Vaticano impõe lei do silêncio a cardeais

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Se já estava difícil falar com um cardeal antes do conclave para a eleição do sucessor de Bento XVI, agora está quase impossível. A Congregação-Geral do Colégio Cardinalício, que vem se reunindo desde segunda-feira para discutir a situação da Igreja e traçar o perfil ideal do novo papa, proibiu qualquer manifestação de seus membros, sejam eleitores ou não, sobre o que está ocorrendo na sala de debates.

Além da determinação, que alimentou várias especulações da imprensa, a demora para a chegada a Roma de dois cardeais adiou por mais um dia a definição da data do início do conclave.

Jornalistas que conseguem abordar um cardeal recebem respostas monossilábicas, evasivas ou um silêncio intransponível. “Lembro-me sim do senhor, mas não posso falar”, esquivou-se o cardeal João Braz de Aviz – um dos cinco eleitores brasileiros no conclave -, ao chegar nesta quarta-feira à tarde à Basílica de São Pedro. Quando a reportagem perguntou se o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, havia feito uma intervenção, terça-feira, no plenário, d. João continuou caminhado, com a cabeça levantada, sem dizer uma palavra.

O arrocho contra a divulgação de notícias sobre as reuniões preparatórias do conclave atingiu a delegação americana, cujos cardeais vinham falando sobre o processo de sucessão em concorridas entrevistas coletivas no Colégio Americano, onde residem padres e seminaristas dos EUA que fazem doutorado em universidades de Roma. A entrevista desta quarta com dois cardeais, Francis George e Theodore McCarrick, foi cancelada, uma hora antes de ser iniciada.

O porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, explicou que a lei do silêncio imposta aos cardeais foi tomada por consenso. Os americanos, segundo padre Lombardi, achavam que deviam dar informações aos católicos dos Estados Unidos. Mas o vazamento de informações sobre os debates na Congregação-Geral, que vem discutindo o escândalo Vatileaks, além de temas como pedofilia e corrupção na cúpula da Igreja, teria contrariado a Cúria Romana

Entre os cardeais que manifestaram à imprensa preocupações com os temas, um dos mais enfáticos foi o americano Daniel DiNardo, arcebispo de Gavelston-Houston, no Texas. “Nós queremos saber o máximo possível sobre a governança na Igreja”, garantiu, em entrevista na terça. “Isso tomará o tempo que for necessário. Ninguém quer precipitar as coisas.”

Debates – O porta-voz informou, sem entrar em pormenores, que nas quatro reuniões realizadas desde segunda houve 51 intervenções de cardeais que foram ao microfone para falar de questões como a Igreja no mundo de hoje e as exigências da nova evangelização (reconquista de fiéis que perderam a fé ou se mudaram para outras igrejas), as relações da Santa Sé e da Cúria Romana com os episcopados nacionais e, a principal revelação, a busca do perfil do novo papa.

“O dia do início do conclave ainda não foi marcado”, adiantou-se Lombardi. A demora se deve à decisão de aguardar a chegada a Roma de todos os cardeais eleitores. “Já estão presentes aqui 113 cardeais eleitores, só faltam 2”, informou o porta-voz, referindo-se ao cardeal polonês Kazimierz Nycze e ao vietnamita Jean-Baptiste Pham Minh Mân – a chegada dos dois está prevista para hoje. De acordo com a lei da Igreja Católica Romana, os cardeais têm até 20 de março para iniciar um conclave para escolher seu novo líder.

Padre Lombardi exibiu um vídeo da TV do Vaticano sobre as obras de adaptação da Capela Sistina para a reunião do conclave. As cenas mostravam técnicos e operários cobrindo o piso com um assoalho falso e instalando duas estufas para a queima de papéis com os votos e anotações dos cardeais e a produção da fumaça branca que anunciará a eleição do novo papa.

 

Fonte: Estadão

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