

 

PARA DAR CONTINUIDADE EM PESQUISA, BIÓLOGA RECORRE A CAMPANHA DE FINANCIAMENTO: O cenário atual de contingência de recursos para educação tem consequências diversas, inclusive na questão do financiamento de pesquisas acadêmicas. Depois de concluir o doutorado, Valéria Mourão chegou a escrever um projeto de pós-doutorado com o objetivo de estudar as outras espécies de plantas e padronizar extratos antiofídicos, além de poder dar o tão esperado retorno para as comunidades. No entanto, com os recentes cortes do governo federal na área de educação, ela não conseguiu obter recursos financeiros para prosseguir com a pesquisa. “Foi aí que surgiu a idéia de escrever uma cartilha, onde fosse possível colocar todos os resultados do projeto de uma forma mais acessível para os moradores das comunidades”, ressalta Valéria.

Para tentar concretizar a ideia da cartilha, a bióloga resolveu contar com a ajuda de amigos e iniciou uma campanha de financiamento coletivo na Internet. “O valor arrecado nesta campanha vai permitir que o projeto continue por mais um ano. Vamos poder divulgar o restante dos resultados em revistas científicas e retornar às comunidades para ministrar palestras, além de produzir e distribuir as cartilhas. Sempre acreditei que um dia as informações repassadas pela população poderiam retornar para as comunidades de forma aplicada”, explica. Atualmente, o grupo do qual Valéria participa é o único dos estados do Pará e do Amazonas que pesquisa plantas antiofídicas. Os interessados em contribuir para a continuidade da pesquisa podem acessar a página http://www.kickante.com.br/campanhas/plantas-da-amazonia-contra-o-veneno-de-jararaca.

A PESQUISA: A utilização de plantas com fins medicinais – para tratamento, cura e prevenção de doenças – é uma das mais antigas formas de prática medicinal da humanidade. Desde a pré-história, há relatos da estreita relação entre o homem e as plantas. A Amazônia possui inúmeras espécies vegetais dotadas de diferentes propriedades medicinais. Apesar de várias delas já possuírem sua identificação taxonômica, muitas nunca foram validadas conforme seu uso tradicional, pois são mencionadas somente através de seus nomes populares e, como esses nomes costumam variar de um local para outro, isso acaba dificultando o avanço dos estudos científicos acerca dessas espécies.

O saber tradicional de caboclos, índios, ribeirinhos e comunidades rurais da Amazônia sobre o poder de cura dessas plantas, cultivadas em quintais ou coletadas de forma predatória na natureza, é passado de geração em geração. Apesar do pouco respaldo encontrado na literatura científica, esse tipo de conhecimento ainda é amplamente utilizado pela população amazônida como alternativa ao difícil acesso aos centros hospitalares das grandes cidades e à obtenção de exames e medicamentos. Esses obstáculos fazem com que, muitas vezes, as plantas medicinais sejam a única forma de acesso aos cuidados básicos de saúde.

Com o objetivo de resgatar e preservar o conhecimento tradicional sobre uso de plantas em acidentes com serpentes na Amazônia, a bióloga Valéria Mourão iniciou sua pesquisa de mestrado em 2010 na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), sob a orientação da professora doutora Rosa Helena Mourão, do Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais da Amazônia (PPGRNA). A pesquisa faz parte do projeto “Plantas antiofídicas da Amazônia”, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O grupo decidiu investigar as plantas utilizadas em algumas comunidades na área do município de Santarém para tratar o envenenamento por cobras.

Em todo o mundo, os acidentes ofídicos afetam cerca de 420 mil pessoas por ano, chegando a 20 mil casos de morte. No Brasil, a maioria dos acidentes desse tipo notificados ao Ministério da Saúde ocorre na região Norte, sendo o Pará o estado com maior número de registros. Dentre os municípios paraenses, Santarém tem o maior número de notificações, com uma média de 300 acidentes por ano. Apesar do número expressivo de casos, Valéria verificou que ainda eram poucos os estudos científicos abordando acidentes com cobras na área de Santarém.

O tratamento preconizado pelo Ministério da Saúde para o envenenamento por serpentes é a aplicação de soro antiofídico. Na região Oeste do Pará, o atendimento médico costuma ser realizado no Hospital Municipal de Santarém. Mas esse tipo de acidente ocorre com maior frequência na zona rural e o deslocamento até a área urbana do município nem sempre é fácil ou rápido. “Muitas vezes os pacientes demoram até conseguir receber o tratamento específico. Isso pode levar ao aumento do número de complicações nos casos”, explica Valéria. É aí que entram as plantas medicinais, de fácil e rápida obtenção. “As plantas são usadas como coadjuvantes à soroterapia ou como medicamento alternativo aplicado na falta de recursos soroterápicos”, destaca.

