Gabriel Geller: “Existe massa de manobra contra empreendimentos”

Doutor em finanças avalia questões sobre desenvolvimento econômico de Santarém

No estúdio da TV Impacto, o jornalista Osvaldo de Andrade, ícone da comunicação santarena, recebeu Gabriel Geller, bacharel em Administração de Empresas, advogado e Doutor em Finanças.

“Estamos iniciando um novo ano. O sentimento de esperança permeia em nossos corações, muitas expectativas. Santarém é uma cidade estrategicamente bem localizada, é um núcleo que recebe todas as cidades vizinhas em termos de abastecimento e outros setores, e para fazer um diagnóstico da economia que transita em nossa cidade conversamos com Gabriel Geller, filho do ex-presidente da OAB/Santarém, Dr. Rodolfo Geller, o qual tive a honra de entrevistar por diversas vezes”, disse Osvaldo de Andrade.

Doutor em Finanças, Gabriel Geller, analisa com extrema coerência, o momento vivenciado pela população santarena em temáticas relacionadas ao desenvolvimento do município. Acompanhe:

O Impacto: Qual a sua análise em relação ao contexto econômico do município de Santarém atualmente?

Dr. Gabriel Geller: Santarém é uma cidade localizada em uma região rica. Com um potencial enorme, porém, com uma população pobre, e não digo isso com base em achismo de pensamento, os números sobre a nossa cidade mostram isso. Historicamente a economia local viveu de grandes ciclos, tivemos drogas do sertão, juta, cacau, madeira, ouro, borracha e deixaram algum legado, mas em geral restou para nós um cenário de pobreza. Apesar de ser a 3ª maior população do Estado, perdendo apenas para Belém e Ananindeua, é apenas a 5ª em arrecadação e a 7ª em Produto Interno Bruto (PIB), que é uma medida da produção total da economia de cada Município, de cada País e de cada região. Porém, o número mais assustador é que quando observamos o PIB per capita, PIB por pessoa que é uma medida ainda que imperfeita da riqueza média das pessoas, nós somos apenas 33° lugar no estado do Pará. O nosso PIB per capita é menos da metade da média do Brasil. Por isso que eu digo que nós somos uma região em que a população vive na pobreza. Outro indicador muito assustador refere-se aos cadastros únicos do Programa Bolsa Família em Santarém. São 60 mil, dos quais 50 mil possuem renda menor que meio salário mínimo por pessoa, ou seja, se a gente pegar essas 50 mil e identificar que sejam quatro pessoas por família, estamos falando de 200 mil pessoas vivendo na pobreza, que coincide com um indicador recente do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) que diz que 66% ou dois terços da população santarena vivem na pobreza. Se temos 300 mil pessoas em Santarém, temos 200 mil pessoas vivendo na condição de pobreza em nossa cidade.

O Impacto: Como podemos sair dessa triste realidade, olhando para os setores da economia?

