Artigo – O bicho papão que nos aguarda após a pandemia

Por Oswaldo Bezerra

A crise econômica de 2008 foi conhecida como “a Grande Recessão” porque os EUA não experimentavam colapso econômico daquela magnitude desde a Grande Depressão da década de 1930. Milhões de americanos perderam os empregos, os padrões de hipotecas dispararam e Wall Street foi abalada até o âmago.

Por pior que as coisas estiveram durante a última recessão, nem se compara com a crise de 2020. O que estamos testemunhando é sem precedentes. O que está acontecendo com a economia dos EUA é catastrófico, mas é apenas o começo.

A ADP acompanha as folhas de pagamento privadas nos Estados Unidos há muitos e muitos anos, e todo mês seu relatório da folha é observado com muito cuidado pelos economistas. Antes deste ano, o pior mês da história do relatório foi em fevereiro de 2009, quando 834.665 empregos foram retirados das folhas de pagamento privadas dos EUA.

Na crise atual as folhas de pagamento privadas sofreram perda de mais de 20 milhões de empregos em abril, quando as empresas cortaram trabalhadores em meio a um desligamento induzido por corona vírus, de acordo com um relatório divulgado na última quarta-feira pela ADP.

O declínio totalizou 20.236.000. Foi a pior perda na história da pesquisa desde 2002. Isso significa é que o número de empregos privados, em folha de pagamento, perdidos nos EUA no mês passado foi 24 vezes maior que o recorde, registrado em 2009. Naquela época eu trabalhava para uma empresa norte-americana no Brasil. Tivemos que fazer vários cortes orçamentários na sede brasileira, para poder diminuir o número de demissões nas bases norte-americanas.

“As perdas de empregos nessa escala são sem precedentes”, disse Ahu Yildirmaz, co-diretor do ADP Research Institute, que compila o relatório em conjunto com o Moody’s Analytics. O número total de perdas de empregos apenas no mês de abril foi mais que o dobro do total de empregos perdidos durante a Grande Recessão.

Nunca vimos um pico de desemprego como esse antes e nunca mais veremos um pico como esse. É claro que existem algumas pessoas por aí que foram rápidas em me lembrar que muitas dessas perdas de emprego são “temporárias” e que milhões de americanos em breve voltarão ao trabalho. Sim, quando os estados começarem a encerrar seus bloqueios, a economia dos EUA recuperará milhões de empregos que foram perdidos.

Porém, milhões de empregos nunca mais voltarão. Na matéria da Bloomberg intitulado “Demissões começam a mudar de temporárias para permanentes em toda a América” mostra que muitas demissões que há apenas um mês foram rotuladas como “temporárias” agora são marcadas como “indefinidas” ou “permanentes”.

No Brasil, a Fundação Getúlio Vargas de maneira otimista estimou que a taxa de desemprego subirá apenas 5 pontos passando de dos atuais 11,6% para 16,1%. Serão novos 5 milhões de pessoas na fila do desemprego em três meses, que elevará o montante de 17 milhões de desempregados. Mesmo com estes números otimistas o cenário é considerado catastrófico, tanto para o mercado de trabalho como para a recuperação da renda das famílias, e da própria economia (Link 3).

Nos EUA, juntamente com os anúncios de cortes de pessoal de grandes empregadores, como Boeing Co. e US Steel Corp., e o ritmo acelerado de redução no varejo físico, esses avisos são um sinal de que, mesmo que as empresas continuem esperando uma recuperação rápida, eles estão começando a planejar um processo lento.

Nesta semana, a Lord & Taylor planeja iniciar o processo de liquidação e todos os seus funcionários de forma permanente. A empresa planeja liquidar estoques em suas 38 lojas de departamento, uma vez que as restrições para conter a disseminação do corona vírus são suspensas, à medida que se prepara para um processo de falência.

Os preparativos da Lord & Taylor para liquidar seu estoque assim que suas lojas reabram oferecem uma janela para o futuro sombrio de um varejista de alto nível. É uma cadeia de lojas de departamentos fundada em 1826 e considerada a mais antiga dos Estados Unidos. Ela não sobreviverá às consequências econômicas da pandemia.

O pior de tudo é saber que haverá uma onda de falências de pequenas empresas nos Estados Unidos, que superará absolutamente tudo o que já foi visto antes na história. Governadores de toda a América podem encerrar os bloqueios, mas não podem ordenar que as pessoas saiam e gastem dinheiro.

Por muitos meses, o medo do COVID-19 impedirá que milhões de consumidores voltem a seus padrões econômicos normais, portanto, as pequenas empresas, em todo o país, enfrentarão receitas muito reduzidas no futuro próximo. Por volta de 52% de todos os proprietários de pequenas empresas nos Estados Unidos esperam falir dentro de seis meses.

As empresas gigantes têm os recursos para passar por uma crise prolongada, mas a maioria das pequenas empresas não. Elas são quem mantém a maioria dos empregos. Já é difícil tentar administrar uma pequena empresa lucrativa mesmo quando as condições são ideais, mas agora essa pandemia tornou essa tarefa quase impossível.

A economia dos EUA recuperará alguns dos empregos perdidos durante os bloqueios, mas também continuaremos a sangrar mais empregos nos próximos meses. A maioria está ansiosa por voltar ao “normal”, mas o “velho normal” se foi. Em vez disso, um “novo normal” surgirá.

Na terça-feira passada, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, alertou que não chegaremos lá até que cheguemos à imunidade e a uma vacina. O governador afirmou que, como muitos municípios do estado se preparam para reabrir na próxima sexta-feira, as medidas de distanciamento físico será crucial para reduzir o risco de propagação de corona vírus.

Não estamos voltando ao “normal”, disse o governador, que fez a coletiva de terça-feira no site de uma empresa de Sacramento chamada Display Califórnia. “É um novo normal com adaptações e modificações, até chegarmos à imunidade e a uma vacina”. Infelizmente, é extremamente improvável que cheguemos à imunidade nos Estados Unidos antes de 2021, e a busca por uma “vacina” não será fácil. Quando alguém fala que uma solução fácil que está logo ali, eles não estão sendo honestos com você. Enquanto isso, a economia dos EUA está literalmente implodindo.

No Brasil, 40% dos brasileiros já perderam renda ou emprego. A boa notícia é que o COVID-19 não é tão mortal quanto muitos projetavam originalmente. Por exemplo, em vez de milhões de mortos, o número final de mortes nos EUA e no Brasil ficará em centenas de milhares. Quando a pandemia começar a diminuir, use-a como experiência do que está por vir, o COVID-19 definitivamente não é a pior coisa que vamos enfrentar. O efeito econômico da pandemia deverá durar décadas.

RG 15 / O Impacto

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