Oncologistas fazem alerta a paraenses sobre o câncer de estômago

Por Edmundo Baía Jr.

José Oliveira, 69 anos, durante anos foi fumante, realizou o consumo de bebidas alcoólicas, além de ter uma alimentação baseada em produtos conservados em sal, comuns na culinária paraense. Hoje, se recupera de uma gastrectomia total, procedimento médico que remove todo o estômago.

Uma dorzinha, como ele mesmo diz, tratava com um chá ou remédio. Em novembro do ano passado, surgiram ínguas nas pernas, dores nas costelas, problemas com gases, falta de apetite e dificuldade para engolir.

“Eu pensava que estava com Covid e me recolhi em casa. Depois de algum tempo a situação se agravou. Nunca ia ao médico, achava que não precisava”, relata.

Um mal-estar no estômago costuma ser tratado com chás e medicamentos comprados sem orientação médica, porém, a automedicação que alivia temporariamente um sintoma pode mascarar um alerta para algo mais grave: o câncer gástrico.

Esse tumor não apresenta sinais específicos em fase inicial e muitas das vezes é confundido com gastrite, úlceras pépticas e doenças de refluxos, o que dificulta o diagnóstico precoce.

No estado do Pará, é o segundo tipo de câncer mais incidente em homens e o terceiro em mulheres, e são esperados 860 casos novos até o final deste ano. Também é o mais letal entre os homens paraenses, conforme dados de 2020 do Sistema de Informação sobre Mortalidade do DataSUS. O câncer de estômago causou a morte de 413 pessoas do sexo masculino, seguido por 397 óbitos por neoplasia maligna da próstata.

Durante o primeiro semestre deste ano, o Centro de Alta Complexidade em Oncologia do Hospital Ophir Loyola registrou mais de 600 pessoas em tratamento contra algum câncer do aparelho digestivo: esôfago, estômago, cólon e reto.

O adenocarcinoma é o tipo histológico de tumor gástrico mais frequente, desenvolve-se na mucosa, sendo responsável por 95% dos casos e atinge homens com idade entre 60 e 70 anos. Os outros 5% são representados por linfoma, tumor estromal e leiomiossarcoma, raros, mas também podem ocorrer no estômago.

Segundo o chefe da cirurgia oncológica do Ophir Loyola, Alessandro França, o tumor gástrico é mais comum no sexo masculino, não devido a diferenças genéticas entre os sexos, mas porque “o homem se expõe mais aos fatores de risco, como o consumo excessivo de tabaco e álcool, alto consumo de alimentos defumados e alimentação pobre em verduras, legumes e frutas frescas, prejudicando a ingestão de vitaminas e sais minerais que protegem a estrutura celular”.

França afirma que “a infecção a longo prazo pela bactéria H. pylori também tem uma relação direta com a formação do câncer de estômago, porém, não são todos os subtipos da bactéria que causam a enfermidade”. E faz um alerta que, tanto por fatores ambientais quanto alimentícios, os mais acometidos pela neoplasia do aparelho digestivo são os moradores das cidades da região do Salgado, como Vigia, Salinópolis, Curuçá, Maracanã, entre outras, em que a alimentação da população tradicional é caracterizada pelo alto consumo das nitrosaminas, substâncias reconhecidas como cancerígenas.

“As refeições dessas pessoas têm como base a carne de sol, camarão, charque, peixe e aquelas conservadas em salmoura, contudo, ao se mudarem para outras regiões, diminuem o risco de ter câncer pela mudança às exposições ambientais”, explicou o médico.

ALERTA

França adverte que não se deve tratar um sintoma repetitivo em casa, como dor, azia ou sensação de empachamento, mas procurar um gastroenterologista a fim de diagnosticar se é doença benigna ou câncer.

 “Com a evolução do tumor, os sinais ficam mais aparentes, como perda de peso, vômitos após a alimentação ou dificuldade para engolir sólidos, depois passa para pastosos e líquidos, sucessivamente. Também podem surgir anemia, fraqueza e, em casos mais avançados, uma massa palpável na parte superior do abdômen e nódulos ao redor do umbigo”, afirma o especialista.

O principal exame usado no diagnóstico de tumores gástricos malignos é a endoscopia digestiva, seguida de biópsia. Os casos iniciais podem ser tratados com ressecção endoscópica, mas o tratamento predominante é a cirurgia para a retirada de todo (gastrectomia total) ou parte do estômago, dependendo da localização do tumor, associado a retirada de linfonodos do órgão.

A radioterapia e a quimioterapia podem ser utilizadas como adjuvantes, mas não são usadas isoladamente como tratamento curativo.

Uma pessoa consegue viver sem ou com a redução do estômago, porém, terá de fazer reeducação alimentar com o aumento do número de refeições e redução do volume de cada alimento, a fim de obter todas as calorias necessárias à recuperação. Mastigar bastante os alimentos e não ingerir líquidos com as refeições. Em casos de retirada integral do estômago, o paciente deverá repor a vitamina B12 por via parenteral.

O tempo de adaptação varia de pessoa para pessoa e depende muito do tipo de cirurgia. Aqueles submetidos à gastrectomia total apresentam um tempo mais prolongado de adaptação.

“Os tumores de estômago são curáveis desde que sejam diagnosticados no início, quando podem ser tratados de forma endoscópica ou mesmo com uma cirurgia menos invasiva. Porém, os pacientes somente buscam atendimentos quando os sintomas estão evidentes, portanto são diagnosticados numa fase tardia e a possibilidade de cura fica comprometida. Em casos mais avançados, há maior chance de recidiva ou de apenas de cuidado paliativo”, frisou Alessandro França. (Com informações da Agência Pará)

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