Fim da gorjeta causa revolta de garçons em churrascaria

Waldeir Lima à esquerda e o colega de bandeja Ademilson da Silva exibem a carta de demissão que receberam  justa causa
Waldeir Lima à esquerda e o colega de bandeja Ademilson da Silva exibem a carta de demissão que receberam justa causa

A revolta dos garçons da churrascaria Porcão Rio’s deixou clientes de pratos vazios na terça-feira, bem na hora do almoço. Irritados com o novo sistema de gorjetas adotado em todos os restaurantes da rede — a partir de segunda-feira, só serão repassadas os 10% que forem pagos em espécie pelos clientes —, um grupo de profissionais abandonou os salões e se reuniu no refeitório restrito aos funcionários. As portas do restaurante foram fechadas, ninguém entrava ou saía. Houve gente que se recusou a pagar a conta, alegando que a fome não havia sido satisfeita. De troco, o Porcão pegou pesado: demitiu oito funcionários, por justa causa.

Nesta sexta-feira, a turma da bandeja ameaça parar de novo, sem medo. Na quarta-feira, por meio de nota, o restaurante informou que apenas 12 profissionais interromperam as atividades. Mas um grupo de 15 garçons, reunidos ontem no estacionamento, contou uma versão diferente. Segundo eles, mais de 20 pessoas foram demitidas e cerca de cem participaram da paralisação, incluindo a equipe da cozinha. A turma reclama que não foi comunicada oficialmente pela empresa sobre as mudanças no repasse das gorjetas.

Rodízio custa R$ 112

Por volta das 13h30m de terça-feira, após checar as comandas, os pratos e copos começaram a ficar vazios. Um dos demitidos ontem, o alagoano Waldeir José Santos de Lima conta que toda a confusão começou no sábado:

— Tudo se iniciou num papo de corredor, um disse-que-disse. Trabalhamos normalmente até terça. Quando vimos que as contas pagas em cartão não cobravam os 10%, nós paramos. Mais de cem funcionários se reuniram no refeitório. Não foi uma greve, mas uma paralisação. Voltamos a trabalhar às 16h. Além dos garçons, duas pessoas do bufê, um sushiman e um cozinheiro, pelo menos, foram dispensados — diz Waldeir, que cursa o décimo período de Direito na Universidade Cândido Mendes.

Na opinião dele, a demissão por justa causa foi injusta:

— Isso vai nos prejudicar ainda mais. Como vamos procurar emprego agora?

Segundo Waldeir, a manifestação de terça-feira não foi a primeira. Pouco antes da Páscoa do ano passado, os garçons teriam cruzado os braços por conta de atrasos de salário. O blog do colunista Ancelmo Gois, do GLOBO, chegou a noticiar uma paralisação de uma hora, ocorrida em 8 de abril.

Na segunda-feira, o valor do rodízio aumentou de R$ 102 para R$ 112, sem incluir bebidas e sobremesas. A rede Porcão não revela o faturamento diário de cada unidade, mas, no caso do Porcão Rio’s, sabe-se que os salões costumam ficar lotados na hora das refeições, seja qual for o dia da semana. A casa tem 1.030 lugares, distribuídos por cinco salões. Lotada, o faturamento só com rodízios seria de mais de R$ 230 mil por dia.

Dona da rede Porcão, a Brasil Foodservice Group informa que está negociando um acordo com o sindicato da categoria para incluir a receita das gorjetas no contracheque dos funcionários.

Percentuais variados

Embora não seja obrigatória, a gorjeta é reconhecida como parte da remuneração dos garçons pelas leis trabalhistas. E a sobrevivência de boa parte da classe depende e muito dessa gratificação extra dada pelos clientes. Quanto mais top for o estabelecimento, mais alta será a contribuição para a caixinha. Ou diretamente para o bolso do garçom. No Antiquarius, por exemplo, é prática dar a gorjeta em dinheiro vivo, nas mãos do profissional. A conta vai para o cartão de crédito.

Alguns estabelecimentos trabalham com um sistema de “caixinha” única, ou seja, as gratificações são guardadas até o fim do expediente. Depois de contabilizado, o valor total é repassado proporcionalmente aos “pontos” (por produtividade ou função) de cada funcionário, do salão à cozinha.

Aqui no Brasil, imperam os 10%. Na Inglaterra, são 12,5% que vêm na conta. Mas o cliente pode não pagar. Basta não ter gostado do serviço dispensado e participar ao gerente. Sem bateção de panelas. Fora a taxa de serviço, existe a gorjeta, que é um hábito comum entre os ingleses. Daí, melhor desembolsar mais 10%. Nos Estados Unidos, deixar de contemplar o atendente com os 15% do serviço, independentemente de qualquer avaliação pessoal, dá briga. Na Itália, imperam os 12%. Na França, os 10% do serviço vêm na conta, mesmo assim, costuma-se deixar uma gorjeta. A clientela russa pega pesado: 20%.

Já no Japão, a gorjeta é considerada humilhação. Afinal, servir bem é obrigação.

Fonte: O Globo

 

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