Em seu projeto, Valéria testou o potencial antiofídico das plantas frente ao veneno de serpentes do gênero Bothrops (Bothrops atrox e Bothrops jararaca), popularmente conhecidas como “jararacas”. Esse gênero foi escolhido porque até 95% dos acidentes ofídicos na região de Santarém são atribuídos a Bothrops. O envenenamento por este tipo de cobra causa reações locais como edema, dor, hemorragia, necrose e mionecrose (um tipo grave de gangrena, com necrose do músculo). Dependendo da gravidade, o acidente pode levar também a reações sistêmicas, principalmente problemas de coagulação sanguínea e hemorragia mais severa.

Para definir quais plantas estudar, o grupo de pesquisa realizou um levantamento etnobotânico com moradores das comunidades de Cucurunã, São Pedro, Alter do Chão e na cidade de Santarém. Através de entrevistas, eles verificaram quais eram as espécies vegetais utilizadas nessas localidades para tratar casos de envenenamento por cobras. Das 24 espécies listadas, as 12 mais citadas foram testadas contra o veneno da Bothrops jararaca. Os resultados mostraram a eficácia dos extratos vegetais em bloquear, in vitro, a hemorragia induzida pelo veneno de serpente. Os testes in vitro são feitos fora de organismos vivos, em ambientes controlados. Em seguida, o grupo realizou ensaios in vivo, em que os extratos são testados em organismos vivos, como pequenos animais, a fim de validar o uso tradicional dessas espécies como antiofídicas.

“É importante comprovar ou não a eficácia das plantas e avaliar a toxicidade dos extratos. Temos que valorizar o conhecimento tradicional para que ele não se perca ao longo das gerações. Além disso, cabe ressaltar que, quando associado ao conhecimento tradicional, o estudo científico pode ser realizado em menos tempo, pois já partimos da forma de uso das plantas indicadas pela população”, avalia a orientadora de mestrado de Valéria, professora Rosa Helena.

Todas as 12 espécies testadas reduziram, em diferentes porcentagens, a atividade hemorrágica induzida pelo veneno, mas os chás preparados com extratos de cinco espécies (Bellucia dichotoma, Connarus favosus, Plathymenia reticulata, Aniba fragrans e Philodendron megalophyllum) se mostraram mais eficazes e inibiram 100% da atividade hemorrágica, utilizando o protocolo de pré-incubação. “Fiz um projeto muito grande no mestrado, pois acreditava que conseguiria, naquele curto espaço de tempo, dar um retorno da pesquisa para as comunidades. Como dois anos não foram suficientes, ingressei no doutorado em 2012 e resolvi focar meu trabalho em uma única espécie (Bellucia dichotoma), para fazer um estudo mais aprofundado”, enfatiza Valéria.

Durante o doutorado, realizado no Programa de Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Valéria pesquisou a espécie popularmente conhecida como muúba ou goiaba-de-anta. Em forma de chá, o extrato da casca da planta foi capaz de reduzir o edema significativamente a partir de 30 minutos após a ingestão. A inibição foi ainda maior quando o chá foi administrado junto com o soro antibotrópico. Este tipo de tratamento, combinado, se mostrou mais eficaz do que o feito somente com o antiveneno padrão. “Conseguimos mostrar que os extratos das plantas em forma de chás são bastante eficazes no combate aos efeitos locais do envenenamento, principalmente contra a atividade edematogênica. Mas a essência do projeto, que seria retornar a informação para as comunidades, ainda não foi atingida”, analisa Valéria.

De acordo com a professora Rosa Mourão, além de devolver para a população o conhecimento de forma melhorada, deve-se levar em consideração que, num futuro próximo, existe a possibilidade de desenvolver produtos para uso das comunidades ou de empresas locais. “Isso geraria renda e garantiria a eficácia das plantas medicinais, além de termos produtos seguros para a população, que poderiam ser prescritos por médicos. Esse é o tipo de inovação que proporciona o desenvolvimento da região, porque agrega valor aos produtos não madeireiros”, enfatiza.

Ainda segundo a docente, alguns alunos dos cursos de Farmácia e Biotecnologia da Ufopa estão complementando os estudos do projeto, com o objetivo de melhorar os preparos e garantir o controle de qualidade dos extratos vegetais. Além de avaliar a caracterização química e outras atividades biológicas, a equipe tem desenvolvido formulações, que deverão ser testadas primeiramente em animais. “Estamos elaborando um kit com um fitoextrator/percolador para o preparo de extratos em oficinas nas comunidades, como uma forma de fazer com que a população compreenda a importância do estudo científico aliado ao conhecimento popular”, avalia Mourão.

Por: Edmundo Baía Junior

Fonte: RG 15/O Impacto

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