Artigo – O analfabetismo funcional no Brasil

Por Thays Cunha

Embora as políticas públicas educacionais no Brasil tenham melhorado ao longo das décadas, infelizmente até hoje ainda não foi possível a erradicação total do analfabetismo em nosso país. E essa é uma condição que não se remete somente aos mais velhos, como também a crianças e adolescentes, que juntos totalizam um grande número de pessoas que vivem as suas vidas sem aprenderem nem a ler e nem a escrever. Isso ocorre por diversos fatores como, por exemplo, a falta de oportunidade para ingressar em uma escola, trabalho infantil, falta de educandários nas regiões mais precárias e às vezes até falta de motivação em estudar diante de problemas.

Os analfabetos são aquelas pessoas que mal conseguem escrever o próprio nome ou, mesmo que consigam, não vão além disso. Mas há também aqueles chamados de analfabetos funcionais, que são pessoas que receberam alguma educação, aprenderam a ler e a escrever, mas não conseguem entender textos grandes e deles fazer inferências e análises. Ou seja, são pessoas que conseguem ler, mas não entendem muito do que está escrito. Segundo uma pesquisa realizada através das parcerias entre a ONG Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro e intitulada Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), “alfabetismo é a capacidade de compreender e utilizar a informação escrita e refletir sobre ela, um contínuo que abrange desde o simples reconhecimento de elementos da linguagem escrita e dos números até operações cognitivas mais complexas, que envolvem a integração de informações textuais e dessas com os conhecimentos e as visões de mundo aportados pelo leitor”.

A pesquisa Inaf, que entrevistou pessoas entre 15 e 64 anos de idade residentes em zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país, coletou dados que mostram que “os Analfabetos Funcionais – equivalentes, em 2018, a cerca de 3 em cada 10 brasileiros – têm muita dificuldade para fazer uso da leitura e da escrita e das operações matemáticas em situações da vida cotidiana, como reconhecer informações em um cartaz ou folheto ou ainda fazer operações aritméticas simples com valores de grandeza superior às centenas. O teste realizado pela pesquisa analisa as habilidades dos indivíduos na prática de leitura, escrita e matemática voltadas para o cotidiano. Os resultados mostram que a classe de analfabetos funcionais se dividem em ‘absolutos’, que são pessoas que não conseguem ler palavras, frases e números; e rudimentares, que são os que têm dificuldades para identificar as nuances presentes em um texto e figuras de linguagem como ironias e sarcasmos, e de realizar operações matemáticas simples”. E infelizmente a situação parece que só tende a piorar, pois desde 2009 houve uma estagnação do crescimento da população que poderia ser considerada Funcionalmente Alfabetizada.

O fator escolaridade é o que ajuda a impulsionar os níveis de alfabetização, pois quanto mais uma pessoa avança os níveis de escolaridade, mais ela conseguirá lidar com a linguagem de maneira proficiente. No entanto, ir à escola não conta como garantia de que uma pessoa se tornará plenamente alfabetizada.

De acordo com a pesquisa citada, embora a escolaridade se confirme como o principal fator para uma pessoa se tornar funcionalmente alfabetizada, é possível observar que essa não é uma relação linear, pois “há uma significativa proporção de pessoas que, por exemplo, mesmo tendo chegado ao Ensino Médio e ao superior, não conseguem alcançar os níveis mais altos da escala de Alfabetismo”.

Assim, 13% das pessoas que concluem o Ensino Médio podem ser classificadas como Analfabetas Funcionais. Já em relação ao Ensino Superior, onde se presume que todos os que nele ingressam devam ser plenamente conscientes daquilo que leem e produzem, apenas um terço (34%) das pessoas que atingem esse nível podem ser consideradas proficientes, ou seja, mesmo estando no mais alto grau escolar essas pessoas não correspondem ao mais alto grau de alfabetismo.

Destaca-se também que, entre os analfabetos, apenas 46% estavam trabalhando, enquanto 71% dos que foram classificados no nível proficiente possuíam emprego. Verifica-se, assim, a maior dificuldade dos analfabetos em serem incluídos no mercado de trabalho.

Essa situação é preocupante, uma vez que a maioria dos analfabetos funcionais recebeu algum tipo de instrução escolar, ou seja, não são pessoas que jamais pisaram em uma sala de aula. Mesmo assim apresentam imensa dificuldade em ler e entender aquilo que leem, o que mostra que algumas escolas brasileiras podem não estar conseguindo alfabetizar as pessoas e fazê-las utilizarem a linguagem de forma aprofundada.

O fato de que há alunos nas universidades que não possuem proficiência na própria língua também é algo a ser pensado, pois desse modo inferimos que muitos profissionais não conseguirão se qualificar para a realização de suas tarefas, uma vez que não conseguem interagir com a linguagem de forma plena e consciente. Assim, enfrentar esse problema dependerá de uma maior aplicação de políticas públicas e recursos na área da educação. E nesse momento em que as unidades escolares estão passando por mudanças significativas por conta das limitações ocasionadas pela pandemia de covid-19 é ainda mais importante lutar contra o abandono escolar, pois esse é um dos fatores que influenciam no aumento do número de pessoas analfabetas funcionais.

Contudo é necessário também que o governo faça investimentos na formação de professores para que eles saibam não somente ensinar, mas também como alfabetizar os seus alunos, os transformando em leitores críticos que não só recebem as informações prontas do mundo exterior, mas sim que param para refletir e analisar o que estão lendo ou escrevendo. Deve-se fornecer a todos os brasileiros o acesso à cultura letrada, à informação e à cidadania plena para que tenham oportunidades de trabalho digno e igualdade social.

RG 15 / O Impacto

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