Artigo – Porque as empresas norte-americanas não estão se mudando em massa da China para a Índia?

Por Oswaldo Bezerra

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, falou ao Economic Times, jornal indiano de língua inglesa, que a Índia será o centro de manufatura por conta própria no futuro. Modi, em um acordo com Donald Trump, provocou atritos na fronteira com a China para desestabilizar o país vizinho. Em troca, recebeu a promessa do governo dos EUA da transferência de toda sua indústria de manufatura da China para a Índia.

Modi afirmou, na entrevista, uma nova ordem mundial foi formada após a Segunda Guerra Mundial, e que algo semelhante acontecerá após a Covid-19. Modi também afirmou que, desta vez, a Índia tomará fabricação e integração nas cadeias de abastecimento globais, por ter vantagens na forma de democracia, demografia e demanda.

No meio do ano, a Índia dava por certa que 1.000 empresas manufatureiras dos EUA se mudariam da China para a Índia em meio à pandemia. De fato, um número muito pequeno de empresas se mudou para a Índia.

Por causa da guerra comercial EUA-China, iniciada em março de 2018, esperava-se que muitas empresas norte-americanas deixassem a China e fossem para a Índia. Apenas três das 56 empresas que saíram da China foram para a Índia em outubro de 2019. Dessas 56 empresas, 26 se mudaram para o Vietnã, 11 foram para Taiwan e oito para a Tailândia. Não foram tantas empresas norte-americanas que mudaram suas fábricas para fora da China, como os estrategistas dos EUA e indianos haviam estimado, e as empresas que deixaram a China não se mudaram para a Índia.

Os principais motivos para não realocar as fábricas para a Índia acreditam agora os analistas, incluem certos fatores não econômicos e relacionados à governança predominante na Índia. Os elementos não econômicos são uma longa lista. A Índia é muito mais complicada devido às infinitas formalidades legais.

O Banco Mundial sugere que leva 18 dias para registrar uma empresa na Índia, enquanto leva nove dias na China. Esse processo leva cerca de uma semana a mais do que a média nos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O processo de registro de uma empresa deve passar por 12 etapas, uma etapa a mais que no Brasil, e cada etapa envolve muita burocracia.

Uma licença de construção leva 34 etapas e 110 dias para ser processada. A aprovação deve ser obtida dos governos central e estadual. Não há limite fixo de tempo para obter permissão de departamentos governamentais relevantes.

Adquirir insumos básicos como terra, água e eletricidade, necessárias para a manufatura, não é tão fácil quanto em outros destinos. Por exemplo, leva de oito dias a três semanas para obter uma conexão elétrica.

A Índia tem uma infra-estrutura menos eficiente que a China, como menos redes rodoviárias e ferroviárias. Os portos marítimos e aeroportos também são menos eficientes no manuseio de cargas que na China. Isso tudo significa mais custos logísticos adicionais para produção e transporte. Custos extras tornam mais difícil para as empresas serem competitivas.

O regime tributário da Índia continua mudando, e a taxa de imposto também é muito mais alta que na China. Recentemente, o imposto sobre as sociedades foi reduzido de 40% para 25%. Já a China tem uma taxa fixa de imposto de renda corporativa de 25%, mas várias isenções podem reduzi-la para até 15%.

É mais complicado para uma empresa sair da Índia do que entrar. A Índia tem tentado melhorar essa situação com reformas, mas têm sido insuficientes e o processo ainda é complexo. O código de falências também é difícil na Índia.

Contudo, os principais fatores são de natureza mais econômica. A Índia apresenta oscilações cambiais relativamente baixas. No entanto, as oscilações cambiais da Índia são muito maiores do que as da China.

De acordo com a rede norte-americana CNBC, em janeiro de 2000, a taxa de câmbio chinesa era de 8,27 por dólar americano. Em outubro de 2020, havia se fortalecido para 6,69 yuans por dólar. Enquanto isso, a taxa de câmbio indiana era de 43,55 rúpias por dólar em janeiro de 2000, e havia enfraquecido para 74,54 em outubro deste ano. O yuan chinês se fortaleceu 19% em 20 anos, enquanto a rupia indiana enfraqueceu 71% no mesmo período. O yuan é mais estável do que a rúpia.

A volatilidade da moeda aumenta o risco do negócio. Uma moeda estável reduz o risco e aumenta o investimento, as vendas, os lucros e o valor da marca de uma empresa. A volatilidade da moeda significa menos investimento estrangeiro. Investimentos feitos por empresas dos EUA na Índia também diminuem de valor à medida que a moeda indiana se enfraquece em termos de dólares.

O segundo fator é a demanda do mercado. Modi afirmou na entrevista no Economic Times que seu governo distribuiu arroz e lentilhas para 800 milhões de indianos durante o bloqueio acionado pela Covid-19. Foi um programa sem paralelo na história humana.

Este número é muito importante para as empresas estrangeiras que desejam entrar na Índia. Da população de 1,3 bilhão da Índia, 800 milhões são pobres, que recebem subsídios para alimentação do governo. Essas pessoas não serão consumidores de bens e serviços caros das empresas norte-americanas. Empresas não entram em um país apenas porque ele tem uma grande população. A população precisa ter poder de compra para consumir seus produtos.

A China é um país produtor e consumidor. Tem cerca de 800 milhões de pessoas com renda média e alta. Por exemplo, a China foi o terceiro maior mercado da Apple em 2019 globalmente, e é o maior mercado da Ásia. A Índia tem apenas 20% do poder de compra da China porque a renda per capita da Índia é de apenas US$ 2.104, enquanto a da China era de US$ 10.261 em 2019.

A saída da General Motors da Índia, há três anos, da Harley-Davidson, mais recentemente, indica que os indianos não podem pagar pelos bens de empresas norte-americanas. Como há pouca demanda dos consumidores pelos produtos destas empresas, elas não veem perspectivas de vendas para justificar a mudança para a Índia.

O alinhamento de Modi com o presidente dos EUA, Donald Trump, se continuar após as eleições norte-americanas desta semana, pode trazer investimentos dos EUA para a Índia. No entanto, é preciso mais que amizade para trazer investimentos. Uma decisão de investimento é um empreendimento racional sem espaço para emoção.

Modi pode enganar o eleitorado indiano com os incidentes na fronteira. Contudo, não pode enganar as empresas norte-americanas para que se mudem da China para a Índia. As empresas não baseiam suas decisões de investimento em amizades presidenciais.

Seja Donald Trump ou Joe Biden, vencedor na eleição de amanhã, pode pedir às empresas americanas que se mudem da China para a Índia, mas ele não pode forçá-las. As próprias empresas norte-americanas decidem se deixam ou permanecem na China. Mesmo que saiam, existem alternativas melhores que a Índia no continente asiático.

RG 15 / O Impacto

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