Salário mínimo: como o brasileiro lida com o baixo poder de compra do que recebe

Por Thays Cunha

“O trabalho enobrece o homem”, assim diz a famosa frase. Trabalhar está no cerne da nossa existência e é graças ao trabalho que criamos e evoluímos. Mas a labuta diária é necessária não somente para alcançarmos esses resultados como também é uma forma de garantir a nossa sobrevivência, uma vez que em troca pelos nossos serviços esperamos receber pelo menos o essencial equivalente ao esforço oferecido, e com isso podermos pagar por tudo o que necessitamos para ter bem estar.

No entanto, essa é uma vantagem com a qual nem todas as pessoas, mesmo as que trabalham, podem contar, pois a cada dia que passa os serviços e bens de consumo ficam cada vez mais caros, fazendo com que o recebido, que deveria durar o mês inteiro, não seja suficiente para arcar com as despesas e obrigações de todos os trinta dias corridos.

SALÁRIO MÍNIMO

Por lei uma empresa é obrigada a pagar aos seus funcionários uma remuneração adequada à quantidade de horas por eles trabalhadas, o que garante uma base para qualquer categoria, sendo um direito muito importante. Chamamos esse pagamento de salário mínimo, que no Brasil foi criado em 1936, durante o governo Vargas, através da Lei nº 185. Já em 1940, o Decreto-lei nº 2162 estabeleceu quais os valores de tais salários, que devem ser pagos de acordo com as necessidades mínimas de cada cidadão levando em conta os custos com transporte, alimentação e outros.

No entanto, essa realidade está longe de ser verdade, pois é de comum acordo que apenas um salário mínimo não é suficiente para pagar as contas de uma pessoa, sendo ainda pior a situação quando o valor precisa ser divido para o sustento de uma família inteira. Isso significa que receber um salário mínimo, apesar de ser uma garantia, não denota tranquilidade financeira, o que faz o brasileiro ter que “se virar” para conseguir complementar a sua renda.

BRASIL

De acordo com nota técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas no Brasil tenham rendimento referenciado no salário mínimo. Atualmente no valor de R$ 1.100, o salário mínimo brasileiro está com o “poder” de compra equivalente a 1,58 cestas básicas, ou seja, um único salário não chega nem a comprar duas cestas inteiras. Isso significa que com apenas esse valor uma família não terá condições de se alimentar, pagar as contas de luz, água, aluguel e outros suprimentos, pelo menos não de modo a conseguir viver com dignidade.

Essa relação entre o salário mínimo e a quantidade de cestas básicas é a menor desde 2005. E com o recebido após batalhar durante um mês completo, o trabalhador compromete mais de 50% dessa renda apenas com alimentação. É notável de fato e não apenas sensação a de que vamos com a mesma nota ao supermercado, mas a cada ida trazemos menos coisas para casa.

VALOR “ADEQUADO”

Embora o salário mínimo seja reajustado anualmente ele não acompanha o preço dos produtos e serviços, que acabam sofrendo aumentos durante o ano todo. Com isso o poder de compra de certa quantidade de dinheiro vai diminuindo cada vez mais ao longo do ano, ou seja, compra-se cada vez menos produtos utilizando o mesmo valor.

De acordo com o cenário atual, para que uma família composta por quatro pessoas consiga se sustentar com apenas um salário mínimo, até o mês de julho de 2021 ele deveria então alcançar o valor de R$5.518,79, cinco vezes mais do que o que é realmente pago no Brasil (DIEESE).

No Brasil os preços estão alcançando patamares absurdos não só na área da alimentação, mas também a gasolina, o gás de cozinha,a  energia elétrica e os aluguéis estão a cada dia mais e mais caros. Com R$ 1.100 não se chega nem perto de conseguir arcar com tudo isso, ainda mais para uma maior quantidade de pessoas. Sendo assim os mais pobres são os que mais sentem os aumentos, uma vez que possuem pouco dinheiro para arcar com os itens básicos de sobrevivência.

MENOS DE UM MÍNIMO

Como vimos, com apenas um mínimo é bem difícil para uma família se manter, sendo muitas vezes necessário que outros membros tenham que trabalhar para colaborar com o sustento de todos. Porém, quando todos os membros não possuem idade e condições para ter um emprego, há duas situações: ou essa família vive de forma muita apertada e com pouca qualidade de vida ou então o membro provador complementa a renda através de “bicos” e atividade extras após o seu período de trabalho, o que infelizmente também não é uma garantia de que todas as contas ficarão em dia.

No entanto, ainda há aqueles que vivem com ainda menos do que um salário mínimo em nosso país, seja por conta de realizarem serviços informais ou, mesmo possuindo “emprego”, o patrão acabar não pagando o que a lei exige, explorando os seus trabalhadores.

De acordo com a 4ª edição do boletim Desigualdade nas Metrópoles, realizado utilizando informações da pesquisa Pnad Contínua, do IBGE, “O percentual de pessoas vivendo em domicílios com renda per capita do trabalho menor que ¼ do salário mínimo, no conjunto das metrópoles, era de 20,2% no início da série histórica (2012). Já no primeiro trimestre de 2020 chegava a 24,5%. E apenas um ano depois, no 1º trimestre de 2021, alcançou o patamar de 29,4%. Em termos absolutos, isso significa que em um ano o número de pessoas nessa situação passou de 20.230.528 para 24.535.659”.

Isso mostra que a situação econômica do Brasil ainda precisa avançar muito para que a população possa ter rendimentos adequados ao custo de vida vigente. Estamos passando por um momento já longo de pandemia e crise econômica, e muitas pessoas precisam contar com programas governamentais para sobreviver, auxílios esses que infelizmente estão ficando escassos. A “saída” para o povo é continuar economizando até o limite, mesmo que isso signifique apenas sobreviver até o momento em que talvez essa triste situação irá melhorar.

RG 15 / O Impacto

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