O preço de viver: Pará está entre estados com custo de vida super elevado

Por Thays Cunha

Se falarmos sobre a Amazônia com qualquer pessoa que não habite nessa região do Brasil ela com certeza irá imaginar um lugar exuberante e com abundância de recursos naturais, onde as pessoas vivem uma vida simples e sem muitos custos e preocupações. Provavelmente imaginam que todos nós passamos o dia a colher frutas e pegar peixes nos rios, como se tudo o que precisássemos simplesmente caísse do céu ou estivesse ao lado, pronto para ser colhido, na floresta mais próxima.

Em relação à beleza e abundância de recursos essa ideia de paraíso até que não está longe de ser verdade, porém, o que muitos pelo Brasil afora não sabem é que para viver cá “por essas bandas” cada cidadão precisa desembolsar mensalmente com o seu sustento e o de sua família altos valores, alguns até maiores do que aqueles pagos por pessoas que moram em grandes cidades.

Aqui no Pará, por exemplo, todo esse bem-estar idílico que é romantizado por muitos por conta de nossos rios e florestas acaba esbarrando no elevado custo de vida necessário para um indivíduo se manter com dignidade. No entanto, não possuímos um grande índice de desenvolvimento, chegando a ser paradoxal então essa relação entre altos valores de bens e serviços cobrados versus baixos ganhos por parte da população.

Para se ter uma ideia, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) de 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda per capita no Pará é a mais baixa entre todos os estados da Região do norte. Além disso, é a terceira pior do país inteiro, chegando em média, por pessoa, a R$ 806,76, quantia bem longe dos R$ 1.439 que compõe a média nacional e dos R$ 2.685 do distrito Federal, cidade com a maior renda.

PESO NO BOLSO

Por vezes nem os próprios moradores da região conseguem entender o porquê dos altos preços que são cobrados em todos os setores. Desse modo, com uma renda per capita bem menor do que o salário mínimo vigente, o paraense vem sofrendo muito ao longo dos últimos anos, situação que só piorou após a crise econômica causada pela pandemia do novo coronavírus.

Os itens que mais pesam no bolso são justamente os mais básicos e necessários, como a alimentação, o gás de cozinha e a energia elétrica. Até 2020, a cesta básica do paraense estava custando quase R$ 500, ou seja, metade de um salário mínimo e muito mais do que a metade da renda per capita. (DIEESE/PA). Para famílias inteiras que sobrevivem apenas com um salário mínimo, comer está se tornando uma tarefa cada vez mais árdua.

O gás de cozinha também abocanha uma parte substancial do salário. Nesse mês de setembro, quase “fim” do ano de 2021, em alguns pontos do Pará já se encontram botijas de 13 quilos sendo vendidas a valores superiores a R$ 100. Com isso já se veem famílias que retornam a cozinhar como antigamente, utilizando como combustível carvão, pedaços de madeira e lenha.

Porém, a energia elétrica é considerada a maior vilã de todos os gastos. No estado do Pará paga-se uma das energias mais caras do Brasil, mesmo que as maiores usinas produtoras estejam em nossos territórios. Como o Brasil utiliza o Sistema Interligado Internacional (SIN), que abastece por uma interconexão os sistemas elétricos do Sul, Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Norte, por meio da malha de transmissão que propicia a transferência de energia entre os subsistemas, toda produção é dividida igualmente para todo o país, ou seja, a energia produzida aqui é distribuída para todas as regiões integradas. Porém, apesar dessa “igualdade” pagamos muito caro por conta dos tributos cobrados pela geração, transmissão e distribuição de energia elétrica, além da cobrança do PIS/COFINS (Programas de Integração Social e Contribuição para Financiamento da Seguridade Social) pelo Governo Federal, ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviço) pelo Governo Estadual, e iluminação pública pelo Governo Municipal. Outro fator que encarece nossa energia é o fato de que o Pará possui grande extensão territorial, desse modo a rede elétrica precisa se alongar ao máximo para atender uma pequena parte da população, o que dividiria esses altos custos entre poucos.

BELÉM E SANTARÉM

Tomando como base Belém, a capital do nosso estado é considerada uma das cidades com o custo de vida mais caro de todo o Brasil. De acordo com a plataforma denominada “Custo de Vida”, que analisa os preços fornecidos pelos próprios moradores de cada local, como gastos com lazer, saúde, alimentação e outros, Belém é uma das cidades mais caras para morar, ficando na quarta posição e em meio a cidades sulistas conhecidas por serem mais “ricas”. Para se ter uma ideia, o site afirma que morar em São Paulo custa 12,1% mais barato do que viver na capital do Pará.

Esses preços são refletidos em cidades como Santarém, por exemplo, uma vez que também estamos relativamente isolados do restante do Brasil, e os produtos acabam levando muito tempo e recursos para nos alcançar. Com exceção dos aluguéis, que em Santarém são levemente mais baratos, todos os outros preços do nosso município coincidem com os da cara Belém.

POBREZA

Esses aumentos em todos os setores impactam principalmente os mais pobres. Com luz, gás, transportes e alimentação mais caros a qualidade de vida entre essas pessoas vem caindo drasticamente a cada ano. O maior gasto dessa faixa de renda acaba sendo com comida, setor que mais subiu nos últimos anos. Segundo o IPEA. A inflação para os menos favorecidos avançou de 0,25%, em março de 2020, para 0,71%, em 2021.

O preço do combustível teve grande responsabilidade nesse aumento, pois torna tudo mais caro, uma vez que as cargas precisam ser transportadas pelo Brasil e o preço final acaba sendo passado para o consumidor.

Com o aumento do custo de vida a saída então é economizar ainda mais e reduzir todos os gastos ao mínimo necessário. É uma situação em que paramos de viver para apenas sobreviver, suprindo as necessidades apenas ao básico enquanto espera-se por uma melhora nesse cenário caótico pelo qual passamos.

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