Artigo – A pior das mentiras

Por Oswaldo Bezerra

Eram os anos 70. Eu desfrutava o pleno vigor da adolescência em uma sala de aula, em um colégio da Aeronáutica em Belém. Ao meu lado, um amigo que não era dos mais comportados, neste dia estava estranhamente quieto. Olhei pra ele que me confidenciou: “estou com uma dor terrível no fundo dos olhos”.

Após alguns minutos, ele pediu licença ao professor e saiu de sala. O sorriso de alguns era por achar que ele só queira ir mais cedo para casa. Lembro dele saindo pela porta, foi a última vez que o vi o Marcelo com vida. O próximo encontro entre a nossa turma e o Marcelo foi na Capela do Hospital da Aeronáutica, em seu velório. A causa da morte foi Meningite. Ele também foi vítima da terceira forma de mentira.

Benjamin Disraeli dizia que existem três tipos de mentiras. Seriam as pequenas mentiras, as mentiras deslavada e a Estatística. A última é a que mais tem influência sobre o homem. Basta ver o enorme sucesso das bolsas de valores dos últimos dias. E também o valor do dólar caindo bastante no Brasil. Tudo isso por uma euforia baseada em mentira.

Caso você leia algum jornal sobre o assunto, você lerá notícias de forma rebuscada explicando que o sucesso das bolsas foi devido à força do mercado. Poucas serão as literaturas que informarão que o mercado de ações está sendo falsamente animado por injeções gigantescas da Reserva Federal com recompra de ações .

O segundo argumento da euforia econômica é a diminuição do desemprego nos EUA de 14,7% para 13.3%. Muitos aceitaram o relatório de empregos, da sexta-feira passada, nos EUA como um sinal de que tudo vai melhorar em breve, mas acontece que o relatório não foi tão otimista como muitos pensavam. No relatório, é admitido que há um grande “erro de classificação incorreta” distorceu gravemente os números e que a taxa real de desemprego é de 16,3% .

O estardalhaço que fez o presidente norte-americano na mídia nos mostra que não foi apenas erro de classificação incorreta, mas sim uma mentira que podemos dizer que seja um leve mentira.

De acordo com John Williams, do shadowstats.com, se números honestos estivessem sendo usados ​​e corrigidos, a taxa real de desemprego nos EUA seria 36,5%. Perdemos assim toda a confiança no antes tão confiáveis números do governo dos Estados Unidos. Percebemos que isso já descambou para a mentira deslavada.

A pequena mentira e a mentira deslavada não é tão perigosa quanto a mentira em forma de estatística, que passa a provocar mortes. Nos anos 70 ocorreu a ideia de que uma crise deixará de existir se você não falar sobre ela. O fato é que na área da saúde o problema continua existindo sim, e sem uma dimensão real do problema a população fica mais vulnerável. Uma população mais vulnerável ficará mais doente e com mais chance de morrer.

Nos anos 70 também enfrentamos uma epidemia, só que no meio de uma Ditadura. Na época, a doença era a Meningite Bacteriana que é uma infecção que provocava inflamação nas membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal. A meningite era uma doença com predileção por crianças, e podia matar em até 24 horas depois dos primeiros sintomas. Matava 20 em cada 100 infectados.

O Brasil passou por três epidemias de Meningite, a mais letal foi justamente nos 70. Começou em um bairro pobre de São Paulo e se espalhou pelo Brasil inteiro. No início da epidemia, o presidente Médice censurou os dados sobre a doença. Ele também proibiu medidas de prevenção para não causar pânico na população.

Os médicos foram proibidos de dar entrevistas. Alguns médicos tentavam burlar a estupidez da Norma e passavam informações para jornalistas. Quando uma dessas reportagens conseguiam furar o cerco era imediatamente desmentida pelo governo. Em bairros pobres milhares de crianças começaram a morrer sem diagnóstico e tratamento.

Em um grupo técnico da Santa Casa de São Paulo trabalhava o Médico Epidemiologista José Cássio de Moraes. Ele afirmou que a epidemia foi avisada ao governo já em 1971. Mesmo com os relatórios de pesquisa as autoridades do governo negaram sua existência. Por anos, o governo tentou deter a epidemia por decreto.

A maioria das vítimas, crianças em São Paulo, foram enterradas em valas clandestinas no cemitério de Perus. Foi a maneira encontrada de burlar as notificações oficiais de óbitos. O Instituto de Infectologia de São Paulo chegou a internar de uma só vez 1200 pacientes com meningite.

Só após 3 anos de epidemia o governo se mobilizou. Foi no mandato do presidente Ernesto Gueisel que as aulas foram suspensas, e em algumas cidades foram instalados hospitais de campanha.

Naquele mesmo o ano haveria uma capa do Jornal o Estadão com o título “A Epidemia do Silêncio”. A ditadura censurou o jornal o obrigou a retirada da reportagem e a publicação de poesias de Camões em substituição. A reportagem censurada dizia o seguinte ”…Há 2 anos os casos de meningite em São Paulo começaram a aumentar de forma alarmante, as autoridades cuidaram de ocultar fatos, negar informações, reduzir os números referentes a doença a números incompatíveis com a realidade…”.

Também, em 1974 a jornalista da Veja conseguiu uma entrevista com o novo Ministro da Saúde, o médico Paulo Machado. Pela primeira vez alguém do governo assumiu publicamente a existência da epidemia no Brasil. A entrevista foi censurada.

Só depois de 3 anos de epidemia o governo resolveu importar 80 milhões de doses de vacina de meningite da França. Para que a população fosse em massa aos postos de saúde, finalmente o governo passou a falar da doença. O real tamanho da epidemia de meningite no Brasil é um mistério. Não saberemos quantos morreram. De uma coisa temos certeza, se as atitudes do governo fossem responsáveis é bem provável que o Marcelo estivesse hoje aproveitando de uma vida plena e vendo seus filhos crescerem.

RG 15 / O Impacto

 

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