Dr. Gabriel Geller: Não existe solução mágica, mas é importante começar pelo raciocínio de que o estereótipo de desenvolvimento da Amazônia e seus municípios como santuário entocado, não cabe. A maior parte dessas pessoas não se identifica com grupo indígena ou quilombola. São santarenos, brasileiros que querem uma vida digna, que querem, porque não, uma TV de tela plana, ar-condicionado, acesso a um smartphone, saúde, educação e segurança, sendo que isso não vem do Estado por si só. É preciso gerar atividades econômicas que permitam empregos e renda, que possibilitem o acesso a todos para esses bens e serviços. Outro erro que ocorre muito no debate do desenvolvimento econômico da nossa cidade é que ele pode acontecer com base em um único setor. Vamos tomar como exemplo o setor do turismo. Esse setor é a vocação natural de Santarém, dizer isso é um clichê, em todo clichê existe um fundo de verdade, e de fato está tudo instalado para nós, foi dado por Deus. Precisamos de uma maneira responsável e adequada para transformar isso em riqueza para a população, ou seja, desenvolvimento sustentável no tripé social, econômico e ambiental. Mas não pode ser só ambiental, nem somente social ou econômico. Voltando ao turismo, claro que temos que apostar primeiro no turismo, fazer o dever de casa, pois temos feito pouco nesse setor. No entanto, se olharmos, nenhuma cidade do porte de Santarém vive só do turismo. Vamos pegar como  exemplo Foz do Iguaçu. Uma das cidades que mais recebe turistas no País por conta das cataratas do Iguaçu. Sabe quanto que o turismo responde diretamente pelo PIB da cidade? Apenas 15 por cento. Então, há uma complementaridade com outros setores. Florianópolis é outra cidade que contém uma população maior que a nossa, uma realidade diferente, mas que é muito turística. Com todos aqueles turistas que vão para lá, isso responde também por aproximadamente 15 por centro do PIB daquela cidade, que é completado pela administração pública, porque é uma capital, mas também por uma forte indústria de inovação tecnológica em que a cidade resolveu apostar há alguns anos. Santarém tem de apostar no turismo, é evidente. Perdemos um cavalo encilhado que foi o Centro de Convenções, que temos de batalhar para trazer, porque fomenta o turismo de negócios, de eventos. Temos atividades o ano inteiro, não apenas os grandes festivais culturais ou grandes festas como carnaval, ano novo, temos de fomentar as atividades o ano todo. Além disso, nós temos de olhar para a indústria que responde hoje com 11 por cento do PIB santareno, viabilizar a questão do Distrito Industrial que continua travado. O agronegócio que injustamente é alvo de muito preconceito; acredito que de maneira equivocada. Ninguém quer a Amazônia derrubada para se transformar em campo, mas Santarém pode querer duplicar sua produção de grãos sem derrubar uma árvore, precisa ser feito de maneira correta e responsável, pois gera muita riqueza, emprego, renda. Hoje o agro, o setor agropecuário como um todo, representa quase 15% do nosso PIB, só grãos chega próximo de 10%, sendo que a gente pode crescer muito nesse setor. A pecuária tem evoluído no ponto de vista da tecnologia aplicada na produtividade da qualidade dos rebanhos. Mas ainda estamos aquém no quesito produtividade. Existem muitas criações ainda no modelo antigo, inclusive usando várzea e terra firme, há muito pouco semiconfinamento ou confinamento e melhoria genética. Mas tudo isso já começou a ser introduzido e avaliado, não é o meu segmento especificamente, mas eu acompanho através do SIRSAN e das pessoas que interagem por lá. Então, nós temos também muito a avançar na pecuária com aplicação de tecnologia e com o aumento da produtividade e qualidade do rebanho.

O Impacto: Na sua visão, Santarém é uma cidade de vocação portuária?

Dr. Gabriel Geller: Eu acho inegável que com esse acesso todo que nós temos no ponto de vista logístico e o acesso à água que deva haver uma região para maior desenvolvimento portuário na nossa cidade, no nosso plano diretor que isso tenha que ser respeitado. Não estou falando especificamente do empreendimento A ou B. Precisamos dentro da nossa estratégia de desenvolvimento contemplar a questão portuária. Também não podemos abrir mão do potencial de riqueza desse tamanho, quando eu falo que tem que ser multissetorial, nosso desenvolvimento, a gente tem de contemplar toda a cadeia do agronegócio e em parte isso envolve a questão portuária. Quando se fala de Distrito Industrial, a gente vai buscar, também, a questão portuária para escoamento de produção e vai puxar a questão da energia elétrica que é outro problema, que é um gargalo. Já foi feita a licitação para segunda perna do linhão que vai aumentar a capacidade de oferta e a qualidade de energia elétrica da cidade, mas ainda vai demorar de três a cinco anos. Se isso não acontecer e Santarém continuar a crescer, vamos voltar ao problema de racionamento. Se Santarém tivesse crescido nesses últimos anos em que houve essa crise toda e não cresceu, talvez nós estivéssemos hoje com problema de energia elétrica. Como podemos falar em trazer indústrias para Santarém se não resolvemos o problema da energia elétrica? Evidentemente que está sendo endereçada, e a Associação Comercial e Empresarial de Santarém e a Prefeitura têm trabalhado nisso. Mas a gente tem de estar alerta, pois se não resolvermos esse problema de infraestrutura básica de energia elétrica não poderemos ter um Distrito Industrial. Falando em Distrito Industrial e agronegócios, temos de falar da questão portuária também. Temos a velha promessa que se arrasta ao longo dos anos, aproximadamente uns quarenta anos. Meu pai veio para cá, já sentia a expectativa dessa BR, e nós estamos ainda impacados em BR-163 e Transamazônica. Santarém precisa de um diálogo sério e aberto na sociedade, um objetivo sem bloqueios ideológicos para definir sua vocação e seu modelo de desenvolvimento. A Coreia do Sul apostou em um modelo de desenvolvimento e foi o primeiro País a sair talvez de uma situação de Pais subdesenvolvido para um País de primeiro mundo, e com os municípios funciona da mesma maneira, então, nós temos aqui turismo, temos potencial para trabalhar inovação tecnológica associada à biodiversidade, através da Universidade Federal do Oeste do Pará, temos o potencial do agro, da indústria e do corredor logístico e cada um desses setores e atividades tem espaço em um modelo sustentável, um modelo em que a gente trabalhe a preocupação ambiental, a preocupação social e também a preocupação econômica. Se não houver atividade econômica, se não houver vetores de crescimento econômico e ambiental, o social vai sofrer. A ocupação que aconteceu a pouco tempo nas proximidades do Juá, ao lado do empreendimento Buriti, aquilo é um reflexo de uma pressão de uma população pobre, sem acesso a diversos serviços básicos e ao mesmo tempo da dificuldade de legalização que há nos empreendimentos organizados, com exceção dos que se aproveitam da situação. Quando não se trabalha os empreendimentos organizados e ao mesmo tempo você tem uma população sem acesso decente a emprego, renda e serviços, você está convidando as pessoas para esse tipo de situação e aí você não tem o econômico, não tem o social e o ambiental. Houve um grande impacto ambiental ali, decorrente direta ou indiretamente da falta de opções econômicas da população. A população quer emprego, renda e acesso a bens e serviços, ninguém quer viver como se vivia há 600 anos.

