Artigo – Filhos adultos voltando a morar com os pais apontam para um futuro angustiante

Por Oswaldo Bezerra

Em 1994 o Brasil ganhou a copa do mundo nos EUA. Naquele ano morei no estado da Pensilvânia, em um intercâmbio com uma universidade norte-americana. Foi o ano do aumento de moradores de rua, por conta do fechamento de asilos para pessoas com problemas mentais.

No entanto, o que mais preocupava a sociedade norte-americana, naquele momento, era o abandono dos pais pelos filhos. Havia uma campanha governamental para que filhos adultos visitassem os seus pais, tanto nas suas casas como, uma grande parte, que vivia abandonada em asilos para idosos.

Em 2005, por conta do trabalho no Mar do Norte passei uma temporada na Escócia e observei um problema familiar ainda maior. Os filhos ainda adolescentes saiam da casa dos pais para não mais voltar, nem visitar.

Tudo isso parece que está mudando. Na crise econômica da Grécia em 2009, 75% das famílias passaram a ser sustentadas por idosos aposentados. Esta característica parece se estabelecer no mundo por causa dos eventos caóticos de 2020. Um grande número de jovens voltou a morar com seus pais.

A percentagem de norte-americanos na faixa de 18 a 29 anos, que vivem com seus pais, subiu para o nível mais alto já registrado nos EUA. Sem dúvida, o colapso da economia atingiu especialmente os jovens.

Cerca de 59 milhões de americanos pediram auxílio-desemprego, nas últimas 24 semanas, e os trabalhadores de baixa renda foram os mais afetados pelo tsunami do desemprego. Os jovens adultos representam uma grande parcela de trabalhadores de baixa renda e estes foram atingidos fortemente. Estão sendo forçados a recorrer aos pais em busca de apoio.

De acordo com um novo relatório publicado pelo Pew Research Center, 52% dos jovens viviam com um ou ambos os pais. Foi a maior medição da história. O relatório definiu como um “jovem adulto” qualquer pessoa na faixa etária de 18 a 29 anos. São 26,6 milhões de jovens adultos que hoje vivem com os pais. Nunca correu um número tão alto.

Antes de 2020, o maior valor medido foi o do censo de 1940, na Grande Depressão, quando 48% dos jovens viviam com os pais, diz o relatório. Estamos testemunhando algo alarmante. Os jovens que vivem com os pais não são preguiçosos ou improdutivos. Muitos deles estavam trabalhando arduamente para sobreviver por conta própria. Convenhamos, nenhum jovem quer viver na casa dos pais.

É uma situação difícil que já tomava forma, mas que foi exacerbada pela pandemia e levará anos, ou mesmo uma década, para estes jovens se recuperarem financeiramente e possam sair da casa dos pais. Muitos pais também devem não estar muito entusiasmados por ter seus filhos adultos morando em casa. Os tempos são outros.

As condições econômicas se tornam cada vez mais difíceis, e veremos cada vez mais situações em que diferentes gerações dividam o mesmo teto. Gerações morando separadamente, em casas diferentes, foi possível devido à nossa riqueza. A economia continua a entrar em colapso, a sobrevivência terá precedência sobre a conveniência.

Muitas pessoas, que tem uma casa, devem estar preparadas para receber membros da família que passam por tempos difíceis. Quem não tem casa, precisará ser humilde para pedir ajuda. As pessoas podem não gostar desta realidade. É que as regras antigas não estão mais se aplicando. Estamos no início do pior colapso econômico dos tempos modernos e as coisas vão piorar.

Nos EUA, 63,6% dos restaurantes em Nova York disseram que provavelmente fecharão até o final do ano sem um pacote de ajuda e apenas 36,4% disseram que provavelmente ou provavelmente permanecerão abertos.

No Brasil não está sendo diferente só no Rio de Janeiro mais de 1000 bares e restaurantes faliram. Em Minas Gerais, mais de 40 mil trabalhadores de hotéis e restaurantes perderam seus empregos. Muitos outros estabelecimentos, como estes, fecharão suas portas até o final do ano.

O quão ruim as coisas têm que ficar, antes que os otimistas econômicos admitam? Temos um desastre econômico completo e absoluto em nossas mãos. O declínio de quase 10% do PIB brasileiro nos levará a mais uma década perdida contando a partir de hoje. Caso não tivéssemos sofrido uma deflação de produtos de hortifrúti, nosso índice de inflação estaria nas nuvens. Os preços nos supermercados subiram em média 20%.

Estamos a dois anos da eleição presidencial, mas agora a atenção do total do governo é o do palanque. Mais próximos da eleição, os EUA vivem o pior pesadelo eleitoral com uma verdadeira guerra entre milícias de pessoas negras contra supremacistas brancos, com vítimas fatais quase que diárias.

Como espelhamos aqui o que acontece lá, podemos estar caminhando para isso também. No Brasil ainda não assistimos o mesmo fenômeno dos norte-americanos, de filhos voltando em massa a morar com os pais. Quando as coisas ficarem realmente difíceis aqui também, provavelmente veremos este fenômeno. Passar pelo que está por vir não será fácil, e muitos irão precisar de alguém para se apoiar.

RG 15 / O Impacto

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *