Queimadas em Alter do Chão tornam real possibilidade de transformação da Floresta em Savana

As queimadas são uma constante na região amazônica e têm se tornado cada vez mais comum no Oeste do Pará, principalmente no Floresta de Alter do Chão. Além de ser um grave crime ambiental, as consequências para estes atos podem ser devastadoras e irreversíveis, já que as florestas amazônicas podem acabar se transformando permanentemente em áreas semelhantes às savanas. Este é foco de um estudo realizado por um grupo de pesquisadores, que investiga esse fenômeno em Alter do Chão, intensamente afetada pelo fogo no ano de 2019, e em Manaus.

Em longo prazo, essa mudança pode afetar de forma significativa o clima em nível global. O estudo é conduzido pela Universidade de Michigan, em colaboração com pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais da Amazônia da Universidade Federal do Oeste do Pará (PPGRNA-Ufopa), Universidade do Arizona, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Embrapa Amazônia Oriental.

Este mês, os primeiros resultados foram publicados na revista científica Ecosphere, no artigo “Reframing tropical savannization: linking changes in canopystructure to energy balance alterations that impact climate”.

Os pesquisadores monitoraram as duas áreas usando a tecnologia do sistema LIDAR portátil e instalando torres temporárias acima do dossel das florestas para entender como diferentes históricos de distúrbios podem mudar as condições locais.

Em Alter do Chão, onde há presença de áreas de floresta não perturbada, floresta impactada por fogo e uma savana natural, secas e incêndios podem estar convertendo mais floresta em savana. Tanto a savana como a floresta de Alter do Chão foram fortemente impactadas pelos incêndios em 2019, e os pesquisadores estão começando a documentar os danos e mudanças futuras na floresta.

Em Manaus, investigam uma área de pesquisa do Projeto de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, que abriga floresta tropical madura, uma floresta com 25 anos de idade e uma área próxima semelhante a uma savana aberta, onde o desmatamento anterior era mantido pela aplicação anual de fogo pelos fazendeiros.

De acordo com o estudo, apesar das grandes diferenças nos distúrbios que criaram os gradientes florestais nesses locais, os impactos das mudanças nas florestas, na temperatura local e nos fatores relacionados que afetam a atmosfera – chamados de fluxos de calor – foram muito semelhantes.

Outra preocupação sinalizada pelos pesquisadores são as queimadas crescentes e os riscos que trazem à saúde das populações que atravessam a crise provocada pela pandemia de covid-19.

Entre janeiro e agosto de 2020, 54.559 incêndios foram detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), os piores números registrados em uma década. Para as populações locais, a piora na qualidade do ar pode ter efeitos graves: a inalação de fumaça pode ocasionar inflamação dos pulmões e vias aéreas, o que pode ser fatal para aqueles já afetados pelo novo coronavírus.

NOVOS CASOS DE INCÊNDIOS: Somente entre domingo e segunda-feira desta semana, foram registrados três novos focos de incêndios em áreas da Floresta de Alter do Chão. Os primeiros focos foram registrados ainda no domingo e os bombeiros fizeram uma operação de combate ao fogo que durou cerca de 4 horas.

Após investigações, um grupo foi preso em flagrante por estarem limpando lotes irregulares dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Alter do Chão, exatamente no mesmo local em que os focos de incêndio foram registrados recentemente. Em depoimento, os presos afirmavam que foram apenas contratados para limparem a área desmatada e demarcar com pedaços de madeira os lotes irregulares, sendo que eles recebiam por esse serviço o valor de R$ 50 a diária. O grupo passou informações sobre quem havia contratado os serviços, sendo estes os prováveis donos dos lotes.

INCÊNDIOS EM NÚMEROS: Os incêndios na Amazônia brasileira pioraram neste mês de setembro e estão se espalhando cada vez mais para áreas de floresta intocada, isso segundo dados de satélite, depois que o número de incêndios provavelmente atingiu a máxima de 10 anos em agosto. O Brasil registrou 8.373 incêndios em sua parte da floresta amazônica nos primeiros sete dias de setembro, mais que o dobro do número de incêndios no mesmo período do ano anterior, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Uma preocupação urgente é que 27% dos maiores incêndios até agora em setembro foram em florestas intocadas, ao invés de áreas recentemente desmatadas ou terras agrícolas onde as chamas são mais contidas, de acordo com uma análise de imagens de satélite realizada pela Amazon Conservation, organização sem fins lucrativos com base nos Estados Unidos.

Considerando todos os tipos de incêndios, setembro já teve uma média de 53 grandes queimadas por dia na primeira semana, contra 18 por dia em agosto, de acordo com a Amazon Conservation. O número do Inpe, que mostra que os incêndios dobraram, pode estar subestimado porque um problema com um satélite da Nasa fez com que dados parciais fossem informados até 2 de setembro, embora a questão tenha sido resolvida nos dias subsequentes, de acordo com a Nasa e o Inpe.

Os dados revisados do Inpe devem mostrar que os incêndios atingiram a máxima de 10 anos em agosto, um índice ainda pior do que no mesmo mês do ano passado, quando os incêndios na Amazônia provocaram protestos globais.

Por Michael Douglas

RG 15 / O Impacto

 

2 comentários em “Queimadas em Alter do Chão tornam real possibilidade de transformação da Floresta em Savana

  • 27 de setembro de 2020 em 08:21
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    E aqueles ONGueiros que foram presos depois de atearem fogo em Alter, liberados a seguir por gente conivente do judiciário, não retornaram ? Olho vivo com essa galera…

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  • 25 de setembro de 2020 em 05:55
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    Tem que mudar a legislação a respeito, pois a atual não intimida qualquer incendiário; temos que acionar o Congresso !

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