O Impacto: Dr. Gabriel, esse assunto é muito delicado, por que existem as pessoas que são extremamente contra esse tipo de empreendimento ou ocupação, citamos como exemplo o portuário? Temos além dele uma reação muito grande por parte daqueles que se dizem defensores do meio ambiente, e são as mesmas pessoas que reclamam da falta de emprego. Para gerar emprego, precisa-se investir em projetos de infraestrutura e ao mesmo tempo essas pessoas são contra a essas implantações. Como fica essa situação?

Dr. Gabriel Geller: Na minha percepção, longe de mim ser o dono da verdade, mas a minha opinião é que há uma grande utilização de massa de manobra nessas questões de manifestações contra empreendimentos. Não estou dizendo que a população não tem a consciência e a liberdade para se manifestar, o que estou dizendo é que a informação na maioria das vezes é manipulada. Se você diz para mim: “olha, vai chegar aqui perto da sua casa um empreendimento que vai acabar com isso aqui”, eu sou contra, é claro que não quero. É evidente que eu não quero um empreendimento que vá acabar com a minha casa. Então, eu preciso entender como isso funciona, qual o benefício e o peso que traz. Todo empreendimento vai trazer um peso ambiental, a existência humana tem um impacto ambiental, se quisermos zerar o impacto de modificação do meio ambiente, teremos de acabar com a espécie humana. Agora, esse impacto de modificação no meio ambiente precisa sim dos devidos estudos, relatórios, análises adequadas e aí se provando viável, ainda que um determinado impacto controlado, o impacto vai haver. Eu ando de carro, uso o telefone, ar-condicionado, respiro, me alimento, produzo lixo, eu estou impactando, mas todo esse impacto é aceitável em nome de qual benefício e para quem? Mas aí nós temos de aceitar, a partir do momento em que o modelo foi discutido. Por isso falo que Santarém precisa de estratégias, se nossa estratégia é passar por portos, nós temos que ter um local para portos ou ela não passa por portos, então, qual é? Qualquer um que se disponha a participar do debate, não pode esquecer que nós temos aproximadamente 150 mil pessoas de idade economicamente ativas e só 30 mil empregos formais, dados do CAGED, ou seja, 20 por cento. Temos 66 por centro da população na pobreza e essas pessoas não são identificadas, a maior parte delas por minoria A, B ou C, são cidadãos santarenos, brasileiros. Qual é a alternativa para gerar riqueza e renda para essas pessoas? Quem entra no debate tem de trabalhar a resposta para essa pergunta. Ele pode até dizer que minha resposta é equivocada, de repente pode até ser, só não posso dizer que a sua resposta é equivocada, e não apresentar um caminho que evidentemente não é suficiente. Quando alguém vem dizer: “Santarém tem que se desenvolver só com base no turismo”. Não é verdade, porque não é suficiente. Por melhor que a gente faça, por mais que a gente aumente desses 3 por cento, por mais que isso diretamente vá impactar em toda a sociedade, no comércio, serviços e etc, ainda sim não vamos chegar onde precisamos. Precisamos combinar e, de que forma nós vamos combinar? Aí está aberto o debate público, eu sozinho não vou dizer, o Prefeito sozinho não vai dizer, a sociedade só vai dizer com base em informações claras e objetivas e não com preconceito ideológico com qualquer empreendimento privado que resolva investir em Santarém. Veja só, se eu começo ganhando 2 mil reais, ao longo de dois anos eu tenho dinheiro, você não juntou, agora eu tenho dinheiro para investir, você quer que eu invista com base em que? Numa expectativa de retorno por esse recurso que eu juntei, você optou por consumir, eu optei em acumular um pouco mais com intuito de investir, eu resolvo investir ao criar um empreendimento que dá certo e, daqui a pouco você está me condenando porque eu estou rico. Agora, se eu tivesse quebrado, você também não iria lá pagar as minhas despesas. A Constituição Federal é clara em valorizar na ordem econômica tanto o valor do trabalho como o da livre iniciativa. O empreendedor e o empregado, lado a lado. E, quem é o empresário? O empresário é qualquer um que queira ser. O empresário é qualquer um que decida ao final do acúmulo de um determinado recurso, às vezes pequeno ainda, decida iniciar um negócio, um empreendimento. Um negócio é uma solução para uma demanda não atendida, uma solução para algum problema da sociedade. Se a sociedade não come pizza porque não tem pizzaria e abro uma pizzaria, eu estou resolvendo um problema para todo mundo e nessa solução eu posso me dar bem ou me dar mal. Agora, se eu me der bem, não é aceitável que você aponte o dedo na minha cara e diga que eu estou errado. Estou prestando um bom serviço e as pessoas acreditam nele, assim como daqui a pouco, se ele não for bom, as pessoas não acreditam mais. Esse é um modelo de economia de mercado, um modelo em que eu acredito, outros não acreditam, mas é o modelo que criou maior número de prosperidade para um grande número de pessoas na história da humanidade. Existem seus problemas, podemos falar da gritante pobreza que impera em nossa cidade, desigualdade que por si só não é um problema. O problema real é a miséria, desigualdade sempre vai existir na medida em que minhas características são diferentes das suas, em que o meu esforço é diferente do seu, seu esforço é maior que o meu, seu talento é maior que o meu, sua sorte maior que a minha. Você vai estar em uma situação mais avançada, o que não pode acontecer é eu ficar na miséria. Nós deixarmos nossos irmãos na miséria, é até um compromisso cristão, então, a miséria é o problema.

