Artigo – A volta do velho protecionismo europeu

Por Oswaldo Bezerra

A França bloqueou o Acordo do Mercosul. Argumentando motivos de respeito ao meio ambiente, na realidade esconde algo mais. O presidente francês, já dava indicação de sua oposição ao acordo comercial com a Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai há um ano.

O mandatário francês recorreu a uma comissão de especialistas “independentes” para dar um parecer final. No parecer dos técnicos, foram sublinhadas as preocupações da opinião pública e de organizações não governamentais sobre os riscos para a saúde e a necessidade de tornar o comércio mundial “verde”. O primeiro-ministro francês, Jean Castex, aceitou as conclusões do relatório elaborado por juristas, economistas, especialistas em agricultura e geopolítica.

Emmanuel Macron, cujo partido, La República en Marcha (LReM), está sangrando em votos e se tornou um produtor de dissidentes. Viu como ambientalistas locais, especialmente o grupo Europa Ecología Los Verdes (EELV), aumentou o apoio popular nas nomeações eleitorais e surge como o principal pivô da esquerda nacional.

Os interesses políticos, junto com a pressão dos produtores de aves, carne e fazendeiros não afetaram Macron nos primeiros anos no cargo. Macron se considerava o protagonista do “livre comércio” e era um inimigo furioso do “neoprotecionismo” de que acusava Donald Trump.

Depois de duas décadas de negociações infrutíferas, e finalmente um acordo, que na época o Palácio do Eliseu qualificou como “bom”, Paris mudou o discurso. A ideia é impedir a “ingenuidade do livre comércio” e lança um alarme sobre o “desmatamento”. A equipe de Macron faz do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, o pretexto para a mudança de atitude.

Macron atribui sua rejeição ao Mercosul pelo “ceticismo climático” do presidente brasileiro que, segundo Paris, não o detém, ao contrário, favorece. A França considerava, há um ano, que o Acordo do Mercosul incluía uma cláusula que obrigava Bolsonaro a respeitar os pactos climáticos, especialmente o de Paris em 2016.

Macron garante que a produção de carne bovina nos países do Mercosul aumentará 2 ou 3%, o que implicará, segundo suas projeções, um aumento paralelo de 5% no desmatamento na região.

A relutância francesa é sim baseada em interesses internos. E esta visão francesa está se espalhando pela Europa. Áustria, Holanda, Luxemburgo, Irlanda e Bélgica agora se alinham com os argumentos de Macron. A Alemanha, um dos países que mais defendeu o pacto do Mercosul, hoje discorda do acordo.

A nova “religião verde” espalha seu vírus político no território europeu, obrigando seus líderes a seguirem a voz do apocalipse ambiental, e passando a imitar o protecionismo do até então insultado presidente norte-americano.

O chefe de Relações Exteriores do Brasil garante que a Europa usa das questões ambientais e de saúde como uma desculpa mas, na verdade estão respondendo às pressões de seus lobistas agrícolas.

Os argumentos, para a mudança de atitude francesa, também não são convincentes no Uruguai. Um editorial do jornal “El País” denuncia isso como “uma reminiscência do antigo protecionismo europeu”.

A Europa poderia representar uma alternativa às pressões comerciais e políticas dos Estados Unidos e da China, envolvidos em uma guerra particular. A União Europeia quer desempenhar esse papel de alternativa, de acordo com as suas declarações, mas na realidade faz o contrário. O Acordo do Mercosul permanecerá no limbo.

O Brasil com seu novo governo, aos poucos e aos trancos e barrancos, está aprendendo que o grupo econômico vencedor nas próximas décadas será a Ásia. Intensificar o comércio com a Ásia, fugindo do protecionismo europeu e norte-americano, não é de todo uma má ideia.

RG 15 / O Impacto

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