Projeto “Elas na História” estimula diálogo nas escolas públicas sobre o empoderamento feminino e equidade de gênero

Crianças participaram de atividades, como palestras, amostras de filmes e caminhadas temáticas

Jéssica Ninas e Klaudia Yared falam sobre o projeto “Elas na História”

É na infância que os papéis de gênero começam a ser estabelecidos e divididos. A criança é limitada e moldada pelos próprios pais para seguir regras estipuladas pela sociedade em que vive. O clássico “azul para meninos e rosa para meninas” é uma das grandes divisões e caracterização do sexo da criança.

É através do empoderamento pessoal que diversas mulheres estão vencendo essas barreiras de divisões de padrões sociais, por meio de um maior conhecimento sobre as causas femininas, amor próprio e coletividade.

Em Santarém, através de uma iniciativa do Ministério Público com apoio e planejamento da Secretaria Municipal de Educação (Semed), foi intitulado o projeto “Elas na História” que leva às escolas públicas do município palestras e rodas de conversa sobre empoderamento feminino para as crianças, e também para as mães.

Jéssica Ninas é uma das organizadoras do projeto na Semed, e segundo ela o objetivo da ação é começar desde a infância o empoderamento feminino para que as meninas se vejam como portadoras também de direitos como os meninos. “A intenção é trazer à tona a importância da mulher na sociedade, na ideia de que a gente não quer ser igual aos homens mas a gente quer ter direitos assim como têm os homens, e nada melhor do que começar pelas escolas a partir de onde as crianças precisam já começar a entender que meninos e meninas têm os mesmos direitos, podem fazer o que eles desejarem fazer, não existe profissão de menino ou profissão de menina, não existe ‘menino pode e menina não pode’, todos nós podemos tudo igualmente.”

Uma menina que é empoderada desde muito jovem certamente se tornará uma mulher muito mais preparada para lidar com o machismo cotidiano e com as pressões socias direcionadas ao seu corpo e seus modos. “Esta concepção de que o homem tem um poder superior cultural e social, acaba logicamente diminuindo a presença das mulheres e importância delas em vários âmbitos e, quando você tem essa construção de masculino e feminino mais equilibrada desde seus primeiros anos de vida, tudo isso traz uma consequência muito positiva” explica a psicóloga participante do projeto, Klaudia Yared.

Para oferecer mais conhecimento sobre o empoderamento feminino, o projeto “Elas na História”, levou durante a primeira semana de março, diferentes atividades para todas as escolas e creches públicas de Santarém. O projeto faz parte de uma lei que diz que todas as instituições de ensino devem trabalhar na primeira semana do mês de março o empoderamento feminino.

O projeto vai às escolas e a estimula a falar sobre o tema para, principalmente, as meninas dentro do ambiente escolar. A ação faz rodas de conversas com explicações de especialistas no tema, caminhadas em prol do empoderamento feminino, amostras de filmes sobre mulheres que fizeram história e são pouco conhecidas, realização de atividades e divulgação de textos sobre o machismo, feminismo e outros temas importantes, sempre voltados para uma ótica infantil.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo feminismo é a naturalização de valores machistas como uma certa cultura na sociedade e as divisões binárias em coisas do dia a dia, como roupas e brinquedos. A maioria dos pais, responsáveis e educadores ainda separa o mundo entre “coisa de menina” e “coisa de menino”, criando uma barreira quase que inquebrável entre os gêneros.

“Quando a gente trabalha a equidade de gênero, temos de trabalhar com meninos e meninas, e essa questão começa desde a infância, com brincadeiras e atividades tanto na escola quanto em casa. As  tarefas domésticas geralmente são estimuladas à participação feminina, os meninos geralmente ficam um pouco à margem dessa participação, e tudo isso já vai construindo a importância ou a vulnerabilidade de um gênero em relação ao outro e também vai construindo espaços não democráticos de poder” relata Klaudia Yared.

A semana do empoderamento feminino fez também com que meninas e meninos conhecessem histórias reais de mulheres que mudaram o mundo, onde os próprios alunos pesquisaram e apresentaram o projeto. A psicóloga Klaudia Yeared afirma, “eu acho que a semana do empoderamento feminino é uma oportunidade de meninos e meninas contarem um pouco dessas histórias e se enxergarem dentro delas e começar a construir uma cidade melhor, um mundo melhor, relações mais saudáveis e mais respeitosas”

As escolas também tiveram participação nesse fortalecimento, segundo Jéssica Ninas, todo o corpo docente das escolas recebeu a ideia muito bem e quis trabalhar com o tema e isso incentivou ainda mais os alunos a se interessarem pela ação. “As escolas foram bastante receptivas com a ideia, porque de certa forma a gente já trabalhava a questão do empoderamento feminino, mas dessa vez a semana da mulher foi diferente porque a gente trouxe a força da mulher para comemoração da semana da mulher que já acontecia, a gente mostrou a força da mulher e não a fragilidade” afirma.

OS MOTIVOS: O Pará é o 8º em número de feminicídios, os casos cresceram 20% desde 2017. A cada uma hora, cerca de dois casos de violência contra mulher são registrados na capital do estado.

Além de querer alertar mais sobre os índices preocupantes de feminicídios, o projeto se motivou em mostrar e questionar o quanto a igualdade é desproporcional entre homens e mulheres em diversos setores, o quanto o machismo existe fortemente na sociedade e como é importante desde criança romper esses papeis impostos, tanto para meninas tanto para meninos. A ideia de conscientizar também os meninos a entenderem o quanto é errado essa desigualdade de posições.

“A gente ainda vive em uma sociedade onde nós somos tolhidas de muitas coisas, onde os salários são diferentes mesmo que se execute a mesma função, onde a mulher ainda é vista como a ‘dona de casa’, aquela que tem de trabalhar em casa e cuidar dos filhos. A gente foi trazendo à tona tudo o que tá acontecendo no mundo e ao mesmo tempo fazendo com que elas acreditem em si, que as mulheres olham pra si, e eu acho que a escola é o melhor momento onde a personalidade das crianças está sendo formada, onde eles ainda estão assimilando conceitos de vida então quando você passa a ensinar a criança que  menino é igual a menina, que menino não bate em menina leva as crianças a certa reflexão e a aprendizado, o melhor momento do aprendizado é esse” afirma Jessica Ninas.

EQUIDADE DE DIREITOS ENTRE MENINAS E MENINOS: O movimento feminista atual abrange debates muito além das questões específicas das mulheres, várias vertentes do feminismo discutem também racismo, sexualidade e direitos LGBT. Um dos temas recentes abordados pelo feminismo é o papel das crianças na sociedade.

“Ninguém nasce mulher. Tornar-se mulher!” Simone de Beauvoir, escritora e filósofa, mudou o modo em que a sociedade e a própria mulher enxergavam o gênero feminino. Segundo ela, enquanto bebês e crianças somos todos iguais até o momento em que os ensinamentos mudam e aí nos tornamos homens ou mulheres de acordo com as regras da sociedade.

Empoderar meninas desde cedo é a única forma de quebrar diversos paradigmas que cercam o gênero feminino. Muitas formas de assédio e inferiorização começam cedo, e é papel do poder público e de instituições escolares quebrar esses tabus e trabalhar de braços dados com todos no processo de valorização do gênero feminino e a construção de uma sociedade sustentada na equidade.

Por: Elmaza Sadeck

Fonte: RG 15/O Impacto

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