O Impacto: 2018 é um ano eleitoral e muito se fala que a nossa representação política não tem correspondido aos anseios da sociedade, ou seja, a classe política está muito desacreditada pelo povo diante de tantos escândalos de corrupção. Você como cidadão, como você espera que o eleitor se comporte em relação às eleições deste ano?

Dr. Gabriel Geller: O eleitor está um pouco cansado de apanhar. Acompanhamos escândalos e escândalos de corrupção. Existem duas formas de ver isso, como é que a população é conivente com a corrupção, porque ela própria quando tem oportunidade é corrupta; a outra de enxergar isso como a maior parte da população é honesta, acredita e acaba por ser ludibriada. Se o cenário for o primeiro, nós estamos diante de um problema muito mais sério, porque não vai haver expectativa de renovação de classe política e nossa população precisa se refundar e se reinventar nos valores éticos. Na escolha é o segundo problema. Apresentam-se candidatos que vêm nomeado por partidos, em sua maior parte já com carreira na política e a população precisa escolher entre eles. Agora, um exercício básico para o cidadão é de conhecer um pouco melhor seus candidatos. A maior parte das pessoas votam, depois não lembram em quem votou, não vê o histórico do candidato, acredita em qualquer conversa. Quando alguém vai vender um carro usado, você não acredita em tudo que ele fala, você vai ver o carro, você busca o perfil do cidadão, pergunta se aquele camarada é sério, leva no mecânico para ver o carro, você faz toda uma averiguação, você vai comprar um carro e não quer ser enganado. Você vai escolher um Presidente da República, você vai escolher um Senador e você não tem o mesmo trabalho de pesquisar um pouco mais sobre o que pensa. “Será que o que ele pensa é o que eu penso?”, por exemplo. Eu já falei que acredito na economia de mercado, eu não posso votar em um candidato que não acredite na economia de mercado, a pessoa que não acredita na economia de mercado vai votar nesse candidato, é direito dela, não é o meu caminho, então, é uma pesquisa: “será que esse cidadão pensa como eu penso com relação a desarmamento, saúde, educação e desenvolvimento econômico?”. Eu tenho que votar em um cara que pensa como eu acredito e depois que tenha um histórico. Lógico, isso não garante que ele vai ser honesto, mas garante que eu não estou, por negligência, elegendo um que tenha um histórico comprometido. O camarada tem que ter um histórico limpo e que pense como eu penso, assim vou apostar nele. Para finalizar, eu sou um militante do trabalho, as pessoas têm de buscar a verdade e também têm de aparecer nas oportunidades de onde vem o fundamento básico da dignidade humana, e a partir daí todo resto melhora, então, precisamos de alternativas para criar trabalho para as pessoas de Santarém.

Por: Edmundo Baía Júnior

Fonte: RG 15/O Impacto

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