Artigo – Testemunhamos nos últimos 18 meses o maior aumento da riqueza bilionária da história, e não teve nenhuma relação com a inovação

Por Oswaldo Bezerra

No ano passado, durante o pico da pandemia global, o mundo criou mais de setecentos novos bilionários. Só neste ano foram criados mais quinhentos. A riqueza total na lista da Forbes aumentou de US$ 5 trilhões para US$ 13 trilhões, o maior aumento já registrado na história. A China liderou a lista com o maior número de novos bilionários, com os Estados Unidos em segundo lugar.

Já o PIB global encolheu 3,3% em 2020 e as taxas de desemprego estão cerca de 1,5 pontos percentuais mais altas do que eram antes da pandemia na maioria dos países. Isso não levanta simplesmente questões morais sobre a distribuição da riqueza, levanta questões de quão estão indo tão bem os bilionários enquanto a economia global está tão mal.

A principal razão para a explosão da riqueza bilionária ao longo da pandemia foram os programas de compra de ativos realizados pelos bancos centrais. Na esteira da crise financeira, e seguindo os passos do Banco do Japão após sua crise uma década antes, os bancos centrais começaram a criar novo dinheiro para comprar títulos do governo de longo prazo e alguns outros ativos a fim de reduzir os rendimentos.

É o tal do afrouxamento quantitativo (QE) para empurrar para baixo os rendimentos de títulos do governo de longo para encorajar investidores a comprar ações. Os bancos centrais estavam tentando ativamente aumentar os preços dos ativos, enriquecendo os ricos com base na suposição de que a riqueza “gotejaria” para as outras classes, puro engano, foi o que falou Paulo Guedes naquela reunião ministerial que precisava salvar os ricos.

As compras de ativos do banco central levaram a uma inflação dos preços dos ativos e, principalmente, ao aumento da desigualdade de riqueza. A tendência foi óbvia na corrida para a pandemia de COVID-19. As ações dos EUA haviam passado por sua maior corrida de alta da história e muitos observadores apontavam para uma bolha na dívida corporativa de alto rendimento.

A verdade é que o Estado interveio diretamente para aumentar a riqueza dos mais ricos. A ideia de que riqueza bilionária é uma recompensa pelo esforço e inovação determinada pelo “mercado” é absurda. Esses bilionários não ganharam com seu trabalho, eles ganharam a riqueza diretamente do Estado.

O QE não é a única forma de redistribuição para cima promovida pelos estados capitalistas hoje. Mesmo antes da pandemia, os Estados Unidos tinham um grande problema com o chamado “bem-estar corporativo”. Grupos de interesses especiais, do petróleo à agricultura à aviação, receberam enormes doações diretas do governo dos EUA na forma de incentivos fiscais e subsídios.

Para combater os efeitos negativos da epidemia de coronavírus sobre o sistema financeiro, o Banco Central disponibilizou R$ 1,216 trilhão para os bancos brasileiros, cerca de 16,7% do Produto Interno Bruto (PIB).

Esses banqueiros sem dúvida sabiam que suas organizações eram “grandes demais para falir”: eles sabiam que seu colapso poderia derrubar a economia mundial. O trunfo dessas grandes organizações é uma forma de poder estrutural inerente ao funcionamento do capitalismo: enquanto um pequeno número de pessoas controlar a maioria dos recursos do mundo, eles serão capazes de chantagear até mesmo os governos mais “progressistas”.

Além dos US$ 9 trilhões em QE realizados desde o início da pandemia por governos de todo o mundo foram gastos mias alguns trilhões em empréstimos e subsídios para grandes empresas, financiadores e proprietários. A maioria também forneceu algum apoio aos trabalhadores como o “Auxílio Emergencial”; no entanto, sem quebras de dívidas, aluguel e contas, muito destes auxílios foram parar nos bolsos dos ricos também.

A Oxfam identificou em 2015 que um terço da riqueza bilionária vem diretamente de conexões de amigos com o estado ou monopólios. Seja por meio de terceirização, subsídios ou privatização, a política de estado criou muitos bilionários ao longo dos anos, como deve ficar claro pelo fato de que a China capitalista de estado criou a maioria dos novos bilionários este ano.

O aumento dramático da riqueza daqueles que estão no topo da sociedade seria impossível sem a intervenção direta dos Estados capitalistas em todo o mundo. Aqueles que tentam justificar os níveis extraordinários de desigualdade como resultado natural da operação do mercado livre ficariam surpresos ao saber disso.

O mesmo acontece com os governos de esquerda que veem a intervenção do Estado como a resposta para todos os problemas do capitalismo. Na maioria das vezes, os estados capitalistas empreendem políticas no interesse do capital. Não porque os Estados sejam meros instrumentos da classe dominante; é porque o equilíbrio de poder entre capital e trabalho mudou em favor do primeiro nos últimos anos.

Lembrando que para cada novo bilionário forçosamente milhões de pessoas precisam sair da classe média para a miséria, e o poder econômico desta classe, é impossível imaginar um mundo em que o poder público seja usado para apoiar os interesses do trabalho sobre o capital. Não há como isso ser alcançado sem a luta de classes.

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RG 15 / O Impacto

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