Artigo – O dia em que Adam Smith se revirou no túmulo

Por Oswaldo Bezerra

O escocês Adam Smith é considerado o pai da Economia moderna. Ele teve um contato direto com os iluministas quando morou na França. Um deles foi Voltaire que o influenciou com suas ideias de total liberdade, como liberdade de pensamento, de imprensa, de religião e também liberdade da Economia.

Uma pesquisa que durou dez anos foi a base do seu Livro “A Riqueza das Nações” de 1776. O livro ia de contra o Mercantilismo. Enquanto os Mercantilistas achavam que a riqueza de uma nação era a quantidade de dinheiro que possuía, Adam Smith retrucava dizendo que a verdadeir a riqueza de uma nação vinha do trabalho. Talvez seja esse o único ponto em comum com o outro gênio da Economia, Karl Marx.

No entanto, Marx pregava a intervenção do Estado. Já Smith defendia a livre competição e a não interferência do Estado no mundo dos negócios. Para Smith, ao Estado cabia somente manter a ordem, proteger o patrimônio, construir obras de infraestrutura e cuidar da educação. O que diria Adam Smith, o pai do Liberalismo, se visse o mundo de hoje? O que diria ele sobre a loucura que acontece em Wall Street?

Embora estejamos no meio da pior pandemia global em 100 anos, e apesar de manifestantes e saques que transformam as principais cidades norte-americanas em zonas de guerra, os preços das ações estão subindo dia após dia. De fato, o Nasdaq fechou em alta histórica na segunda-feira. Às vezes, me pedem para explicar isso racionalmente, é difícil, porque a Federal Reserve dos EUA transformou os “mercados financeiros” em uma fraude total.

A economia real está literalmente entrando em colapso, mas graças à intervenção do Fed (Reserva Federal), os investidores em ações estão indo muito bem. Intervenção esta que, na verdade é uma fraude ou picaretagem financeira.

Nunca na história dos EUA os preços das ações dispararam enquanto a economia entra em recessão. Testemunhamos algo bizarro, e será fascinante ver quanto tempo vai poder durar. Enquanto isso, a Economia real está uma bagunça gigante e a velocidade financeira do dinheiro está indo a quase zero. Na segunda-feira, o Bureau Nacional de Pesquisa Econômica informou que a recessão norte-americana começou oficialmente.

O anúncio apenas notifica o óbvio. Os Estados fecharam negócios não essenciais em meados de março para conter a disseminação do coronavírus, interrompendo 30% da atividade econômica e colocando mais de 40 milhões de norte-americanos no desemprego.

Não é preciso ser gênio para saber que a Economia dos gringos desmorona. Por exemplo, acabamos de saber que os pedidos de fábrica nos EUA caíram 22,3% em abril em comparação com o ano anterior. É o pior desde o pico da crise financeira. Existem números piores. As vendas de caminhões pesados caíram 37% em relação ao mesmo mês de 2019. Em relação há dois anos a queda foi de 81%, segundo estimativas da FTR Transportation Intelligence.

Para não ficar atrás, o número de falências corporativas disparou 48% no mês passado em comparação com o mesmo período do ano passado, de acordo com dados da empresa de serviços jurídicos Epiq Global. As falências corporativas aumentaram em maio, quando a pandemia de coronavírus atingiu a economia dos EUA, elevando o número de registros a níveis registrados após a recessão de 2007-09.

Toda vez que se obtêm dados econômicos horríveis, o mercado de ações aumenta ainda mais. O FEd dá dinheiro grátis para banqueiros recomprarem ações. Pelo “Efeito Cantillon” estes banqueiros ficam ainda mais ricos e a classe média e pobre ficam com menos riqueza, é a Santa Crise Econômica para os banqueiros. ALém disso, os chamados “baleias” (pessoas que possuem bilhões nos mercados de ações) obtém conhecimento prévio das ações do FED e faturam em cima dos “sardinhas” (pessoas comuns que investem na bolsa com valores modestos).

Por isso, quanto pior a notícia, mais os investidores parecem gostar. Semana após semana, vimos um número sem precedentes de americanos solicitando benefícios de desemprego e, nesse momento, o total é de mais de 42 milhões de desempregados. Além disso, o Mercado de Ações se valoriza.

Claro que a maioria dos norte-americanos comuns não consegue viver em um mundo de fantasia alimentado pelo FED, e essa nova crise econômica está atingindo a maioria deles com extremo impacto. De fato, existem relatos de que aproximadamente um terço de todos os norte-americanos agora estão mostrando sinais de ansiedade e depressão, de acordo com novos dados coletados por Censo Bureau que contatou um milhão de famílias entre 7 e 12 de maio e cerca de 42.000 reportado pelo The Washington Post.

Infelizmente, muito mais dor econômica está a caminho. Entramos em um novo capítulo profundamente perturbador da história. O mercado de ações dispara em meio a recessão, comportamento bizarro este que demonstra a proximidade de um acidente econômico histórico. A picaretagem financeira de hoje faria Adam Smith rolar no túmulo. Infelizmente, graças ao sistema de educação em declínio, a maioria das pessoas nem sequer sabe quem foi Adam Smith nem conhece sua obra.

RG 15 / O Impacto

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